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 CARTA ABERTA A UM DUX

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Ferpina
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MensagemAssunto: CARTA ABERTA A UM DUX   Dom Jan 26 2014, 19:47

CARTA ABERTA A UM DUX

Dux:

Ando aqui com esta m*&da entalada há já algum tempo. A ouvir as diferentes versões, a pensar nas dúvidas e a pôr-me no lugar das pessoas. Tento pôr-me no lugar dos pais dos teus colegas que morreram. Mas não quero. É um lugar que não quero nem imaginar. É um lugar que imagino ser escuro e vazio. Um vazio que nunca mais será preenchido. Nunca mais, Dux. Sabes o que é isso? Sabes o que é "nunca mais"?

A história que te recusas a contar cheira cada vez mais a m*&da, Dux. Primeiro não falavas porque estavas traumatizado e em choque por perderes os teus colegas. Até acreditei que estivesses. Agora parece que tens amnésia selectiva. É uma amnésia conveniente, Dux. Curiosamente, uma amnésia rara resultante de uma lesão cerebral de uma zona específica do cérebro. Sabias Dux? Se calhar não sabias. Resulta normalmente de um traumatismo crânio-encefálico. Portanto Dux, deves ter levado uma granda mocada na cabeça. Ou então andas a ver se isto passa. Mas isto não é uma simples dor de cabeça, Dux. Isto não vai lá com o tempo nem com uma aspirina. Já passou mais de 1 mês. Continuas calado. Mas os pais dos teus colegas têm todo o tempo do mundo para saber a verdade, Dux. E vão esperar e lutar e espremer e gritar até saberem. Porque tu não tens filhos, Dux. Não sabes do que um pai ou uma mãe é capaz de fazer por um filho. Até onde são capazes de ir. Até quando são capazes de esperar.

Vocês, Dux... Vocês e os vossos ridículos pactos de silêncio. Vocês e as vossas praxes da treta. Vocês e a mania que são uns mauzões. Que preparam as pessoas para a vida e para a realidade à base da humilhação, da violência e da tirania. Vou te ensinar uma coisa, Dux. Que se calhar já vai tarde. Mas o que prepara as pessoas para a vida é o amor, a fraternidade, a solidariedade e o civismo. O respeito. A dignidade humana e a auto-estima. Isso é que prepara as pessoas para a vida, Dux. Não é a destruí-las, Dux. É ao contrário. É a reforçá-las.

Transtorna-me saber que 6 colegas teus morreram, Dux. Também te deve transtornar a ti. Acredito. Mas devias ter pensado nisso antes. Tu que és o manda-chuva, e eles também, que possivelmente se deixaram ir na conversa. Tinham idade para saber mais. Meco à noite, no inverno, na maior ondulação dos últimos anos, com alerta vermelho para a costa portuguesa? Achavam mesmo que era sítio para se brincar às praxes, Dux? Ou para preparar as pessoas para a vida? Vocês são navy seals, Dux? Estavam a preparar-se para alguma missão na Síria? Enfim. Agora sê homenzinho, Dux. E fala. Vá. És tão dux para umas coisas e agora encolhes-te como um rato. Sabes o que significa dux, Dux? Significa líder em latim. Foste um líder, Dux, foste? Líderes não humilham colegas. Líderes não "empurram" colegas para a morte. Líderes lideram por exemplo. Dão o peito e a cara pelos colegas. Isso é um líder, Dux.

Não sei o que isto vai dar, Dux. Não sei até que ponto vai a tua responsabilidade nesta história toda. Mas a forma como a justiça actua neste país pequenino não faz vislumbrar grande justiça. És capaz de te safar de qualquer responsabilidade, qualquer que ela seja. Espero enganar-me. Vamos ver. O que eu sei é que os pais que perderam os filhos precisam de saber o que aconteceu. Precisam mesmo, Dux. É um direito que eles têm. É uma vontade que eles precisam. Negá-los disso, para mim já é um crime, Dux. Um crime contra a humanidade. Uma violação dos direitos humanos fundamentais. Só por isso Dux, já devias ser responsabilizado. É tortura, Dux. E a tortura é crime.

