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 Diario de um confinado ...

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MensagemAssunto: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptySeg Mar 23 2020, 12:40

Diario de um confinado ... P1090317

Faz exactamente uma semana que estou (estamos) confinados. Na nossa aldeia, naturalmente silenciosa, às portas de Montpellier o barulho da sociedade desapareçeu, ném carros, ném obras, ném passos se ouve ... apenas os sons da vida animal, da natureza. Para mim que sou um urbano isto é inabitual, opressante mesmo e o que era um assumido acto civico està a se transformar progressivamente em fardo, necessario e obrigatorio. Habitualmente o meu quotidiano està entrecortado pela visita de amigos, por uma garrafa aberta no auditorio com um queijo e paio, pelas saidas ao mercado, ao restaurante e os jantares com amigos no fim de semana. Tudo isso pareçe longe paradoxalmente, pois faz apenas uma semana, e o novo ritmo instala pouco a pouco uma reflexão profunda sobre o que se passa, sobre a sociedade, sobre o futuro. As noticias são màs, o pior està ainda por aconteçer e paralelamente o futuro desenha-se dificil, apocaliptico. De natureza optimista continuo a acreditar que algo de bom vai sair disto, que não é por acaso e que talvez este sinal seja escutado, compreendido. Entretanto aproveito no limite do possivel desta primavera que vém de nascer, estranha mas é a primavera na mesma. Os pàssaros cantam como se tudo estivesse na mesma, mas não està. Deixo as ideias se desentrelaçar, deixo o espirito devanear, escuto os passaros e isto leva-me até esta linda canção. Abro uma cerveja no jardim, ponho os auscultadores e enquanto "vaporiso nicotina" escuto esta bela faixa do Peter Hammill ...


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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyQui Mar 26 2020, 16:36

Diario de um confinado ... Picstl10


Esta serra que se vê ao longe é o Pic Saint Loup. nas suas encostas é produzido um dos melhores vinhos da região e mesmo do sul da frança que é a AOC Pic Saint Loup. Como està a menos de 10km de casa, no fim de semana vou visitar alguns viticultores que conheço e aprecio e comprar um pouco de vinho. Este confinamento não me permitiu de ir na semana passada e não sei quando poderei voltar, pois a coisa pode durar vàrias semanas ao que se diz. Os agricultores pedem ajuda para as colheitas pois téem falta de mão de obra ... propuz-me de ir ajudar um dia ou dois se for necessario. O estado françês vém de decidir de pagar todas as pessoas que tiveram que deixar de trabalhar não salariadas, mais uma vez a intervenção do estado providência leva as pessoas a esperar em vez de agir ... a republica tornou-se a mamã. Os amigos telefonam-me vàrias vezes por dia e muitos inquietam-se para o futuro. Todos estão a anular as reservações para o verão, talvez deva fazer a mesma coisa. As reportagens são alarmistas e a crise sanitària deve atingir um maximo na semana que vém. O exercito jà montou hospitais de guerra nas zonas mais infectadas e alguns barcos hospital estão a tratar das pessoas e a trazê-las das ilhas até ao continente. Entretanto escuto musica e penso que tudo isto é um sonho e que vou acordar ... ao menos evita de ter uma reflexão profunda sobre o que se passa. Veremos mais tarde o que tudo isto vai dar como resultado socio-politico ...

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José Miguel
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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyQui Mar 26 2020, 17:28

Espero que o Paulo continue a dar entrada neste seu diário, é sempre um gosto poder observar o mundo pelos olhos de outra pessoa. Wink


Não querendo invadir o seu espaço, deixo apenas nota de uma conversa que muitas vezes se vem repetindo aqui por casa ou com amigos: apesar de toda esta situação levar a crer que estão a acontecer mudanças, verdadeiramente eu/nós não as vemos a acontecer.

É certo que a Economia abrandou, afinal de contas está quase tudo fechado, mas e o Homem, abrandou?


A velocidade a que acontece a vida parece mesmo ter acelerado nos últimos dias, a procura pela informação ao segundo trava a possibilidade de reflexão e pode muito bem servir de metáfora para este tempo. Estamos preocupados com os números, mas estaremos preocupados com as pessoas ou com a vontade de não pertencer aos números?
Quem abrandou a Economia foi o Homem e o mesmo Homem voltará a colocar o pé no acelerador...

Uma imagem que também serve para ilustrar quão mal estamos é esta:
Diario de um confinado ... Img_797x448$2020_03_18_12_30_54_623066
https://www.publico.pt/2020/03/19/fugas/noticia/peixes-cisnes-patos-quarentena-deixar-aguas-veneza-cristalinas-nova-vida-1908484

Dá que pensar, a imagem é de Veneza e em algumas semanas parece ter sido mudada, como se de uma piscina se tratasse... até peixes se podem ver por lá!

Na China também se notou a melhoria da qualidade do ar, mas ninguém quer saber dos Chineses... eles estão longe, o ar deles é deles... a não ser que... isto ande tudo ligado.


Como o Paulo fala e gosta de vinho, não sei se aí 2017 foi um ano de eleição, aqui foi! Ano particularmente quente, convidou a vindimas antecipadas e produziu vinhos que ficarão na memória. Este talvez venha a ser menos quente, mas pode gerar grandes surpresas, quem sabe o que poderá produzir um ano "clássico". Wink
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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyQui Mar 26 2020, 19:51

José Miguel escreveu:
... Não querendo invadir o seu espaço, deixo apenas nota de uma conversa que muitas vezes se vem repetindo aqui por casa ou com amigos: apesar de toda esta situação levar a crer que estão a acontecer mudanças, verdadeiramente eu/nós não as vemos a acontecer. ...

José isto é um topico como qualquer outro ... participa quanto queiras !!!

Também não penso que algo mudarà aqui. Como sempre a grande maioria dos franceses contam com o estado para tudo, e mesmo as compras gostariam que fosse o exercito que as faça e que lhes traga a casa Laughing

O que vai mudar aqui serà pouco ... talvez a dependência em relação à china no que diz respeito a alguns produtos sanitàrios mude, mas fora isso vai ser acelarar a fundo e re-lançar a economia como ela estava. De todas as maneiras nunca ninguém imaginou mudar ... as mudanças preparam-se antes e não depois, e de todas as maneiras mudar em que direção pois não hà plano B previsto no sistema socio-economico actual !!!

Mas, se isto durar talvez deixe um rastro na memoria das pessoas e então com o tempo, quém sabe Wink

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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptySex Mar 27 2020, 10:47

Here in Germany it's also much more quiet than normally which gives a spooky feeling. Shops and restaurants are closed, also all hotels, campings etc., only grocery shops are open and restaurants are allowed to sell take-away food.
Most people with office jobs work from home, which is quite normal for some like me and very unusal and new for many others.
We are not totally confined and are allowed to go outside, but only alone, with family or household members or one other person.
So, we have kind of a Corona "deluxe" situation at the moment.

We live here at the border to France, so for many people it's everyday life to go to work, school, go shopping or spend leisure time in the other country. Now the border is closed (which was unthinkable until now) and only people with permissions are allowed to cross. The same situation is 60 km south at the border to Switzerland.

This all gives a very strange impression of being "imprisoned" which feels very bad...

And to be honest, I'm much more afraid from the social and economic consequences of the current sitation than of the virus itself. I can't get out of my head are the numbers which are very different from country to country. While the number of infected people in Germany is also very high and still increasing, the difficult cases and the mortality is signicicantly lower than in Italy, Spain or the direct neighbourhood in France, Grand-Est. I have still no valid explanation for that strange phenomenon but I'm afraid there were made many mistakes made in the begining, For example I've read that hundreds of medical staff are infected alone in the Alsace and perhaps they might have spread the virus too fast among the risk group of older and ill people without knowing it.

But the numbers in Germany gives me hope, not only for the people here of course, but for all people because I'm sure there is a way out of this very unique situation!

Daily life is very different, of course. Because our youngest 15 years old son cannot go to school he studies at home. He's quite introverted, so he's quite satisfied with the situation and meets from time to time with a close friend outdoors. Our older son is 21 and normally lives, works and studies during the week in his own appartment, now he's here. So we talk and discuss much more als a family than normally. Our daughter (23) moved, long planned to Sweden, luckily that happened the week before the confinement and the closing of borders! She had to cancel her long planned travel to Asia with her friends and stays in Sweden for now with her boyfriend, who is quite happy about that.

The daily music listening session usually in the evening gives me much calm, strength and joy, and it connects me somewhat with the musicians and the creators of my loved system!

I like (and share) Paulo's hope that there might emerge something good from that very much!

cheers
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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptySex Mar 27 2020, 14:20

mannitheear escreveu:
... While the number of infected people in Germany is also very high and still increasing, the difficult cases and the mortality is signicicantly lower than in Italy, Spain or the direct neighbourhood in France, Grand-Est. I have still no valid explanation for that strange phenomenon but I'm afraid there were made many mistakes made in the begining ...

I guess that in Germany you get the problem earlier, fastier and maybe in a better way then we did it here. Furthermore the discipline isn't the greatest strengh of the latin people, so when you see at Paris (in all the country was the same) the day before the containement all the people gathered in the bars to drink a last drink, it is on that the problems would only grow. As if by chance, the countries most affected by the epidemic are Spain, Italy and France ... this gives us questions to ask ourself later and answers to find Wink

Biz Man and take care of you and your family !!!

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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptySex Mar 27 2020, 15:28

Diario de um confinado ... Aaa10


A relação sinal ruido aqui em casa é muito boa pois vivemos numa aldeia, mas actualmente està espectacular. Se juntar-mos a isto a necessidade e obrigação de estar em casa então é o momento ideal para ouvir musica em boas condições. Fui fazer compras esta manhã e o supermercado estava deserto, muitas estantes quase vazias e as pessoas evitavam cruzar-se umas com as outras e mesmo tocar nos frutos e legumes, como se cada outro ou cada objecto fosse um leproso. O "outro" tornou-se numa arma biologica e basta ver as operadoras de caixa com os escafandros anti-contaminação para perceber que estamos em guerra. Curiosamente, a zona dos vinhos estava cheia e sém buracos levando-me a pensar que os franceses deixaram de beber vinho, ou que sò bebem agua durante o confinamento ... é algo que eu deveria experimentar pois faço o contrario. A guerra entre os eminentes ciêntificos gauleses para encontrar um remédio eficaz contra o virus chinês està no seu auge. Cada um gabando os seus resultados e cuspindo nos do vizinho, pois jà se sabe que as guerras do ego são sempre batalhas solitàrias, o outro é apenas pretexto à auto-valorisação. O hospital de campanha montado pelo exercicito françês em Mulhouse levou mais de uma semana a ser instalado, em caso de guerra ele servirà a proteger os mortos da chuva. Um dos meus amigos intimos aqui no burgo vive calafetado, isolado e sozinho hà mais de dez dias no seu apartamento. Hoje ao meio dia tinha vertigens e palpitações cardiacas, imagino que se trata de uma crise de angustia. Disse-lhe para vir aqui até casa, não quiz, então disse-lhe para beber uma ou duas garrafas de branco, açeitou, telefonou-me a me dizer que jà se sente melhor. A grande maioria da população francesa foi condenada à prisão domiciliária, mas como sempre o sonho do detido é de escapar. Da janela vejo alguns a correr com o intuito de se afastar mais depressa do seu presídio e outros a passear descontraidamente, para não dar nas vistas das autoridades de certeza. Os meus dois gatos não pareçem preocupados por esta crise sanitària e não respeitam as ordens de confinamento. Jà lhes preveni que se forem multados vão ter que se desenrascar sozinhos, eu não pago! A Sanofi vém de anunciar a oferta de 6 milhões de doses de cloroquina aos hospitais, pareçe-me ser uma maneira discreta de se desculpar que esse medicamento seja feito na china, para economisar 2cts por comprimido. Aliàs, aprendi que a grande maioria dos medicamentos criados em frança são produzidos em todo o lado menos aqui, que país tão generoso é a Gália. Bom, agora que jà fiz um pouco de exercicio mental e que deixei as minhas ideias passear é tempo de ouvir musica. A relação sinal-ruido està mesmo excelente por aqui, até me entendo pensar ...

