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 Reflexões de H. M.

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ricardo onga-ku
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MensagemAssunto: Re: Reflexões de H. M.   Ter Fev 11 2014, 16:32

Eu concordo com o Mário: um sistema deve reproduzir o sinal com a maior "fidelidade" possível pois esse sinal contém o timbre (c/ dominante, secundários, formante e tudo o mais) dos instrumentos, ou aquilo que é tecnicamente o mais próximo possível do timbre real dos instrumentos (em teoria, porque na realidade nem sempre são utilizados equipamentos de desempenho superlativo ou técnicas de captação adequadas).

O problema está na incapacidade deste sistema composto pelas fases de captação, registo, leitura e reprodução em recriar o evento original nas nossas salas.
As causas são várias: a qualidade do sinal resulta do posicionamento dos microfones e do nível desempenho de todos os componentes utilizados na captação, a captação e reprodução estereofónica de 2 ou mais canais não consegue "mimetizar" a radiação sonora dos instrumentos, as nossas salas têm uma "assinatura" acústica demasiado vincada que entra em conflito com a acústica do espaço original (isto se falarmos de música "séria"), etc.

Nesse caso há duas alternativas, conformamo-nos com a recriação deficiente ou procuramos reinventar o evento original…ou seja, pintamos a manta.


Última edição por ricardo onga-ku em Ter Fev 11 2014, 20:26, editado 1 vez(es)
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Holbein Menezes
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MensagemAssunto: Re: Reflexões de H. M.   Ter Fev 11 2014, 18:52

O problema é que uma coisa é uma coisa, e outra completamente diferente, como gostava de repetir aquele locutor esportivo da Ilha de Florianópolis (para onde as autoridades portuguesas do tempo colonial deportavam seus malfeitores; daí o nome original da Ilha, "Ilha do Desterro".

Ou seja: uma coisa é o evento original (que pode ser ótimo, bom e ruim) e outra coisa completamente diferente é sua replicação nas condições domésticas (que também pode ser ótimo, bom ou ruim).

Moral da história:se são duas coisas diferentes, tenhamos cada uma ao nosso gosto... e mandemos às favas os teóricos junto com as medições.

Portanto do alto da minha "sabedoria" já quase centenária aconselho: monte seu som para você! O diabo é que a gente demora para saber o que de fato quer!!!!!!!!!!
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António José da Silva
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MensagemAssunto: Re: Reflexões de H. M.   Ter Fev 11 2014, 19:16

Holbein Menezes escreveu:


Moral da história:se são duas coisas diferentes, tenhamos cada uma ao nosso gosto... e mandemos às favas os teóricos junto com as medições.



Essa é que é essa.

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ricardo onga-ku
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MensagemAssunto: Re: Reflexões de H. M.   Ter Fev 11 2014, 20:05

Holbein Menezes escreveu:
O problema é que uma coisa é uma coisa, e outra completamente diferente, como gostava de repetir aquele locutor esportivo da Ilha de Florianópolis (para onde as autoridades portuguesas do tempo colonial deportavam seus malfeitores; daí o nome original da Ilha, "Ilha do Desterro".

Ou seja: uma coisa é o evento original (que pode ser ótimo, bom e ruim) e outra coisa completamente diferente é sua replicação nas condições domésticas (que também pode ser ótimo, bom ou ruim).

Moral da história:se são duas coisas diferentes, tenhamos cada uma ao nosso gosto... e mandemos às favas os teóricos junto com as medições.

Portanto do alto da minha "sabedoria" já quase centenária aconselho: monte seu som para você! O diabo é que a gente demora para saber o que de fato quer!!!!!!!!!!

Sem dúvida; com ou sem medições um sistema constroi-se pelo método de tentativa e erro, através da avaliação comparativa.
E esta é condicionada, de um modo mais ou menos determinante, pelo nosso gosto - essa amálgama de informação acumulada ao longo do tempo através das nossas vivências.


Última edição por ricardo onga-ku em Ter Fev 11 2014, 20:19, editado 1 vez(es)
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António José da Silva
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MensagemAssunto: Re: Reflexões de H. M.   Ter Fev 11 2014, 20:11

ricardo onga-ku escreveu:


Sem dúvida; com ou sem medições um sistema constroi-se pelo método de tentativa e erro, através da avaliação comparativa.
E esta é condicionada, de um modo mais ou menos determinante, pelo nosso gosto - essa amálgama de informação acumulada ao longo do tempo pelas nossas vivências.


Não o teria dito melhor.   

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afonso
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MensagemAssunto: Re: Reflexões de H. M.   Ter Fev 11 2014, 20:18


Moral da história:se são duas coisas diferentes, tenhamos cada uma ao nosso gosto... e mandemos às favas os teóricos junto com as medições.

Eu acrescentaria também : "também às favas aqueles que se julgam possuídos de um conhecimento "supremo" do "Audio" e que lhes permite ouvir de forma diferente e "superior" aos restantes "mortais".

 smedley 
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António José da Silva
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MensagemAssunto: Re: Reflexões de H. M.   Ter Fev 11 2014, 20:23

afonso escreveu:



Eu acrescentaria também : "também às favas aqueles que se julgam possuídos de um conhecimento "supremo" do "Audio" e que lhes permite ouvir de forma diferente e "superior" aos restantes "mortais".

 smedley 


As pessoas com conhecimento superior em áudio fazem falta, independentemente se ouvem menos, igual ou mais aos outros. Estou a falar dos que criam aparelhos obviamente e não dos que "mandam" bitaques como nós.   