Sabes, quero me lembrar de ti para o resto da vida, Dux. Sabes porquê? Porque não quero que o meu filho cresça e se torne num dux. Quero que ele seja o oposto de ti. Quero que ele seja um líder e não um dux. Consegues pereceber o que digo, Dux? Quero que ele respeite todos e todas. Que ele lidere por exemplo. Que ele não humilhe ninguém. Que seja responsável. Que se chegue à frente sempre que tenha que assumir responsabilidades. Que seja corajoso e não um rato nem um cobardezinho. Que seja prudente e inteligente. E quero me lembrar também dos teus colegas que morreram. Porque não quero que o meu filho se deixe "mandar" e humilhar por duxezinhos como tu. Não quero que ele se acobarde nem se encolha perante nenhum duxezinho. Quero que ele saiba dizer "não" quando "não" é a resposta certa. Quando "não" pode salvar a sua dignidade, o seu orgulho ou até a sua vida. Quero que ele saiba dizer "basta" de cabeça erguida e peito cheio perante um duxezinho, um patrãozinho, um governozinho ou qualquer tirano mandão e inseguro que lhe apareça à frente. É isso que eu quero, Dux. Quem o vai preparar para a vida sou eu e a mãe dele, Dux. Não é nenhum dux nem nehuma comissão de praxes. Sabes porquê, Dux? Porque eu não quero um dia estar à espera de respostas de um cobarde com amnésia selectiva. Não quero nunca sentir o vazio dos pais dos teus colegas. Porque quero abraçar o meu filho todos os dias da minha vida até eu morrer, Dux. Percebeste? Até EU morrer. EU, Dux. Não ele.

23/01/2014

http://pesnosofa.blogspot.pt/2014/01/carta-aberta-dux.html?spref=fb

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MensagemAssunto: Re: CARTA ABERTA A UM DUX   Dom Jan 26 2014, 20:33

Eu, por acaso não me declarei anti-praxe. Não faltou assim tanto, mas não havia as parvoíces que às vezes se vêem.

Acredito pouco que este fulano fosse o único na praia a ter sobrevivido e que não haja outros calados.

Os caloiros querem integração e às vezes sujeitam-se ao que não devem, Os mais velhos tinham obrigação de não abusar.

Uma grande asneira que não tem solução.

Não simpatizo com praxes. Parece-me que alguns tipos se acham os maiores por serem Dux's ou lá o que é. Que grande palermice.
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António José da Silva
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MensagemAssunto: Re: CARTA ABERTA A UM DUX   Dom Jan 26 2014, 20:49

A tradição da praxe não é culpada, mas sim as pessoas.

Faz-me lembrar a passagem de ano onde todos os anos morre gente e muitos ficam mutilado por falta de "pensar" e bom senso. São as pessoas que transformam coisas boas e inofensivas em coisas potencialmente perigosas.


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MensagemAssunto: Re: CARTA ABERTA A UM DUX   Dom Jan 26 2014, 21:40

Dux ou Maçónico?   
Seja tradição ou não, haja regras e liberdades com respeito por um dia ou uma semana de festa colectiva. Agora... um ano de secretismo? Isto cheira-me para além de um ano.
Seja tradição ou não, por mim era tornar ilegal e com pesadas penas a prisão com coimas altíssimas a estas PRAXES de organizações secretas.

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Milton
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MensagemAssunto: Re: CARTA ABERTA A UM DUX   Dom Jan 26 2014, 22:20

Para mim as praxes não passam de uma espécie de bulling consentido.
Se deviam ou não continuar a ser permitidas já é matéria que dá pano para mangas.

A minha filha mais velha não alinhou nisso e declarou-se anti-praxe com todas as consequências que daí vieram, e que não foram nenhumas a não ser o facto de não ter andado a perder o seu precioso tempinho nessas parvoíces...
Já a mais nova diz que se pudesse ser novamente praxada o seria de bom grado... Rolling Eyes 

Na longa tradição das praxes académicas sempre houve cenas que não lembra ao diabo, e aqui na escola de regentes agrícolas essas coisas eram levadas a um expoente parecido com uma recruta de tropa especial.

Acredito que no Meco aconteceu aquilo que não estava no guião, um acidente.
E também acho que o rapaz sobrevivente tem a vida dele desgraçada. É um pesadelo que o vai acompanhar para sempre. Um morto-vivo.