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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptySex Mar 27 2020, 15:58

A escolha do tema de fundo é preciosa, mas infelizmente aqui é ao contrário... no prédio ao lado prepara-se um apartamento para quem o comprou e o ruído dos martelos é constante, das 8h às 18h não há sossego.

Para trabalhar eu escondo-me nas traseiras da casa, a esta hora apanho sol de frente... as costas da casa são voltadas para o mar, mas para mal dos meus remédios eu apenas consigo ver cimento cada vez menos entrecortado por movimentos de pessoas. As janelas pouco se abrem, as pessoas de forma fugida espreitam e voltam para a segurança do interior.


Tenho dado algum uso aos Sennheiser Momentum, assim não cruzo sons com a Luciana e não recebo as marteladas nas paredes vizinhas, melhoro significativamente a relação silêncio/ruído... para o devido efeito, não fico muito mal servido, escuto Música com tons pastel, não cansa, mas não resisto a pensar que falta alguma coisa.


In vino veritas é uma frase que entra aqui bem, por vezes é preciso baixar os níveis de tensão para ver as coisas como elas são, o vinho ajuda a abrandar e na medida certa pode colocar-nos no ponto certo.
Perto de casa temos um supermercado relativamente pequeno, mas com uma garrafeira que deixa ficar mal alguns dos maiores. Lá encontramos os Burmester, tintos que nos andam a encher as medidas - desde as gamas de entrada, estes tintos do Douro revelam grande equilíbrio. Há notas de fruta madura bem presentes, há acidez no ponto, taninos controlados, boa persistência e o nariz é bom logo ao abrir a garrafa... Wink
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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptySex Mar 27 2020, 17:59

Our daughter told me just at the telephone that a friend of her living not far from us has been infected and was positively tested. Until she got the result, she's almost totally recovered again. The rest of the family (parents, two brothers and a grandma with 80) had it probably, too but even the grandma is over the hill. They had minor symptoms and fever on one day but lost sense of taste and smell for a week or so but didn't need treatment or hospital...

cheers
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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptySex Mar 27 2020, 19:07

TD124 escreveu:
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(...) agora que jà fiz um pouco de exercicio mental e que deixei as minhas ideias passear é tempo de ouvir musica. A relação sinal-ruido està mesmo excelente por aqui, até me entendo pensar ...

Exercício intelectual apreciado, assim como o álbum «Anastasis».
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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptySab Mar 28 2020, 15:06

Diario de um confinado ... P1090325

O governo prolongou o confinamento obrigatorio até ao dia 14 de abril ... a mulher jà preparou a cadeira de leitura pois o tempo vai ser longo, muito longo. Deveria meter uma cadeira assim no auditorio, poderia ouvir deitado, dormir a sesta sempre rodeado de musica num estilo descontraido tipo orgia romana com um cesto de fruta e vinho. Acho que vou dar uma volta até Bouzigues e comer uma duzia de ostras bem frescas, saidas da ria hoje mesmo. Aprendi que durante a onda de calor em 2003 foram 20000 pessoas que morreram em frança, dez vezes mais do que o virus chinês pelo momento. Aliàs, o primeiro ministro português lembrou ao ministro holandês que o virus não tinha sido criado pelos espanhois, esses pobres holandeses não devem ter internet. Pareçe que as visitas ao sitio Youporn estão em aumentação constante e que travam o acesso internet global, em contrapartida aqui no AAP é ao contrario. Três mil milhões de pessoas confinadas obriga a encontrar novas maneiras de passar o tempo, vai nascer uma nova geração de audiofilos e a produção de audio vai subir em flecha, não são boas noticias isto tudo. Até agora os audiofilos eram os guardas do templo, uma espécie de templarios da Musica, orgulhosamente sòs e contentes por isso. Quando todas as pessoas forem audiofilos vamos ter que encontrar outra singularidade, ir à pesca ou caçar. Alguns amigos pensam que isto é uma artimanha do Trump para destruir a china e a europa, ambos os seus principais inimigos. Não creio que a china do alto dos seus dois milénios de historia seja afectada por tão pouco, mas a europa não precisa da intervenção dos EUA, sabemos muito bem nos destruir entre nòs e temos uma grande experiência nisso. Esta crise vai aumentar o preço dos discos vinilos e criar uma penúria, felismente a Waxtime continua barata e tém grandes stocks de jazz. A gripe espanhola deve ter induzido o ministro Wopke Hoekstra a pensar que o coronavirus vinha da espanha, pois é parecido com a gripe, mas a gripe espanhola vinha ela dos EUA e não do pais vizinho, isto mostra que existe uma velha conspiração contra españa. Deveria ter comprado a camisola que queria hà duas semanas atràs, quando sair de casa jà vai ser o verão e não terei necessidade, ném de calções de banho pelos vistos. O governo assegura que não haverà falta de alimentos nos supermercados ném de agua, mas não diz nada em relação ao vinho. A cloroquina pareçe ser um medicamento milagroso, os franceses jà o estão a tomar antes de estar contaminados, ninguém vai apanhar o paludismo neste pais. Fui à adega ver as reservas e fiquei inquiéto, se continuar a consumir a este ritmo vou ter penúria là para o verão, ora é o periodo aonde o risco de desidratação é maior. Não fui comer as ostras, fiz as contas e entre a gasolina, a auto-estrada, a multa, as ostras e uma garrafa de branco a conta era de 240€, achei que cada ostra a vinte euros era um pouco carote. Decidi de não escutar musica hoje pois estou farto, vou ler mesmo se não tenho vontade, é sempre melhor do que escutar musica que jà conheço ...

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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyDom Mar 29 2020, 15:37

Diario de um confinado ... Vide10


Ontém a rua principal da aldeia estava vazia quando fui passear, nunca tinha visto o centro assim. Temos direito a sair uma hora, com uma autorisação escrita, para passear ou fazer desporto e num limite de 1Km à volta da casa. No fim de semana é dia de mercado e o momento para comprar produtos frescos das serras aqui atràs, queijo de cabra, enchidos, cogumelos e Roquefort caseiro ... mas o mercado està interdito. As pessoas bebém um copo com os amigos às 18h pelo Skype, é giro mas não consigo. A ausência de sociabilidade começa-me a pesar e sinto que lentamente entro numa melancolia abstrata, sinto falta dos meus amigos. Amanhã vai fazer duas semanas que isto dura e é apenas o começo, tenho a certeza que vai durar até Maio. As férias em portugal estão deveras comprometidas, tinha-mos alugado casa durante um mês, vamos anular. Aparei o relvado, a sebe do jardim e podei as roseiras ... ao menos fiz algo de util e necessario. Os alemães acolhém na fronteira vàrios doentes franceses, belo gesto, mas os franceses na fronteira não acolhem doentes espanhois, é assim. Envernizei a membrana dos grandes Cubos e o som ganhou em fineza e detalhe, penso que não lhes toco mais. As agressões conjugais aumentaram muito desde o inicio do confinamento, ainda somos animais primitivos. Tenho o sentimento de presenciar o fim do belo sonho europeu, é natural, apòs os sonhos é preciso acordar ou então morrer. O estado novo gabava-se do orgulhosamente sós ... hoje temos que viver com o obrigatoriamente sós, o futuro é sempre um rodopio do passado. Os laboratorios estão prontos para fabricar a cloroquina em massa, as impressoras do banco federal e do banco central também estão prontas para fabricar notas em massa. O ministro da educação disse ontém que os professores deveriam ser requisitados para ir colher os morangos pois não fazém nada, desculpou-se hoje. Geralmente sò como uma vez por dia ao jantar, mas actualmente tenho fome todo o dia, uma ligeira depressão deve pairar. Escutei alguns discos em vinilo esta manhã, não gostei, e depois alguns em digital, gostei. Como não tenho parçeiros fisicos puz-me a jogar xadrês contra o computador, ele joga muito bem sò lhe ganhei uma vez, deve ser russo. Ontém li uma hora de poesia, jà fazia tempo que não lia, fez-me bem ao espirito e mal ao moral. Acho que vou fazer alguns cookies pra o lanche, não gosto mas a minha metade sim. Uns amigos convidaram-nos para comer ao almoço, não tinhamos direito, convidà-mos outros amigos para vir jantar, não tinham direito. Pareçe que a segunda vaga do virus serà muitissimo mais grave do que esta, é possivel e mesmo provàvel, não me interessa. Pareçe que vai chover là para a noite, ainda bem, dà-me uma razão para ficar aqui por casa ...

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Luciana Silva
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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyDom Mar 29 2020, 18:03

Tinha em mim um desejo oculto, maduro de idade, dramático e nada auspicioso. Sempre vivi relativamente confinada aos espaços (que fui elegendo aqui e ali (ou fui elegida?)) e poucas foram as pessoas que me conseguiram acolher e fixar. Não sou de fácil socialização e quando estou em sociedade tendo a anular-me e a ficar mortiça, ausente de mim…

Comecei a viver “sozinha” aos 18 anos e muitos foram os dias consecutivos em que não saía de casa nas horas úteis. Da escola queria apenas saber as obras que tinha de ler e, em casa, punha em prática o que deveria fazer na sala de aula. Lacrimejei por não compreender alguns dos autores que encarava como essenciais. Escaparam-me conceitos essenciais e algumas lacunas foram-se erguendo e subsistem até hoje.

O Porto tinha uma beleza atrativa a partir das 21h, as ruas ficavam serenas, os resquícios da azáfama humana pairavam na cidade, o medo perfumava o ar… e do terraço do meu minúsculo apartamento eu sentia uma ligação indefinida à cidade. Saía sempre a essa hora, fugia das pessoas e deambulava pelas ruas que hoje mal reconheço… Estaria a mentir se dissesse que estava sempre sozinha, obviamente comungava do Porto em penumbra com uma ou duas pessoas, no máximo. Os meus sonhos sempre foram despidos de poluição humana… As cidades são lindas quando podem ser vistas sem intrusos!! Adorava o confinamento voluntário!