E só se se vier a descobrir que lá estava, nessa noite na praia, mais gente é que se poderá vir a fazer uma acusação com consequências. Sem isso e se o rapaz mantiver aquela versão, não há nada a fazer.

Eu "quero" acreditar na versão dele. É a melhor para todos. E para os pais também.

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António José da Silva
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MensagemAssunto: Re: CARTA ABERTA A UM DUX   Dom Jan 26 2014, 22:25

Milton escreveu:

Já a mais nova diz que se pudesse ser novamente praxada o seria de bom grado... Rolling Eyes 





É interessante de constatar que muitos jovens (e menos jovens) que conheço, consideram ainda hoje a melhor semana das suas vidas.
O problema não é a praxe académica, o carnaval nem a passagem de ano, mas sim o que as pessoas fazem delas e as ações que têm aquando das mesmas. Infelizmente, existe sempre gente que se excede em muitas circunstancias da vida.

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MensagemAssunto: Re: CARTA ABERTA A UM DUX   Dom Jan 26 2014, 22:27

Milton escreveu:
Para mim as praxes não passam de uma espécie de bulling consentido.
Se deviam ou não continuar a ser permitidas já é matéria que dá pano para mangas.

A minha filha mais velha não alinhou nisso e declarou-se anti-praxe com todas as consequências que daí vieram, e que não foram nenhumas a não ser o facto de não ter andado a perder o seu precioso tempinho nessas parvoíces...
Já a mais nova diz que se pudesse ser novamente praxada o seria de bom grado... Rolling Eyes 

Na longa tradição das praxes académicas sempre houve cenas que não lembra ao diabo, e aqui na escola de regentes agrícolas essas coisas eram levadas a um expoente parecido com uma recruta de tropa especial.

Acredito que no Meco aconteceu aquilo que não estava no guião, um acidente.
E também acho que o rapaz sobrevivente tem a vida dele desgraçada. É um pesadelo que o vai acompanhar para sempre. Um morto-vivo.

E só se se vier a descobrir que lá estava, nessa noite na praia, mais gente é que se poderá vir a fazer uma acusação com consequências. Sem isso e se o rapaz mantiver aquela versão, não há nada a fazer.

Eu "quero" acreditar na versão dele. É a melhor para todos. E para os pais também.

Sim, eu também acho isto mesmo.
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MensagemAssunto: Re: CARTA ABERTA A UM DUX   Dom Jan 26 2014, 22:40

Milton escreveu:
Para mim as praxes não passam de uma espécie de bulling consentido.
Se deviam ou não continuar a ser permitidas já é matéria que dá pano para mangas.

A minha filha mais velha não alinhou nisso e declarou-se anti-praxe com todas as consequências que daí vieram, e que não foram nenhumas a não ser o facto de não ter andado a perder o seu precioso tempinho nessas parvoíces...
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Na longa tradição das praxes académicas sempre houve cenas que não lembra ao diabo, e aqui na escola de regentes agrícolas essas coisas eram levadas a um expoente parecido com uma recruta de tropa especial.

Acredito que no Meco aconteceu aquilo que não estava no guião, um acidente.
E também acho que o rapaz sobrevivente tem a vida dele desgraçada. É um pesadelo que o vai acompanhar para sempre. Um morto-vivo.

E só se se vier a descobrir que lá estava, nessa noite na praia, mais gente é que se poderá vir a fazer uma acusação com consequências. Sem isso e se o rapaz mantiver aquela versão, não há nada a fazer.



Eu "quero" acreditar na versão dele. É a melhor para todos. E para os pais também.

Palavras sábias, e não fosse o grave do assunto, aplaudia!
Seja como for, dará sempre para reflectir.
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MensagemAssunto: Re: CARTA ABERTA A UM DUX   Dom Jan 26 2014, 23:21

António José da Silva escreveu:
A tradição da praxe não é culpada, mas sim as pessoas.

Faz-me lembrar a passagem de ano onde todos os anos morre gente e muitos ficam mutilado por falta de "pensar" e bom senso. São as pessoas que transformam coisas boas e inofensivas em coisas potencialmente perigosas.