Passaram tantos anos que nem quero contar… e aquele desejo latente ganhou forma. O confinamento é um déjà vu. A Natureza impõe a sua mão violenta para nos castigar. Em segundos, todas as fundações do homem tiritam e a vida palpita nas mãos. É tão curiosa esta nossa vulnerabilidade face ao invisível. Nunca pensamos que sacrificar animais exóticos e extingui-los é um jogo cruel… nunca cogitamos que a música da morte criada nesses mercados seria um pronuncio da nossa queda. Merecemos ouvir a mesma música e perscrutar o mesmo sentimento que impomos à Natureza…

É Primavera e a Natureza está em êxtase, está em processo de purificação. As águas estão mais límpidas, as folhitas espreitam dos galhos das árvores, os passarinhos estão em digressão, mais afinados do que nos anos anteriores, o ar está menos poluído, os espaços verdes estão vivos, riem-se de nós. A Primavera não é nossa, é Dela…
Nos antípodas desta regeneração está o nosso correctivo. Algo invisível faz-nos vergar e recuar, canta-nos a nossa finitude. Somos gatilhos uns dos outros. Num ápice, a globalização é castigada, o Fado começa a tocar… fecham-se fronteiras, deixa-se de trabalhar, confina-se o Homem como este confina os outros animais, tenta-se domesticar a liberdade… E aquele sonho de ver as ruas nuas, sem maquiagem animal atormenta. De repente, o sonho concretizado é marasmo. Os desejos nunca são o que são.

Estamos confinados e os dias (as partes deles alienadas do mundo exterior) passam tranquilos. Se não cheirasse a crise que se desenha a cada instante, sentir-me-ia perto da beleza que sonhei… Boa comida, o sol da janela que ilumina todos os meus pertences e lhes atribuem uma beleza maior, poesia, a constatação de que envelheci, a beleza do corpo que perder firmeza partilhada com alguém… as conversas acesas mas tranquilas dentro de casa… o bom vinho e o prazer de comer… Aqui saímos à rua para espreitar a cidade. Ontem fomos ver o mar, está mais calmo, julgo que gosta do nosso confinamento. Espinho despovoado parece mais asseado…

Redescobri o vinho… Por motivos pouco simpáticos deixei de ter intimidade com ele. Agora, aos pouquinhos, volto a ter absoluto gosto em beber. Estou confinada e, por minha natureza, de forma voluntária.

O dia tem muitos minutos e a incoerência espreita quando estou iludida… A coluna vertebral entorpeceu em apenas duas semanas, a rotação emite ruídos e faz-se acompanhar de sentimentos de dor. Se estico a coluna, respiro mal; se a encolho, respiro mal… O corpo entra em estado de emergência. Faço Yoga e no dia seguinte as articulações rangem… A doença assombra sempre as casas. A televisão e o Jornal Expresso aterrorizam os meus sonhos. São as molas do castigo, provocam dor a cada segundo. A crise económica vai tomando suplementos vitamínicos para ficar imune e nos assombrar… a crise humana faz-me chorar. Quanto vale uma vida? O mesmo que infinitas. Cheira a morte e a doença. E lá no alto desta marcha incoerente, os profissionais da saúde tocam os sinos da beneficência, os colaboradores dos estabelecimentos comerciais envergonham a nossa bondade…
Há músicas que me fazem banhar em lágrimas, a clássica tem esse efeito destrutivo em mim. A vida tem como banda sonora uma música clássica… progressiva e intensa, sorridente e decadente.

Um poema tem feito truz-truz nestes dias de quarentena (ora sinónimos de sonho concretizado, ora de pesadelo imposto), é este:

(...)Oh minha’alma, já basta de sonhar!
E basta de sofrer ao ver desfeito
sonho que abraçamos contra o peito,
Com ancia de reter, de prolongar!

Que remedio senão desesperar,
Se tudo quanto existe é imperfeito?
Descança coração insatisfeito!
Dormi, olhos cançados de velar!

Porque há-de a phantasia enfebrecida
Buscar a perfeição de quanto existe
E encher de sonhos vãos a nossa vida?

Se é por isso que somos desgraçados,
Por sonhar tanto e em vão; e a vida é triste,
Porque é feita de sonhos desmanchados…


Manuel Laranjeira in Commigo
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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyDom Mar 29 2020, 21:11

Para grandes males (de coluna), grandes remédios.

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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyDom Mar 29 2020, 22:33

ricardo onga-ku escreveu:
Para grandes males (de coluna), grandes remédios.


Tapete e zafu já eu tenho! Mas a matéria e o espírito não encontram o caminho certo nestes dias. As assanas não me trazem a liberdade, antes prendem-me corpo... Dorido! Rolling Eyes

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Deve ser da falta de ar puro!! Wink

Como está a vida em Inglaterra?
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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptySeg Mar 30 2020, 12:14

Luciana Silva escreveu:
... Se não cheirasse a crise que se desenha a cada instante, sentir-me-ia perto da beleza que sonhei… Os desejos nunca são o que são.

Adolescente era adepto da greenpeace, queria que portugal abandonasse a caça à baleia e que fosse uma zona desnuclearisada. Tinha um emblema, tipico dessa época, Atomkraft? Nein Danke! colado na mochila. Desde pequeno sò tive um sonho, ver o grande norte ... a terra do pai natal. Frustração criada pela arvore de natal em pinheiro manso e a ausência de neve, o pai natal não pode andar de trenó sém neve, penso que era por isto. Parti para um pais setentrional estudar, estava feliz com seis meses de neve por ano. Dois anos depois uma central nuclear arrebenta a 80 Km de Kiev, o sonho deriva. Um inimigo invisivel espalha-se pelo ar, pelo chão, pelos corpos e mesmo nas mentes, o que era técnicamente impossivel aconteçeu. Em abril é a época do degelo, o começo do periodo do ano sém neve, é a Primavera e o Verão ao mesmo tempo, é o momento de sair na rua e de aproveitar da natureza. Ninguém pode sair ou muito pouco tempo, o ar està envenenado e pisar o chão é um risco de trazer para casa o inimigo, as janelas estão obrigatoriamente fechadas. Como sou estudante de medicina sou requisitado para ajudar a cuidar dos bombeiros, militares e mineiros que se sacrificaram para que os outros vivam. Todos vão falecer em dois ou três dias, consumidos por um fogo interno que os queima do interior até ao exterior. Os corpos deles estão tão radiactivos que sò podemos estar um minuto com eles sob pena de ser-mos irreversivelmente irradiados. Descubro com vinte e um anos a face mais obscura da tecnologia civil. Esou a viver nessa cidade setentrional longe de Lisboa o que jà temia pelo passado ... Ядерное? Нет, спасибо!. Apòs quatro anos a viver nessa sopa de césio, plutonio e uranio venho me instalar em frança, o pais que produz mais energia nuclear no mundo. As autoridades francesas decidem que estou contaminado e devo fazer dois controles médicos totais por ano, sou um ninho de cancros ambulante ... Nucléaire? Non Merci!. Durante o segundo controle um médico diz-me se não me sinto culpado de gastar os impostos dos franceses em controlos médicos inutéis, pois não viverei mais de cinco anos é garantido. Assino a descarga de responsabilidade médica e nunca mais voltei, trinta anos depois ainda estou vivo ao que pareçe. Da janela dos avôs do Arno vê-se a altiva e arrogante chaminé de arrefecimento da central nuclear do Tricastin, uma gloria do àtomo françês, um orgulho nacional, uma das 59 catedrais do àtomo espalhadas pela Gàlia. A central nuclear de Fukushima arrebentou em Março, é sempre por volta da primavera que isto aconteçe ... 核?違う!. Pragmàticos, os japoneses não arriscaram as suas vidas mas mandam a radioactividade para o oceano, é ele que vai lavar a nossa porcaria, imundo. Hoje é um virus que nos obriga a ficar em casa, é diferente na aparência mas não no fundo ... Virus? No Thanks!. Desde quinze dias penso nisto tudo e a primavera nascente é sombriada pelas imagens de caras irradiadas, de passaros cheios de nafta, de ursos polares à deriva, de velhotes mortos nos lares, de sinistros matadouros, de golfinhos nas redes e etc, etc. Efectivamente os desejos nunca são o que são e a beleza tém sempre uma componente oposta, como tudo, é assim. Noutro aspecto Luciana, falas no teu belo texto de poluição humana ora que eu começo a me dizer que talvez, digo talvez, o bom slogan seja "Humanidade? Não Obrigado!...

Obrigado pelo teu belo texto ... deixo-te este com um beijinho e cuidem-se cheers

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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptySeg Mar 30 2020, 16:55

Diario de um confinado ... 91395745_2665051543731595_5214333860644388864_n.jpg?_nc_cat=104&_nc_sid=8024bb&_nc_eui2=AeH1oLjrwguUkpq8VUupKwF7PmtAlj6qhnX0G4iOC51b1PXyZQaAIPxKFwYlUAQ0Dvt5OIhDPY3Avq8cOp0hGaRsYRAgrLRy77GyXuhM8iIIig&_nc_ohc=9vzQ9LuTjNIAX9wfHFi&_nc_ht=scontent.flis6-1


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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyTer Mar 31 2020, 12:10

Diario de um confinado ... Paris_10

Quinze dias de confinamento e continuo a não ver a saida do tunel. As imagens de Paris deserto de pessoas estão na moda e os fotografos regalam-se com essas imagens inabituais da capital. Segue-se o discurso hipocrita de quão bela é Paris sém as pessoas por todo o lado, isto dito pelos mesmos que no verão inundam Roma, Lisboa, Madrid ou Atenas. Os psicologos explicam como coabitar com a sua metade durante o confinamento para evitar os divorcios, vai ser necessario. A Cloroquina jà matou dois doentes do virus, o remédio pode ser pior do que o mal, aparentemente. Jà houve dois assassinatos conjugais por causa do confinamento, mas foi a mulher que matou, os tempos mudam. A Dyson começou a fazer respiradores artificiais, afinal é como um aspirador mas ao contràrio, vindo dessa marca vão ser caros mas téem cinco anos de garantia. Ontém fiz um aperitivo por Skype com um amigo, bebemos demasiado e mais do que quando estamos juntos, não é uma boa ideia. As pessoas acham que o ar està mais puro e que as cidades são mais belas sém os carros, a hipocrisia atinge o seu paroxismo. Todos acham que somos demasiados sobre a terra e que sete mil milhões não é sustentàvel, entretanto ninguém quer partir daqui. Se deixássemos de curar as pessoas jà seriamos menos e o mundo com menos velhos deixaria uma melhor reforma aos que ficam, este pensamento secréto està na cabeça de muitos, mas visa sempre os outros. A minha metade foi trabalhar hoje, o confinamento em solitàrio é diferente. Decidi de aprender o chinês e o arabe, não serve para nada mas estar em casa fechado também não. Hoje sò vou escutar musica barroca e em digital, em vinilo seria matar a subtileza dessa musica. Tenho vontade de comer umas salsichas no churrasco mas decidimos de ser vegetarianos, hà coisas que jà estão a mudar. Os gatos continuam a caçar e a comer os pàssaros, vão levar com a dona se ela aprende. O aeroporto de Orly vai fechar hoje e serà a primeira vez da historia, o turismo vai mudar de rumo. Ainda hà pouco tempo estava em Praga despreocupado e livre, pareçe-me ter sido noutra vida. Os fabricantes de carros estão a fabricar respiradores, os fabricantes de aspiradores também. Quando isto acabar, se acabar, serà necessario fabricar notas e moedas. As empresas estão a anunciar que o desemprego serà massivo apòs esta crise, o virus destroi e a saude e a economia, foi bem desenhado e fabricado. Uma casa vai se construir à frente da minha, enfim vou ter outro barulho que o dos pàssaros, enfim uma alegria ...

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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyTer Mar 31 2020, 12:32

Todos esses pensamentos são de quem é maior que as paredes te rodeiam.

Mas no final disto tudo vais continuar a ser maior e ainda melhor, porque tiveste tempo e coragem para te conheceres ainda melhor.

Eu criei uma obsessão neste momento que é tentar alimentar quem não o consegue fazer (uma utopia, mas que mantém a minha saude mental saudável), parece que confinado tenho melhor percepção do que se passa à minha volta. E por isso ainda mais sensível a quem precisa.

Obrigado pela tua partilha. Diario de um confinado ... 843159

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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyTer Mar 31 2020, 13:03


Dei comigo tantas vezes a desejar estar no activo, a participar de uma solução que vá além da prevenção, que tantas outras vezes me esqueci de usufruir dos momentos de liberdade que tinha em casa, onde naturalmente me tendo a fechar com maior frequência. Domingo o telefone tocou, por poucos minutos não era Segunda-feira, do outro lado chegavam novidades e eu estremeci. Aproximei-me do quarto e partilhei as novidades, ela estremeceu. Segunda-feira chegou, o dia amanheceu e não demorou muito até que o telefone voltasse a tocar. As novidades vinham em conta-gotas, pouco claras, imprecisas mesmo, mas era com elas que tinha de montar o cenário para diante dele poder actuar. Terça-feira, mais um dia que nasce e mais um a reservar novidades estranhas, por momentos a mente prega-nos partidas e cofunde-nos, troca-nos as voltas. Os dias já não serão todos iguais, um desejo passa a ser algo indesejado… lá está, os desejos nunca se materializam como os sonhamos.

Pare, escute e olhe… Além de ser aviso junto das passagens de nível, este poderia ser o aviso para o mar de notícias que nos chegam de todo o lado e que temos de atravessar. Por vezes até as boas notícias já nos parecem más, tal como na Matemática, mais com menos dá menos… possa, mas se o mais for maior do que o menos, ainda nos restará algo mais. Calma, para memória futura devo apontar que este pensamento não me surgiu como solução para me abstrair do desastre que vivemos, antes para trabalhar com a confusão que ele levanta. Quero olhar e ver o copo meio cheio, é isso que eu quero. Apesar de todos os menos que nos apresentam, ainda consigo ver mais. No final a solução para a equação será algo mais, espero que um algo bem distante de zero, porque uma ínfima parte entre zero e um ainda é positivo, logo mais. Quero mais. Quero até um mais que tendemos a esquecer ou ultrapassar. Numa escala de zero a dez, a tendência é querer o dez. Num planeta que não estica, partilhado por todos, talvez a escala deve ser olhada com mais cuidado. Uma ínfima parte entre zero e um é pouco, mas uma parte entre nove e dez talvez seja excessivo. Talvez devêssemos escutar mais na hora de decidir, as acções de poucos tocam muitos, para equilibrar tudo isto, se escutarmos mais talvez se atinja menos os outros. A escala individual seria a ideal, mas já que elegemos representantes, vamos colocar as decisões à escala das nações. Há nações que elegem gente estranha para as representar, mas mais com menos, se mais for mais do que menos, dá algo mais. Parar… dizem que não se pode parar, tem lógica, o nosso Planeta não pára e dá muitas pistas sobre a constante que é o movimento. O Homem também não pára, mesmo a dormir ou quando está quieto no seu canto, ele está em movimento interno ou celular. Estamos ligados ao meio em que nos desenvolvemos, mas não estamos em sintonia. Desfasados em ritmo, precisamos então de abrandar.

Quero o copo meio cheio, é isso. Totalmente cheio tenderá a virar ao primeiro abanão e eu não páro, por isso abano muito e não se deve desperdiçar.
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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyTer Mar 31 2020, 14:14

The sky is blue, sometimes with clouds like "on old paintings". No traces of condensation streaks which slightly cover up the whole sky most days with good weather.

The first days were hard and I got panicky from time to time.
But, here is all calm and we're doing fine. So I say to me: ilfe happens only in the present moment, not in the past and not in the future. And here and now it's almost always good.

My two sons are at home all day and at first there was a lot of discussion and dispute, But slowly we all calmed down and now I feel that we are in a new, peaceful and loving mood as a family.

I heard about an idea which sounded initially very strange to me but which I like more and more! What if an invisible but benevolent "force" brought all that madness of modern everyday life almost to a halt - to give us time to calm down and gives space to find ourselves - or at least have the possibility to come  a bit closer to our inner self?

cheers
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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyTer Mar 31 2020, 16:12

Alexandre Vieira escreveu:
... Mas no final disto tudo vais continuar a ser maior e ainda melhor, porque tiveste tempo e coragem para te conheceres ainda melhor.  

Eu criei uma obsessão neste momento que é tentar alimentar quem não o consegue fazer ...

Alexandre, eu tento modestamente, mas com honestidade, de ser uma melhor "pessoa" todos os dias. Isto é um dos ensinos do Buda e jà sabem o meu apego por essa filosofia, pois não é uma religião! Evidentemente, ser ou tentar ser melhor não é o apanágio do budismo e todas as religiões apregoam isso. De um modo geral o bom-sentido judio-cristão ocidental conduz-nos a caminhar no sentido de nos amelhorar como individuos, todo ao longo da nossa vida. Diria então que isto é um acto natural e humano ...

O que digo é a versão teorica, mas tenho também um lado pratico. Sendo do grupo O- (dador universal) dou o meu sangue duas vezes por ano e isto desde estudante. Faço um dom anual a algumas associações pelas quais tenho respeito e dou alimentos aos Restos du Coeur e Banque Alimentaire uma vez por ano. È modesto e poderia fazer mais, também poderia fazer menos ... mas, se cada françês fizesse isso jà seria uma bela vitoria. Não me sinto mais implicado socialmente neste momento pois hà uma crise, mas a raiva cresçe. Sempre fui chefe de empresa e fora quando estudante nunca fui salariado. Em trinta anos paguei muitos impostos (a frança é campeã), e com prazer, porque acredito na solidariedade e no estado social. Esse dinheiro deve em parte ser distribuido aos mais fracos e desmunidos ... aonde é que ele passa esse dinheiro pois ainda hà pessoas com fome e sém casa ???...

A minha obcessão neste momento é de ouvir as explicações da republica !!!

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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyTer Mar 31 2020, 16:44

mannitheear escreveu:
... My two sons are at home all day and at first there was a lot of discussion and dispute, But slowly we all calmed down and now I feel that we are in a new, peaceful and loving mood as a family. ...

I'm really very happy to ear that Man ... infortunately we are without our sons! Arno comes for the weekend but i'm not sure that it will be possible now with the lockdown changes. Alex is in Grenoble and my big sons are each other in their own appartment in Montpellier. They are locked with their girlfriends so they're not sad Wink. We call eachothers often and by the moment everything is Ok ... Biz Man !

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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyTer Mar 31 2020, 17:41

José Miguel escreveu:
... Quero o copo meio cheio, é isso. Totalmente cheio tenderá a virar ao primeiro abanão e eu não páro, por isso abano muito e não se deve desperdiçar. ...

O teu texto retrata bem toda a confusão que o instante presente criou. O momento irreal actual cria um espaço abstrato aonde qualquer explicação que visa a lhe dar sentido é vàlida, mesmo se é falsa. Aqui diz-se que "A natureza detesta o vazio ...", o homém também detesta o vazio e é por isso que sente a necessidade de preencher cada espaço livre, é uma obcessão. O vazio tém sempre que ser preenchido por qualquer coisa, boa ou mà, pela religião, pela ciência, pelo pensar ou pela loucura ... pouco interessa desde que seja preenchido. Num momento aonde as pessoas sabém o que foi ontém, mas não reconheçem o presente e ainda menos o que serà o futuro, um abismo de falta de sentido criou-se. Cada um vai preencher esse abismo como pode, com o seu ser como é hàbito. Se queres o copo meio cheio decide assim e sê feliz ... a verdade não serà ném para hoje ném para amanhã, então faz a tua!...

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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyTer Mar 31 2020, 17:51

TD124 escreveu:
Diario de um confinado ... Paris_10

Quinze dias de confinamento e continuo a não ver a saida do tunel. As imagens de Paris deserto de pessoas estão na moda e os fotografos regalam-se com essas imagens inabituais da capital. Segue-se o discurso hipocrita de quão bela é Paris sém as pessoas por todo o lado, isto dito pelos mesmos que no verão inundam Roma, Lisboa, Madrid ou Atenas. Os psicologos explicam como coabitar com a sua metade durante o confinamento para evitar os divorcios, vai ser necessario. A Cloroquina jà matou dois doentes do virus, o remédio pode ser pior do que o mal, aparentemente. Jà houve dois assassinatos conjugais por causa do confinamento, mas foi a mulher que matou, os tempos mudam. A Dyson começou a fazer respiradores artificiais, afinal é como um aspirador mas ao contràrio, vindo dessa marca vão ser caros mas téem cinco anos de garantia. Ontém fiz um aperitivo por Skype com um amigo, bebemos demasiado e mais do que quando estamos juntos, não é uma boa ideia. As pessoas acham que o ar està mais puro e que as cidades são mais belas sém os carros, a hipocrisia atinge o seu paroxismo. Todos acham que somos demasiados sobre a terra e que sete mil milhões não é sustentàvel, entretanto ninguém quer partir daqui. Se deixássemos de curar as pessoas jà seriamos menos e o mundo com menos velhos deixaria uma melhor reforma aos que ficam, este pensamento secréto està na cabeça de muitos, mas visa sempre os outros. A minha metade foi trabalhar hoje, o confinamento em solitàrio é diferente. Decidi de aprender o chinês e o arabe, não serve para nada mas estar em casa fechado também não. Hoje sò vou escutar musica barroca e em digital, em vinilo seria matar a subtileza dessa musica. Tenho vontade de comer umas salsichas no churrasco mas decidimos de ser vegetarianos, hà coisas que jà estão a mudar. Os gatos continuam a caçar e a comer os pàssaros, vão levar com a dona se ela aprende. O aeroporto de Orly vai fechar hoje e serà a primeira vez da historia, o turismo vai mudar de rumo. Ainda hà pouco tempo estava em Praga despreocupado e livre, pareçe-me ter sido noutra vida. Os fabricantes de carros estão a fabricar respiradores, os fabricantes de aspiradores também. Quando isto acabar, se acabar, serà necessario fabricar notas e moedas. As empresas estão a anunciar que o desemprego serà massivo apòs esta crise, o virus destroi e a saude e a economia, foi bem desenhado e fabricado. Uma casa vai se construir à frente da minha, enfim vou ter outro barulho que o dos pàssaros, enfim uma alegria ...