Eu na minha modesta opinião e de parcos conhecimentos sociológicos considero a praxe académica um dos poucos rituais de passagem para a idade adulta ainda existentes nesta sociedade. Por aí portanto parece-me necessário (até porque um dos q existia q hoje já quase não se dá por ele era a inspeção militar e a ida à tropa - ainda q só para o género masculino). por outro lado considero q os exageros são dispensáveis - colocar em perigo a integridade física, a vida ou a saúde de outrem deve ser algo q deve ser punido. penso q as reitorias das universidades não fazem o suficiente para garantir q estas praxes q se têm tornado cada vez mais exigentes e perigosas para os caloiros, não o sejam
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António José da Silva
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MensagemAssunto: Re: CARTA ABERTA A UM DUX   Dom Jan 26 2014, 23:30

anibalpmm escreveu:
por outro lado considero q os exageros são dispensáveis



Nisso estamos todo de acordo. O problema, é que os excessos são proporcionais a quantidade de idiotas que povoam o planeta terra.

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anibalpmm
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MensagemAssunto: Re: CARTA ABERTA A UM DUX   Dom Jan 26 2014, 23:40

http://www.publico.pt/sociedade/noticia/as-reitorias-nunca-tiveram-vontade-de-expulsar-as-praxes-ou-de-as-domesticar-sequer-1621099


“As reitorias nunca tiveram vontade de expulsar as praxes ou de as domesticar sequer”
SAMUEL SILVA 25/01/2014 - 22:38
A socióloga Rita Ribeiro mergulhou no universo das praxes académicas. Fala em casos de tribunal, em responsabilidade individual e diz que um dos problemas é que "isto são brincadeiras de crescidos".


O episódio é contado na investigação académica da socióloga Rita Ribeiro sobre praxes académicas. Um grupo de alunos estava à volta de um lago numa praxe quando os colegas mais velhos dão a ordem de saltar. Em vez de molharem os pés e saltitarem, os mais novos atiraram-se para dentro de água. “É o exemplo do clima de intimidação e de quem está sempre à espera do pior”, diz a professora da Universidade do Minho (UM).

Foi este o ambiente que encontrou no trabalho de campo que fez, inicialmente sob o ponto de vista da antropologia, olhando as praxes enquanto ritual de passagem. Foi também autora – juntamente com outro sociólogo da mesma universidade, Carlos Gomes – de um relatório sobre as praxes na UM, encomendado pela reitoria da instituição. “A intenção nunca foi julga-las, antes entendê-las”.

O que explica esta necessidade de os jovens estudantes enfatizarem esta etapa da sua vida?
Por um lado, há uma questão histórica e uma ideia de tradição, que é sempre usada como discurso legitimador. Depois, as praxes funcionam como um sinal da elevação estatutária que significa a entrada para o ensino superior. Para todos os efeitos, este ainda é um sector minoritário na sociedade portuguesa. Essa dimensão elitista leva a que se valorize a entrada na universidade. O traje e todos os signos da praxe são formas de os alunos sentirem um reconhecimento estatutário por parte da sociedade.

Mesmo para aqueles que são praxados?
Talvez até mais para esses, porque é um momento em que isso é visível para todos. Quando vão na rua com a cara pintada e não se importam com isso é porque estão a dizer aos outros: “Eu entrei para a universidade”. As praxes eram uma prática da Universidade de Coimbra e entraram em declínio nos anos 1960, por questões políticas. Emergiram no final dos anos 1980 e ganharam força nos anos 1990, precisamente quando o ensino superior se democratiza.

Não seria expectável que fosse ao contrário: a partir do momento em que alarga o espectro dos que entram na universidade, o peso simbólico é menor?
Podia ser assim, mas, apesar dessa massificação, só uma percentagem muito restrita da população entra na universidade. Sobretudo naquela altura [anos 1990], em que havia uma forte pressão de procura e muitos dos que se candidatavam não entravam.