Por cá a violência doméstica já faz notícia... Bárbaros.
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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyTer Mar 31 2020, 18:04

TD124 escreveu:


(...) aonde é que ele passa esse dinheiro pois ainda hà pessoas com fome e sém casa ???...

A minha obcessão neste momento é de ouvir as explicações da republica !!!

Paulo, não peça explicações à República, mas aos cidadãos!!!

Estamos num fórum de Audio e com um simples exemplo é fácil perceber como a equação só tem uma solução:

Perguntei no outro tópico o que conduz ao coleccionismo de equipamentos, uma vez que pela natureza da função eles nem se complementam nem podem ser usados em simultâneo, mas para aqui tomemos apenas a concentração de recursos.

Há "novos" amantes de Música e até de equipamentos a nascer todos os dias, que por limitações várias vão precisar de procurar equipamentos no mercado de usados... vão encontrar preços cada vez mais elevados e peças de menor qualidade nos preços baixos, porque o mercado foi varrido por outros.

A falta de experiências com produtos de valor vai "educar" os novos amantes de Música e equipamentos de uma forma desviada e a atribuição de valor aos produtos novos será, também ela, desviada.

As marcas, para sobreviver, começam a alimentar os segmentos de entrada com promessas de alto desempenho, continuam a vender, mas já não se financiam para fazer investigação.

A falta de desenvolvimento tecnológico vai gerar estagnação na evolução dos produtos, gerando uma descrença generalizada do lado dos consumidores.

Os amantes de Música e equipamentos, descrentes, vão voltar-se para o mercado de usados, afinal em tempos idos a evolução fazia-se notar, mas este está cada vez mais vazio e sem peças de valor...


Agora vamos transportar isto para um cenário macro...

Os paizinhos cheios de valores altamente desviados recebidos de outros, ensinam aos seus filhos que o património é uma coisa muito importante e que mais é sempre mais. Uma casa é bom, mas uma muito maior é melhor e duas ou três é que é! Não se deve pensar nos recursos limitados em termos de espaço global ou nas falhas que se vão gerando em termos de mercado, maximizar o lucro é a palavra de ordem, estar na crista da onda é sinal de esperteza.

As sociedades não se pensam, seguem ondas. As ondas são provocadas pelas próprias sociedades. As sociedades seguem irracionalmente.

Falamos algumas vezes sobre os efeitos que o Turismo sem plano de fundo poderia gerar, para já, com o que vivemos no presente, aqui ao lado no Porto está a gerar uma descida nos preços das rendas de casas. O que era raro de encontrar, agora está no mercado. O que estava pensado para os “airbnb” desta vida, agora está a ser pensado para o arrendamento tradicional.

O investimento feito para recuperar casas foi altíssimo, a receita mensal esperada era elevada e podia fazer face aos créditos. As rendas mensais não chegarão perto do que se pensou, mas sempre é melhor algum do que nenhum.

Quando isto passar, talvez se volte a colocar tudo no mercado para turismo, ou talvez chegue a oportunidade de vender e começar tudo de novo.




Estes dias, um amigo que vive nos Estados Unidos da América partilhou notícias que revoltam, por exemplo, pessoas sem seguros à porta dos hospitais. Eu perguntei se não era assim sempre... O problema não é o vírus, as pessoas que lá até escolhem os candidatos a candidatos, apenas escolhem candidatos com pensamento político (para ser meigo) economicista.

Dedo podre? Vontade? Incapacidade de ver diferente? Medo da mudança?

Pobre vai o mundo quando a auto-proclamada "mais poderosa democracia do mundo" se deixa instrumentalizar por manipuladores digitais...

Ao que chegamos... até pensar custa!


O planeta não estica, mas isso o que interessa??? Há pessoas fechadas em casa, há um novo vírus... estamos muito mal e será bem pior depois. Vamos pensar em estabelecer mudanças de fundo? Não, vamos é trabalhar para voltar ao mesmo que tínhamos.

A República não é mais do que a representação da vontade colectiva.


Há sempre uma forma circular na apresentação dos "exemplos", não é coincidência.  Rolling Eyes





ps.: vi agora que o Paulo respondeu ao texto que deixei antes... eu tento (tento!) agir de acordo com o meu pensamento. Não sou mais do que ninguém, mas a frase que cita vai ao encontro do que escrevo aqui e que tento colocar em prática desde tenra idade. Aprendi a viver com pouco e a dar muito valor ao que tenho... hoje tenho um pouco mais, mas mantenho a atribuição de valor às coisas e apoio quem sempre me apoiou. Estou certo que o planeta não estica, os recursos não esticam... quem se estica somos nós! Eu não vou ensinar ninguém, já tentei e não deu certo, quase me destruía... partilho pensamentos como sempre o fiz, sem aspirações de ser compreendido fico mais sossegado e sem pressão.
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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyQua Abr 01 2020, 09:42

ricardo onga-ku escreveu:
... Por cá a violência doméstica já faz notícia... Bárbaros.

Hà dias atràs escrevi isto, ao menos os britões e os gauleses estão em sintonia nesse aspecto ... e não devem ser os unicos. Abraço ai para os lados dos melhores inimigos da frança Laughing

TD124 escreveu:
... As agressões conjugais aumentaram muito desde o inicio do confinamento, ainda somos animais primitivos. ...

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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyQua Abr 01 2020, 11:23

Olà José Miguel, achei o teu texto muito carregado de amargura e algum sarcasmo, e talvez por isso deveras injusto e isto a vàrios niveis. A colera e a indignação rouba-nos muits vezes o pragmatismo assim que a visão objectiva das coisas. Cortei o teu texto em vàrios pontos afim de argumentar de uma maneira mais focalizada...

José Miguel escreveu:
... Paulo, não peça explicações à República, mas aos cidadãos!!! ...

José, deixa os cidadãos em paz, eles não são culpados de tudo e os cidadãos somos todos nòs e não sòmente os outros  Wink. Não é aos cidadãos que pago impostos hà trinta anos mas à republica. Não são os cidadãos que distribuem essa riqueza ... então pergunto a quém de direito, ou seja, à republica francesa ! Foi neste sentido que escrevi ...

José Miguel escreveu:
... Há "novos" amantes de Música e até de equipamentos a nascer todos os dias, que por limitações várias vão precisar de procurar equipamentos no mercado de usados... vão encontrar preços cada vez mais elevados e peças de menor qualidade nos preços baixos, porque o mercado foi varrido por outros. ...

Visto assim, os colecionadores (ou as pessoas com vàrios sistemas) seriam os responsàveis por uma possivel penuria de material usado de qualidade assim que pela inflação dos preços. Não é verdade em nenhum dos pontos e ainda por cima é complétamente errado numa visão geografica larga. Aqui no forum, as pessoas que téem vàrios aparelhos asseguram a preservação, eles perpétuam o bom estado desses aparelhos. Esses mesmos aparelhos aqui vão para o lixo ou enchem os hangares da Emmaüs e são vendidos a 20€ ... e ninguém quer! Existe uma grande diferença entre os audiofilos antes-Net e post-Net, as referenças não são as mesmas ... e os Lenco, TD124 e outros Garrard nos anos 80 e 90 ninguém queria. Talvez nos anos 2040 e 2060 ninguém os queira também, fora os colecionadores que os vão fazer continuar a viver. Não são culpados de nada disso e é o direito de cada um de ter o que pode, sém ser criticado. Hà aparelhos para todos e sempre haverà, sém que sejam porcarias obrigatoriamente pois mesmo esse concepto é ambiguo ...

José Miguel escreveu:
... Os paizinhos cheios de valores altamente desviados recebidos de outros, ensinam aos seus filhos que o património é uma coisa muito importante e que mais é sempre mais. Uma casa é bom, mas uma muito maior é melhor e duas ou três é que é! Não se deve pensar nos recursos limitados em termos de espaço global ou nas falhas que se vão gerando em termos de mercado, maximizar o lucro é a palavra de ordem, ...

O mundo economico actual analisa o desenvolvimento sob forma de crescimento, pareçe-me natural que as pessoas vejam as coisas assim. Os latinos véem o patrimonio como sendo a posseção de casas, os anglo-saxões como o investimento do dinheiro, os nordicos como uma conta em banco recheada e os asiàticos como um meio de criar industrias. Qualquer pessoa busca o mais, pois a socioeconomia cria esse movimento. O homém quer sempre mais, que seja saude, esperança de vida, dinheiro ou discos ... tu também pois é a sua natureza. Mesmo na China que é um pais comunista é o caso e jà o era na URSS ou ém Cuba. Queres fazer uma revolução?... é o teu direito, mas pensa no diferencial entre o que vais ganhar e perder. No fundo, é possivel que desejes as mesmas coisas que os outros seres humanos a menos que a tua felicidade seja ter um carro rasca, uma casa rasca, um sistema rasca, discos rascos, vinho rasca, comida insossa e viver pouco tempo Laughing

José Miguel escreveu:
... Estes dias, um amigo que vive nos Estados Unidos da América partilhou notícias que revoltam, por exemplo, pessoas sem seguros à porta dos hospitais. Eu perguntei se não era assim sempre... O problema não é o vírus, as pessoas que lá até escolhem os candidatos a candidatos, ...

Não sou um defensor dos EUA, bem ao contràrio, mas tenho o respeito que é devido a um estado que não é autoritario. O povo americano na maioria escolheu esse sistema e està apegado a ele, serà a eles de o mudar quando o dia da mudança chegar. O Obama queria uma segurança social minima, vàrios estados jà aboliram a pena de morte e na california até se pode fumar um cône na rua. Tudo não é bom e tudo não é mau ... ném oito ném oitenta como tu dizes. Mesmo a frança que se vê como a luz do mundo humanista sò aboliu a pena de morte em 1981 e foi pela força. Despejar a agua do alguidar do banho com o bébé dentro nunca foi uma boa ideia ...

cheers

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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyQua Abr 01 2020, 12:55

Não preciso de defender a minha honra, mas é importante lembrar algumas coisas:

1. O texto que escrevi não é fruto do contexto, basta procurar outras intervenções do mesmo género escritas por mim para se perceber que não há contradição.

2. O texto que escrevi não encerra nenhum exercício de sarcasmo, a utilização de imagens limite visa apenas apontar a um novo caminho.


Aponto esses dois pontos, porque infelizmente já tive que o fazer outras vezes neste fórum e não quero mesmo que a minha intervenção seja entendida como um ataque ou algo semelhante. Wink

A escrita e a transmissão de pensamentos por esta via tem coisas boas e coisas más, distancia-nos e não nos permite uma interacção imediata, mas permite respostas que mais uma vez vão cristalizar o pensamento.

Os três exemplos que dei têm a mesma forma de raciocínio, podem ser usados como metáforas. Partem de uma primeira premissa muito importante: não perguntar à República, mas aos cidadãos.

O Paulo nega esta premissa quando aplicada a França, mas é curioso de notar que já carrega os cidadãos Americanos com a responsabilidade da mudança... pois é, Obama queria um sistema de saúde para todos, mas o povo Americano votou em quem prometeu derrubar esse sistema.


Eu não nego a possibilidade às pessoas de comprar o que querem, é do uso da Liberdade agir e saber parar... também saber lidar com as consequências dos actos.

Já escrevi isto antes, mas volto ao tema: há um princípio da Economia que é inevitável, porque nos pertence, a saber, a Lei de Mercado. Oferta e Procura funcionam como duas faces de uma moeda, estão sempre ligadas. Não interessa se estamos a falar de peças de audio doméstico, de carros, casas, diamantes... lembro-me de já ter dado o exemplo dos diamantes, que em si mesmos são mais uma "pedra", foi o Homem que atribuiu o valor a essa pedra... ao ponto de ser legítimo escravizar populações em nome dela - hoje, ainda hoje isso acontece, mas é mais simples ignorar.

É inegável que os mercados mudam consoante a procura, porque nem sempre a oferta se consegue manter. Dei o exemplo das peças audio e das casas, do sistema de saúde nos EUA, mas podemos falar de outras coisas, a Lei a aplicar é a mesma.


Se eu quero tudo rasca?
Parece ter escapado o que disse num texto em cima... eu disse: quero o copo meio cheio!

Mais uma vez a metáfora respeita a minha linha de pensamento e o que espero ver um dia desenhar-se como novo horizonte. O Homem não necessita do copo cheio, desde logo porque tal coisa não existe. Perseguir o copo cheio - o que é ensinado de forma predominante - promove desequilíbrios severos e a História está escrita... não existindo um sem fim de recursos, alguém terá que ficar com o copo praticamente vazio.

O Paulo estudou Psicologia, por isso saberá que obsessão é uma patologia... seja aplicada ao audio e ao sistema "perfeito", seja às limpezas em casa, à busca pela vida de alta prosperidade. Ora, o Homem não nasce com a obsessão de "mais é mais", isso é fruto da transmissão de valores e o elemento fundamental para a transmissão é a família.

Não somos todos iguais e queremos coisas diferentes, bem sei que estou a escrever com base em pensamentos próximos da utopia, mas quem sonha pequeno, alcançará pequeno... eu não sonho com amplificadores, colunas, casas, carros, terrenos, ... não fui educado assim.

Consciente de que sou cidadão, faço o que me é possível todos os dias. Não digo que não à participação activa na vida da Sociedade, dos 18 anos até aos 30 fui membro da Assembleia Municipal... enquadrado num movimento independente. Ainda hoje o município coloca em prática eventos que visam o apoio às crianças e famílias desenhado por mim, mas nos quais nunca participei (a proposta não me incluía, dela não tirei benefícios).

A vida dá muitas voltas e eu aceito-as, luto para ficar à tona e vou avançando na medida do possível. Não sou exemplo para ninguém, mas acredito na máxima: o bater de assas de uma borboleta no sul, pode provocar um furacão no norte...

O Mundo ocidental está a lutar contra o vírus, mas voltará ao mesmo... pelo menos parece ser esse o desejo da maioria.
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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyQua Abr 01 2020, 16:24

José Miguel escreveu:
... O Mundo ocidental está a lutar contra o vírus, mas voltará ao mesmo... pelo menos parece ser esse o desejo da maioria.

Estive para responder e depois disse-me que era um terreno escorregadio ... sou pragmatico Wink. Fico-me então por esta ultima frase com o desejo que seja verdadeira. Se a "grande" maioria deseja encontrar a sua vida de hà um mês atràs ... então tudo deverà ser feito para que seja o caso pois estamos em democracia. Em contrapartida cada um serà sempre livre de seguir o seu rumo individual e decidir de mudar de vida se quizer ... mas não de planeta Laughing

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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyQua Abr 01 2020, 17:49

Diario de um confinado ... Saida10


Esta foto em forma de "remake" da capa do Born In USA sou eu equipado com a minha Attestation de Déplacement Dérogatoire ... em resumo, com a autorisação de saida. Enchi-me de coragem e fui ao supermercado fazer compras e afrontar a horda dos possivéis contaminantes que rodeiam a minha benevolente casa. Muitas estantes vazias, não hà farinha ném açucar o que me leva a pensar que as pessoas fazém bolos, vão engordar. O governo prometeu que os preços não aumentariam e que não haveria penuria, a demagogia ainda funciona. Jà estou a fumar mais e passei de seis cigarros a oito por dia, estou a me desleixar. As autoridades estão a estudar as diferentes maneiras de preparar o fim do confinamento, quero ser o primeiro a sair. Fui comprar cigarros e a policia controlou-me, aprendi que estou registrado como françês, esta é boa. A crise europeia continua e a fractura entre o norte e o sul acentua-se cada dia, ném sei se a frança é um pais do norte ou do sul. O virus continua a fazer o trabalho dele o que é do desagrado das autoridades, deveriam confinar o virus em vêz das pessoas. Na italia do sul jà começaram a pilhar os supermercados, a crise alastra-se e a revolta também é contagiosa. Penso que a frança é um pais do norte que pensa como os do sul, ou que é um pais do sul mas muito rico o que é impossivel. Não quero ser françês, serei obrigado a escolher como o meu filho Lino e seria complicado. Enquanto a republica pagar para que as pessoas fiquém em casa não vai haver problemas sociais, mas depois ninguém vai querer voltar ao trabalho. Babei-me em frente do talho no supermercado, as salsichas entoaram o canto das sereias, resisti valentemente. Comprei vinho rosé, pareçe que beber sempre vinho branco ou tinto não é saudàvel. Não sei se o toucinho fumado é vegetariano ou não, ainda não recebi o manual técnico, pelo momento considero que sim. Antes o estado dizia que ficar em casa todo o dia era mau para a saude, hoje dizém o contrario, não sei o que acreditar. Vi uma pessoa com uma mascara de mergulho "full face", a solução é esperta e o resultado giro, ainda hà pessoas inteligentes. Os checos desviaram as mascaras destinadas à italia e os americanos desviaram um carregamento destinado à frança, com amigos assim não é preciso inimigos. O patrão de um amigo jà o preveniu que o contrato dele não seria renovado, em duas semanas as coisas mudam rapidamente ...

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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyQua Abr 01 2020, 17:52

Estou de férias forçadas e não posso sair à rua. As glândulas sebáceas da minha pele estão inflamadas, sinto uma sensação de insaciedade constante e disponho-me a comer em abundância. Lá fora parece estar tudo imóvel. As notícias de hoje agudizam as dos dias passados. Sinto uma inaptidão para analisar as coisas que acontecem ao meu redor. Não acredito no acaso nem na solidão da culpa. Na cadeia da vida, todos somos agentes passivos e activos, todos somos inocentes e culpados. Fomos criados e criamos, temos o bem e o mal nos nossos poros, necessitamos de contratos para vivermos. A acção racional obrigou-nos a criar uma sociedade organizada e a participar nela de forma indirecta ou directa. O Estado somos todos nós e cada um é parte constituinte do Estado.

A essência do Estado são os cidadãos, Ele só existe porque nós existimos, se ele adoece é porque nós estamos doentes, se ele sucumbir é porque nós morremos. A cadeia causal está sempre presente e o envelhecimento é apenas a explicação de gastarmos o aqui. A nossa vida é cara demais para a pagarmos com os impostos, no máximo estes pagam os nossos direitos essenciais. O erro está em todos, portanto, está no Estado.

O “copo meio cheio” seria a perfeição, seria a consciencialização e o equilíbrio, no entanto, o copo foi entregue ao homem no dia do seu nascimento e enquanto este o tiver na mão o desejo não será menor do que fazer transbordar o que nele couber. Ao Estado foi dado o mesmo copo e o mesmo desejo foi definido. Somos feitos da mesma matéria e iremos transformar-nos em pó. Somos fertilizantes!

Julgo que foi Peirce que disse que não é importante as nossas crenças estarem certas ou serem corroboradas, o importante é estarmos dispostos a rever a nossa opinião. 😊
A minha hoje é esta!! Rolling Eyes
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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyQua Abr 01 2020, 18:45

Luciana Silva escreveu:
... O “copo meio cheio” seria a perfeição, seria a consciencialização e o equilíbrio, no entanto, o copo foi entregue ao homem no dia do seu nascimento e enquanto este o tiver na mão o desejo não será menor do que fazer transbordar o que nele couber. Ao Estado foi dado o mesmo copo e o mesmo desejo foi definido. Somos feitos da mesma matéria e iremos transformar-nos em pó.  Somos fertilizantes!...

Eu disse hà pouco tempo que a natureza detesta o vazio, e que o homém também. O absurdo e a rapidez da situação actual criou um vazio propicio a ser enchido pelo nosso ser. Aqui no forum escrevo sempre com muitas reticências (...) para arejar o meu discurso e deixar espaço à imaginação e à leitura do outro. Ele vai encher esse espaço com o que quizer ou poder, pois as palavras dizém muito mas não tudo, ainda bem! O tempo em suspensão que constitui o quotidiano de três mil milhões de pessoas actualmente é um terreno fértil para imaginar o que seria um ideal comum. No termo comum està subentendido estar-mos todos de acordo ... ora que o homém tém uma grande dificuldade natural a estar de acordo consigo mesmo. Não, o "copo meio cheio" é o teu ideal, do José também e de certeza de vàrias outras pessoas ... mas não é um ideal comum. Dizer que esse conceito seria a "perfeição" a "consciencialisação" e o "equilibrio" pareçe-me audivel mas não açeitàvel! As noções de perfeição e de equilibrio são por demasiado ambiguas para entrarem numa equação social ... a consciencialização jà pode ser abordada socialmente, mas a consciência do quê, do que tu pensas, do que queres, ou do que a grande maioria quer?...

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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyQua Abr 01 2020, 20:11

Dia de trabalho, oportunidade de ver o mar. Talvez por isso, ou por tantas coisas juntas, hoje escrevo assim:

Uma ilha já ali.