O possível embaraço público pesa menos do que o sentimento de orgulho por pertencer a esta comunidade?
Tirando aqueles alunos que participam porque não têm capacidade para se escusar a fazê-lo, na grande maioria das situações que pude recolher é isso que acontece. As pessoas sentem-se [impelidas] a participar de livre vontade. Muitas vezes, esse embaraço nem sequer é sentido, porque o lado provocatório que a praxe tem estimula-os. Estão a fazê-lo em grupo, a coberto de uma tradição, e isso funciona para alimentar essas práticas.

Qual é o papel das reitorias ou das direcções das faculdades neste processo?
Nunca tiveram muita vontade de expulsar as praxes ou de as domesticar sequer. Há aqui questões políticas, porque os reitores precisam de ter os alunos do seu lado. E, para muitos alunos, uma posição mais forte contra as praxes pode ser vista como uma afronta. A solução também não está numa rejeição completa, até porque as praxes parecem-me mais perigosas quando estão fora das universidades do que quando estão dentro. Algum equilíbrio da domesticação destas práticas é o ideal, mas não é fácil de se conseguir.

Dizia que a tradição aparece muitas vezes como discurso legitimador da praxe. Mas em universidades como a do Minho ou a de Aveiro, que são recentes, que tradição existe?
É uma tradição inventada, como são quase todas. O que há é uma recuperação de práticas históricas que são mobilizadas para aquilo que são os interesses dos estudantes. Estas tradições existiam em algumas universidades antigas – no caso português, Coimbra. O que as universidades novas fizeram foi apropriar-se destas práticas e, simultaneamente, dar-lhes uma tonalidade local, recuperando histórias mais ou menos mitificadas acerca daquilo que os estudantes liceais de cada cidade faziam ou das instituições eclesiásticas que tinham uma componente de ensino superior. Isso é também uma forma de legitimação, sobretudo numa universidade nova que precisa de criar uma identidade.

Na sua investigação, escreve que as regras da praxe são “implícitas” e “informuladas”. Como é que isso se explica?
Num ritual, sabe-se o que se deve fazer, mas muitas vezes o sentido das coisas está implícito. Por isso é que eles são polissémicos, servem para muita gente. E agregam vontades devido a essa plasticidade. Quando lemos o código de praxe, está lá um conjunto de limitações, mas não diz como fazer. O como fazer é uma prática que se constrói e que se reproduz num certo contexto institucional.

Mas há regras mais óbvias?
Embora operando numa lógica do implícito, estruturalmente, estão lá os significados. No caso da praxe, elas são interessantes do ponto de vista do estudo dos rituais devido a duas dimensões. Os pilares em que assentam são a hierarquia e o igualitarismo entre aqueles que são praxados. A praxe desenvolve-se nesta tensão permanente de reprodução das estruturas hierárquicas da sociedade de uma forma muito linear. E, ao mesmo tempo, do lado dos que estão a ser iniciados, é promovida a sua homogeneização, o seu nivelamento, a sua desinvidualização.

Essa é uma das críticas mais frequentes à praxe: o nivelamento e esta reprodução da hierarquia. No trabalho de campo, isso é uma coisa óbvia?
Está no nível estrutural daquilo que são os rituais associados à praxe, mas está. Há uma violência hierárquica muito forte, sobretudo nos primeiros tempos de praxe. Ao mesmo tempo que há uma completa formatação daqueles que estão a ser praxados e um apagamento das individualidades. Esta é uma prática comum a todas as instituições em que estão muitas pessoas juntas durante muito tempo, como as forças armadas ou os mosteiros.

Quando alguma coisa corre mal, é comum que as estruturas associadas à praxe não falem. O silêncio também é uma das regras implícitas?
Tal como outros rituais desta natureza, as praxes servem para constituir aquilo a que alguns autores chamam o espírito de corpo. Isso significa sempre que estamos a criar uma certa identidade entre nós e a afastar os que não têm o direito a passar pelo mesmo. Esse pacto de silêncio que às vezes se percebe tem a ver com isso: há uma protecção dos nossos. Se a praxe consegue alguma coisa é isso, é criar um espírito de corpo, uma identificação com a universidade, com um curso, com um grupo de pessoas. Do ponto de vista sociológico ou antropológico, quando os grupos se formam passando por este tipo de práticas violentas, reforçam ainda mais esse espírito.

Como é que se conciliam estas regras implícitas com o anúncio feito em Agosto de 2012, por nove estruturas académicas, de criação de um código de praxe comum para o país todo?
Provavelmente, estamos apenas no domínio da intenção. Não vejo que seja muito possível essa cooperação tão estreita entre diferentes universidades, que criaram “tradições” de praxes diferentes. Até pode ser que se chegue a esse código, mas será sempre suficientemente vago e pouco operativo.

Onde é que a praxe se cruza com a lei?
Essa é uma zona de sombra. Todas as sociedades acabam por ter esta capacidade de acomodar certas práticas que estão contra os valores explícitos ou a lei. Qualquer juízo baseado na nossa lei condena muitas das coisas que se passam na praxe e muitas delas são efectivamente situações de tribunal. Mas o significado que nós atribuímos de fora não é o significado que está a circular dentro do grupo que está a ser praxado e está a praxar. Temos que ver as praxes como uma dramatização feita por um grupo. É esse jogo de papéis que está ali a acontecer. Fora deste contexto específico, aquilo são situações intoleráveis.

Mas há espaços para a lei eventualmente intervir?
Apesar de as ver nesta óptica da dramatização, é evidente que não deixamos de estar numa sociedade onde há regras muito explícitas acerca dos direitos das pessoas. Essa subversão é calendarizada, sabe-se quando e onde pode acontecer e também se sabe quando e onde não pode acontecer, e é este contexto específico o que leva as instituições universitárias e a sociedade em geral a tolerarem as praxes. Mas não deixam de ser cidadãos que estão envolvidos. Há aqui também uma questão que é muito importante: a responsabilidade individual tanto de quem praxa como de quem é praxado. Quem é praxado também tem responsabilidade, porque está ali porque quer.

É, de facto, possível dizer que não à praxe?
Dependerá muito das universidades, dos cursos, de quem está a dirigir as comissões de praxe, mas é possível dizer que não. E há também estruturas institucionais que são capazes de ajudar, como o provedor do estudante, que é uma figura relativamente nova.

Quem participa também assumiu que aquelas eram as regras do jogo?
Mas a qualquer momento tem que poder dizer que não. O mais importante no trabalho pedagógico junto dos alunos é que, a qualquer momento, devem poder parar o jogo. Essa responsabilidade individual não pode ser esquecida.

Nos dois casos mais mediáticos que chegaram a tribunal – a Universidade Lusíada foi condenada a pagar uma indemnização à família de um aluno que morreu na sequência de uma praxe, em 2001, e o Instituto Piaget também teve que compensar uma aluna que se queixou da violência da praxe, em 2002 –, a condenação recaiu sobre a instituição e nunca sobre os indivíduos. É difícil que o ascendente que alguém tem sobre outro no âmbito deste jogo possa ser entendido como estando para lá da fronteira da lei?
Não sei como é que os processos foram tratados do ponto de vista judicial, mas imagino que, tal como em muitas outras situações que cruzam o domínio da lei, seja possível atribuir responsabilidades e culpas que vão para além desta forma quase abstracta de condenar uma instituição. Se sabemos que acontecem situações muito graves, elas têm protagonistas. A cumplicidade que a sociedade portuguesa tem com as praxes está em todo o lado.

O álcool e as drogas também fazem parte da praxe?
Em relação às drogas, não me deparei com nenhum caso. Mas o álcool faz parte. Algumas praxes ocorrem à noite e ocorrem quase sempre tendo o álcool também como actor. Os estudantes passam pelos bares e muitos deles são constrangidos a beber.

O que é que justifica que um país que se mobiliza com o bullying no ensino obrigatório tolere estas práticas no superior?
Há uma razão muito simples: estamos a falar de adultos. Não podemos esquecer isso. É difícil fazer uma intervenção quando estamos a falar de pessoas que estão ali de livre vontade. Seria preciso provar que estão na praxe fortemente coagidos e intimidados e isso não acontece, na maior parte dos casos. Isto é uma brincadeira de gente crescida.
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António José da Silva
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MensagemAssunto: Re: CARTA ABERTA A UM DUX   Qua Jan 29 2014, 08:38



http://expresso.sapo.pt/a-irreprimivel-tentacao-de-proibir=f852925#ixzz2rm024gS8

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