As ilhas são um pedaço de terra rodeado de água, não interessa se água de um rio ou do mar, lembro-me que até no quintal da casa em que cresci, um dia sem mais nada que fazer, convidei o meu irmão para formarmos uma ilha. Não havia falta de água, o poço estava cheio, conseguíamos ver o nosso reflexo bem próximo, avançamos com a empreitada. Pegamos em sacholas e em pás, não escavamos muito fundo, apenas o suficiente para fazer nascer um pequeno fosso. Pensamos se não era a altura ideal para construir um castelo, conversamos sobre o assunto. O castelo poderia ser rodeado de água, poderíamos usar os sacos verdes que haviam transportado as compras da mercearia e cortá-los na forma de crocodilos. Ergueríamos um castelo como antes, feito de mantas suportadas nas longas estacas que já não eram necessárias na horta. Este castelo, em tudo semelhante a outros construídos por nós, seria muito mais seguro, teria um fosso a protege-lo. Elaboramos mais umas quantas ideias, a entrada principal seria voltada para o imenso campo onde despontava o milho, teríamos vistas largas, para as traseiras apontaríamos armas, os inimigos seriam os vizinhos que seriam chamados na hora certa. Estava tudo a encaminhar-se para uma tarde em pleno, entretanto surgiu outra ideia, não é todos os dias que se tem uma ilha e esta poderia ser a tal sobre a qual nunca ninguém escreveu, ninguém imaginou. Agora sim, havia muito em que pensar.

Os olhares cruzados indicavam mútua aprovação, ideias começaram a ser lançadas para o ar: não pode ter palmeiras (curioso, logo nós que vivíamos numa pequena aldeia de nome Palmeira, com uma dessas exóticas árvores plantada nas traseiras da igreja), não pode ser uma ilha de índios ou piratas (duas aspirações infantis afastadas), não pode ter guerras (o quê, nada de batatada? Nós no quintal…), não pode ter um vulcão, não pode ter animais dos quais temos que fugir (Homens perigosos não entrariam), não pode haver dinheiro ou tesouros escondidos (mais um sonho por terra), não pode haver reis ou presidentes (seríamos todos iguais como?), não pode haver polícia (já não haveria ameaça aos pequenotes que recusassem comer a sopa), não pode… as trocas de “não pode” aconteceram por um tempo que não consigo determinar, tudo o que nos vinha à memória não poderia existir na ilha ou inviabilizava a nossa demanda. Chegamos a maldizer os livros de estórias e os programas do David Attenborough, disso lembro-me, aprendemos muito com eles e naquele momento eram os limitadores. Já nada soava estranho àquela hora, nem a voz da nossa mãe que nos chamava.

Seguimos para casa, o jantar esperava-nos. A ilha ficou por concretizar, já sabíamos um monte de coisas que não poderia ter, já era um princípio.
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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyQua Abr 01 2020, 20:57

Here in Germany I see the number of "reasonable" voices in the mainstream media increases since some days They ask the right questions, the same I asked myself and demand an adjusted strategy.

The reasonable people were acknowledged experts in the fields of virology, health statistics, law and so on.

The italian statisics say that of all Covid-19 deaths almost all hat one or multiple pre-existing health issues, only 0,8 % had none! This would mean that from 10.000 Corona deaths only 80 died causal from Corona virus infection, which is a lot but very different from the figures the media suggests.

The lawyers say that you cannot imprison the whole population to avoid danger from a small endangered minority, especially if the reality shows that the taken measures doesn't protect this group very effectively. This is a sort of misunderstood loyalty which doesn't help.

Until now, reason was replaced by too much emotion to stir up fear. It was ok to gather knowledge but this status cannot last for very long or the collateral damages will be a lot higher than the virus.

But then, here in Germany the things are not as dramatic as in Italy or even the neighboring French region, because the German health system was also target of austerity measures but ist probably still one the best in Europe with significant more doctors and hospital beds.

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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyQua Abr 01 2020, 22:33

mannitheear escreveu:
... But then, here in Germany the things are not as dramatic as in Italy or even the neighboring French region, because the German health system was also target of austerity measures but ist probably still one the best in Europe with significant more doctors and hospital beds. ...

French claimed to have the best health system ... Spain have the highest life expectancy in EEC ... lombardy is by far the richest italian region with the best health structure and we see the results. Switzerland have the highest life expectancy in the world and they have three times more deaths than in portugal wich is surrounded by spain, holland have six times more deaths then portugal, czech's have very few deaths ...
I guess that the quality of the health systems doesn't explain completely what happens and we will need some time to understand the reasons why each country doesn't have the same results. Biz Man cheers

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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyQui Abr 02 2020, 09:31

TD124 escreveu:
mannitheear escreveu:
... But then, here in Germany the things are not as dramatic as in Italy or even the neighboring French region, because the German health system was also target of austerity measures but ist probably still one the best in Europe with significant more doctors and hospital beds. ...

French claimed to have the best health system ... Spain have the highest life expectancy in EEC ... lombardy is by far the richest italian region with the best health structure and we see the results. Switzerland have the highest life expectancy in the world and they have three times more deaths than in portugal wich is surrounded by spain, holland have six times more deaths then portugal, czech's have very few deaths ...
I guess that the quality of the health systems doesn't explain completely what happens and we will need some time to understand the reasons why each country doesn't have the same results. Biz Man cheers

To my knowledge the best National Health System is the Dutch.

The Covid '19 numbers have a lot less to do with the effectiveness of the NHS but a lot more to do with a) the Government's response and b) the population's response.

China was so effective because it's a dictatorship and has almost absolute Big Brother control over the population. If someone is found to be infected then can trace his recent movements and alert everyone who this person was in contact with in a matter of hours. Modern buildings have facial recognition and you cannot leave your house unless you are know to be healthy. There are cameras everywhere. We Chat (China's What's App) is monitored by the State and tells them who you've chatted with, where you've been and what you have been buying (it's replacing cards and money).
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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyQui Abr 02 2020, 18:49

Diario de um confinado ... Forum10

Os dias repetem-se sém dar o sentimento de avançar criando uma forma de desinteresse e de cansaço mental. A trilogia das noticias roda à volta do virus, da crise actual e da crise que vai vir, como se o presente não fosse suficientemente ansiogênico jà nos dizém que o futuro serà pior. Começo a estar farto deste quotidiano estàtico e sinto que isto vai durar ainda algum tempo, a paciência têm limites. O unico reconforto é de ver que as autoridades não sabem mais do que eu, eles também esperam algo, um milagre de certeza. Muitos armazéns estão a ser requisitados para servir de morgue temporaria, se o confinamento pareçe irreal o drama sanitario é real. Os anuncios de emprego explodem pois hà falta de mão de obra, se o estado deixar de pagar para ficar em casa vai haver candidatos, senão não. Aqui criticam a china de ter minorado o efeito do virus, como se fosse hàbito do governo chinês de dizer a verdade, e se o tivessem feito teriam sido criticados na mesma. Alguém vai ter que servir de bode expiatório e a china pareçe-me a designada, eles téem direito de comer morcegos, aqui comemos rãs, caracóis e ostras cruas. Um elemento invisivel mas real parou a frenesia do mundo moderno, os segundos continuam a passar mas lentamente, estamos em hibernação. Se o Jóhann Jóhannsson ainda estivesse vivo teria escrito uma obra para cristalisar este instante, ele a nomearia Virulandia, com a Englabörn e a Fordlandia formariam uma trilogia. Habituei-me a comer massa, arroz e legumes rapidamente, tento cozinhà-los nobremente, hà habitos que sò se perdem com o tempo. Os gatos começam a andar muito em casa, compreenderam a urgência da situação, devem ter companheiros contaminados. Os laboratorios estão numa corrida intensa para encontrar um remédio ou uma vacina, o objectivo é ser o primeiro, um prémio Nobel é muito tentador. Entretanto penso nisto tudo e pergunto-me que disco poderia escutar jà de seguida, ao menos tenho vàrias escolhas...

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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptySex Abr 03 2020, 14:41

Diario de um confinado ... P1090330


Para mim, viver num monte, numa fazenda ou ter uma casa frente ao mar como a minha avò tinha no algarve, seria um inferno. Sou um urbano, gosto e necessito de ouvir o barulho dos carros e das pessoas, do que eu chamo a vida. Não tenho nada contra a natureza evidentemente, mas ela não me alimenta espiritualmente e diria mesmo que me angustia um pouco. O cimento e as formas geométricas das cidades são o meu elemento, sinto-me mais proximo em todos os aspectos do Alvaro de Campos do que do Alberto Caeiro. Ouvi o meu vizinho tossir do outro lado da sebe do jardim, virus ou tabaco não sei pois não o conheço, nunca falei com ele. Estou rodeado por pessoas velhotas às quais nunca falei, deveria ir lhes perguntar se vão bem, se posso ajudar em algo. Clamar de gostar da sociedade e ao mesmo tempo não comunicar com os outros é incoerente, eu sei disso, o meu ser é feito de discordâncias. Hoje é o inicio das férias escolares, as autoridades jà preveniram que a policia vai controlar todas as estradas, o confinamento mutou em prisão. Visto que falei do Pessoa, como ele sinto-me exilado de mim mesmo, a aberração do presente desenha novos contornos na minha existência. Està sol e calor, gostaria de dar um salto até à praia o que nunca faço, comeria uma duzia de ostras, nunca como antes do jantar mas hoje seria a excepção. O fruto interdito tém mais sabor é conhecido, mas ném fruto interdito subsiste hoje, sòmente um fruto absurdo com o sabor do nada. A opera Einstein on the Beach do Philip Glass pareçe-me cristalisar o instante actual e poderia servir de banda sonora. Esta obra assenta num texto opaco sém sentido definido e na repetição permanente dos numeros de um até oito, que sejam os segundos ou as notas de musica pouco importa, essa repetição enche o vazio. Actualmente escuto mais vinilos, não é que prefira mas tenho que sair o disco, limpà-lo, pousar a agulha, mudar de face e repetir esses gestos gasta o tempo mais depressa. A musica minimalista repetitiva angustiava a minha primeira esposa, começo a compreender o que ela sentia, a repetição é algo de obcessivo e obsedante in fine. A frança é um grande consumidor de ansiolíticos, pareçe que o consumo actual dobrou, a segurança social deveria sobretudo subsidiar o vinho. Ninguém vai às padeirias e comem pão de forma, os padeiros estão em crise, de absurda a situação passou a nefasta. A repetição dos erros aumenta a incoerência do caos e cria novos erros com vocação a serem repetidos. Hoje vou buscar o meu filho pequeno, vai ficar uma semana connosco, vamos temporariamente travar a repetição...

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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyDom Abr 05 2020, 15:50

Diario de um confinado ... 0011


Ontém arrumei os vinilos por estilo, ordem alfabética e limpei o pò no auditorio. Começei a fazer a escolha dos CD's acumulados na garagem entre os que vou dar, os que vendo e os poucos que vou guardar. Aproveitei para começar a regrupar os aparelhos que andam também na garagem e ver o que faço com eles, mesmo se alguns são sentimentais vão ter que partir. Encontrei um Rek-O-Kut Rondine para restaurar que jà ném me lembrava que o tinha. È uma versão de radiodifusão (Transcription Motor) para braço de 12 polegadas, então vai interessar pessoas que gostam de recondicionar os aparelhos. Encontrei vàrios stocks de vàlvulas e de componentes que jà ném pensava os ter, vai dar para fazer muitos projectos interessantes. Com o meu filho fizemos um pouco de jardinagem e uns quantos cestos de basquetebol, foi agradàvel. Arrumei os novos ficheiros musicais nos discos rigidos, carreguei vàrios ficheiros que andavam ainda no computador e arrumei os ficheiros deste ultimo também, foi dia de ménage. Escutei uma hora com os auscultadores, fazia tempo que não ouvia musica assim, é verdadeiramente o suprasumo da reprodução musical. As noticias são alarmantes no que diz respeito ao futuro, começo a pensar se a cura não é pior do que o mal. Apenas a começar a se erguer da crise portugal pode mergulhar ainda mais profundamente, estou triste e penso que por todo o lado vai ser dificil. No fim da tarde fomos dar um passeio num bosque perto de casa, faz bem apanhar ar e transpirar um pouco, mas sò podemos sair uma hora e num raio de 1Km. Com um amigo fizémos um aperitivo através do Zoom, na vespera tinha sido a mulher que tinha feito com vàrias amigas, hà que passar o tempo. Com todo o egoismo nacional durante esta crise, os danos no edificio europeu pareçem-me irreparàveis, vamos voltar ao inicio pois não estamos à altura. Consegui encontrar alguns componentes na garagem para poder continuar o trabalho pois os correios praticamente que não funcionam. Muitas das pequenas empresas estão jà asfixiadas e que o desemprego seja interdito actualmente não vai mudar o futuro. Aliàs, o futuro é a coisa mais abstrata que existe no absurdo presente...

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MensagemAssunto: Diário de um confinado   Diario de um confinado ... EmptyDom Abr 05 2020, 17:20

...Esse Rek-o-Kut Rondine, é uma peça muito interessante e merece ser restaurada...
Só tenho pena de estarmos em quarentena quando não candidatáva-me aadquiri-lo para juntar ao meu Broadcast Electronics com braço Rek-o-Kut...
Eu também ando em arrumações e estou a encontrar coisas de que já não me lembrava !!!Diario de um confinado ... Img_8210
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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyDom Abr 05 2020, 22:16

Fernando Salvado escreveu:
... candidatáva-me aadquiri-lo para juntar ao meu Broadcast Electronics com braço Rek-o-Kut...

Trata-se de um bonito exemplar que tém para ai. O meu està com a pintura a estalar e é necessario um pouco de trabalho mecânico, um plinth e pintà-lo de novo ... é trabalho pesado. Comprei-o com o intuito de o meter novo em folha mas sou demasiado calão. Até esqueçi que o tinha e isto diz tudo Embarassed

Mas tenho um amigo que vai tomar conta dele como se deve. Depois serà para uma coleção porque o som dos Rek-O-Kut é viril affraid

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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyQua Abr 08 2020, 17:50

Diario de um confinado ... 0012


Os dias repetem-se e esta situação pareçe não ter fim, felismente tenho trabalho e isso distrai-me um pouco. Fomos passear uma hora no bosque aqui ao lado, faz bem de sair e fazer exercicio, de se cansar um pouco. Deixei de ver ou ouvir as noticias, é sempre a mesma coisa e o sensacionalismo dos médias é indecente. O governo pede às pessoas de não reservar nada para o verão, as férias não serão como de habito. Nunca vi Veneza sém turistas por todo o lado e Paris também não, é a boa época para viajar se fosse possivel. Portugal està na lista dos paises que serão mais impactados pela situação, mais uma crise. Os franceses não vão invadir os outros paises este ano, é suficientemente raro para ser sublinhado. No supermercado jà não hà pão de forma, ném arroz, ném farinha e a massa é pouca, até pareçe um supermercado da ex-URSS. Criou-se uma fractura imensa entre o pragmatismo setentrional e o tradicionalismo meridional, existém dois polos na europa por causa do virus. O norte està farto de pagar para o sul e estes ultimos sém ajuda vão afundar, um circulo vicioso ... é bom que se acabe de vez. Os dias passam lentamente e deixam tempo para reflectir, para observar e sentir. Não hà nada de bom nos dias de hoje e nada de bom vai sair desta situação, a raiva aumenta com o sentimento de impotência. Fui falar com os meus vizinhos, saber se precisam de algo, estou contente de o ter feito. Vou telefonar a um bom amigo que vive sozinho e que começa a deprimir, esta situação não cria mesmo nada de bom...

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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyQua Abr 08 2020, 18:34

Hoje a estória é outra... Depois de tentar sem sucesso construir uma ilha, deu-me para pensar numa nova ponte.
O Homem sempre precisou de pontes que o ligassem ao mundo exterior, divindades, ciência, lógica ou linguagem...


Ponte sobre o abismo da esquina.

Os cinco sentidos já não chegam para descrever o Homem do século XXI, talvez eu próprio me venha a recordar de como fui ridículo até ao dia em que compreendi pela primeira vez que cinco era um número manifestamente baixo de sentidos. Ontem respondia com um sorriso a quem vaticinava que o Homem se tinha desenvolvido pela via sensorial, eu apostava todas as minhas fichas na evolução racional e esta, como bem se percebe, ao desenvolver-se roubava espaço à vizinhança. Os sentidos são uns malandros, pregam-nos partidas e isso é-nos ensinado com textos muito velhos, textos com mais de dois mil e quinhentos anos. Cresci a ouvir que os mais velhos sabem mais do que os mais novos, agora tenho que colocar tudo em causa, afinal foi algo novo que despertou esta mudança em mim.

Não sabia bem o que fazer com o meu tempo, para ser honesto ainda não sei bem o que fazer, passei estes anos todos a pensar no que devia e podia fazer com a minha disponibilidade, agora vou ter que começar a sentir o que fazer com ela. Espero e não desespero, mas estou prestes a entregar-me ao sono que me abala as fundações do estar desperto. O sono não é um dos sentidos agora comummente aceites, mas já me sinto queixinhas e desorientado. O queixume bem que poderia ser um dos sentidos, ao que o Homem se queixa não me admirava mesmo nada que fosse esse o gatilho de toda a nossa evolução. Dói-me isto, aquilo, aqui, ali… As queixas não acabam por aqui e pela sensação do próprio corpo, ainda há as de falta-me isto, falta-me aquilo, falta algo aqui, falta tanto ali… Começo a ver uma luz ao fundo do túnel, o queixume é o sentido que gerou a evolução, foi para responder às queixinhas que nunca paramos de mexer no que está quieto. Tantas vezes ignoramos a razão para colmatar a razão de uma queixa, que contas feitas apenas nos restou a acção justificada pela queixa.

Agora mesmo sinto falta de alguma coisa, não sei bem o que será, mas não vou pensar muito nisso. Vou seguir o meu novo sentido, ele saberá onde me levar, bem vistas as coisas, ele sempre soube, mesmo tendo que lutar para se afirmar nestes anos todos que o andei a ignorar.



Já cheira a bolo, menos uma queixa... Mas já sei que logo vou ouvir outra que diz "isso engorda". Smile
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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyQui Abr 09 2020, 03:09

Após diversas tentativas mediocramente recompensadas, mantive-me firme e perseverei.

Hoje pela primeira vez fiz um pão formidável.

Segui esta receita

6
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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyQui Abr 09 2020, 09:20

Mário Franco escreveu:
Após diversas tentativas mediocramente recompensadas, mantive-me firme e perseverei.

Hoje pela primeira vez fiz um pão formidável. ...

Ora ai està uma dica que pode servir ... contente de ver que està de boa saude amigo Màrio cheers

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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyQui Abr 09 2020, 10:55

TD124 escreveu:
Mário Franco escreveu:
Após diversas tentativas mediocramente recompensadas, mantive-me firme e perseverei.

Hoje pela primeira vez fiz um pão formidável. ...

Ora ai està uma dica que pode servir ... contente de ver que està de boa saude amigo Màrio cheers

Obrigado amigo Paulo tudo de bom também para si cheers e todos os demais
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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyQui Abr 09 2020, 11:42

José Miguel escreveu:
... Agora mesmo sinto falta de alguma coisa, não sei bem o que será, mas não vou pensar muito nisso. Vou seguir o meu novo sentido, ele saberá onde me levar, bem vistas as coisas, ele sempre soube ...

Eu diria que te falta: Um novo par de colunas, um novo gira, um novo amplificador e muitos discos de rock psicadelico italiano para passar o tempo. Tenho razão ou não Wink

lol!

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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyQui Abr 09 2020, 12:08

TD124 escreveu:
José Miguel escreveu:
... Agora mesmo sinto falta de alguma coisa, não sei bem o que será, mas não vou pensar muito nisso. Vou seguir o meu novo sentido, ele saberá onde me levar, bem vistas as coisas, ele sempre soube ...

Eu diria que te falta: Um novo par de colunas, um novo gira, um novo amplificador e muitos discos de rock psicadelico italiano para passar o tempo. Tenho razão ou não Wink

lol!

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Não... Laughing

Eu estou a trabalhar, mas na terça-feira cheguei a casa com necessidade de descarregar energia. Disse à Luciana "vamos experimentar mexer nas colunas".

Comecei por tirar os cabos, tirar as colunas das bases, tiras as bases de cima das pedras, deslocar as pedras e os seus "pés" para o novo lugar, alinhar os dois lados, voltar a colocar as bases, as colunas, os cabos, ... Ufa!!!

Duas faixas depois, de dois álbuns diferentes, estava a repetir tudo para voltar a colocar onde estava... silent

Durante uns dez minutos experimentamos um "novo" som, confuso, todo amontoado, ... Parecia que estávamos numa garagem com o som de um PA manhoso apontado a nós.

Quem não tiver o que fazer e quiser experimentar coisas novas, não precisa gastar dinheiro. E ainda recebe, eu recebi, eu rasgado sorriso da cara metade. dvil


No trabalho, por estar isolado, posso ouvir o que quiser, mas confesso que percebo o que o Paulo vai dizendo - por vezes ouvir Música já não tem o significado que deveria ter.

Ontem abrimos uma garrafa de vinho, ajudou! Smile




edit: não ando numa fase de Rock Progressivo, não deixei de gostar, mas estou voltado para a nova "cena" Jazz... Parece haver uma nova ligação do género à espiritualidade, como se fosse a forma de expressão do que a "Rua" transpira... Fases!
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Alexandre Vieira
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MensagemAssunto: Re: Diario de um confinado ...   Diario de um confinado ... EmptyQui Abr 09 2020, 12:31

Mário Franco escreveu:
Após diversas tentativas mediocramente recompensadas, mantive-me firme e perseverei.

Hoje pela primeira vez fiz um pão formidável.



Ena se ficou com esse aspecto já marchava com manteiga.

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