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ricardo onga-ku
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MensagemAssunto: Re: Reflexões de H. M.   Ter Fev 11 2014, 20:23

afonso escreveu:

Moral da história:se são duas coisas diferentes, tenhamos cada uma ao nosso gosto... e mandemos às favas os teóricos junto com as medições.

Eu acrescentaria também : "também às favas aqueles que se julgam possuídos de um conhecimento "supremo" do "Audio" e que lhes permite ouvir de forma diferente e "superior" aos restantes "mortais".

Repara no lema do Rui Borges..."Precisão em cada detalhe".
Achas que os equipamentos dele soavam bem se ele não fosse um teórico preocupado com as medições? Rolling Eyes Cool geek

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afonso
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MensagemAssunto: Re: Reflexões de H. M.   Ter Fev 11 2014, 20:39



Rui Borges - o teórico !!  

Confesso que já ouvi chamar-lhe muitos nomes;

Artesão, alfaiate do som mas teórico é a primeira vez...  
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reirato
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MensagemAssunto: Re: Reflexões de H. M.   Ter Fev 11 2014, 21:27

Holbein Menezes escreveu:
O diabo é que a gente demora para saber o que de fato quer!!!!!!!!!!

Eu pra mim só paletó!...  0 velho jaquetão se acomoda mal na minha barriga??? ...

  
Couldn't resist!...

E a culpa é do malfadado Acordo caligráfico!? ... 
 

 king
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ricardo onga-ku
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MensagemAssunto: Re: Reflexões de H. M.   Ter Fev 11 2014, 22:40

afonso escreveu:


Rui Borges - o teórico !!

Confesso que já ouvi chamar-lhe muitos nomes;

Artesão, alfaiate do som mas teórico é a primeira vez...

Claro que é um teórico…os seus gira-discos não tocam bem por acaso.
Experimenta falar com ele.
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Mário Franco
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MensagemAssunto: Re: Reflexões de H. M.   Qua Fev 12 2014, 10:46

ricardo onga-ku escreveu:
Holbein Menezes escreveu:
O problema é que uma coisa é uma coisa, e outra completamente diferente, como gostava de repetir aquele locutor esportivo da Ilha de Florianópolis (para onde as autoridades portuguesas do tempo colonial deportavam seus malfeitores; daí o nome original da Ilha, "Ilha do Desterro".

Ou seja: uma coisa é o evento original (que pode ser ótimo, bom e ruim) e outra coisa completamente diferente é sua replicação nas condições domésticas (que também pode ser ótimo, bom ou ruim).

Moral da história:se são duas coisas diferentes, tenhamos cada uma ao nosso gosto... e mandemos às favas os teóricos junto com as medições.

Portanto do alto da minha "sabedoria" já quase centenária aconselho: monte seu som para você! O diabo é que a gente demora para saber o que de fato quer!!!!!!!!!!

Sem dúvida; com ou sem medições um sistema constroi-se pelo método de tentativa e erro, através da avaliação comparativa.
E esta é condicionada, de um modo mais ou menos determinante, pelo nosso gosto - essa amálgama de informação acumulada ao longo do tempo através das nossas vivências.

Estas opiniões fazem todo o sentido para mim e espelham a minha experiência pessoal bem como as minhas convicções.

No entanto falamos aqui de um processo o qual no meu caso tem sempre como ponto de partida, tanto quanto possível as medições, porém se o efeito obtido pelas medições não for bom então parte-se a louça toda bom , porque o objectivo final é sentir prazer na audição  .

Mas não ficamos por aqui Shocked 

Complementarmente há uma outra actividade que também pratico com todo o gosto, a audioarqueologia affraid , que consiste na audição de sonoridades "rústicas" provenientes de vetustos equipamentos (por exemplo uma grafonola ao ar livre flower  com um solo de tenor), ou um gira-discos mono a válvulas com um "prego" na cabeça geek , etc.

Enfim, o jogo não tem limites.  
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ricardo onga-ku
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MensagemAssunto: Re: Reflexões de H. M.   Qua Fev 12 2014, 11:16

"He even took the Gramophone on safari.
Three rifles...
supplies for a month and Mozart."


Karen Blixen

http://www.metacafe.com/watch/an-Vngpb7Yhbbu2/out_of_africa_1985_opening_narration/

"He began our friendship with a gift.
And later...
not long before Tsavo...
he gave me another.
An incredible gift.
A glimpse of the world through God's eye.
And I thought...
"Yes, I see.
This is the way it was intended. "
I've written about all the others...
not because I loved them less...
but because they were clearer, easier.
He was waiting for me there.
But I've gone ahead of my story. He'd have hated that.
Denys loved to hear a story told well.
You see...
I had a farm in Africa...
at the foot of the Ngong Hills.
But it began before that.
It really began in Denmark."
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Holbein Menezes
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MensagemAssunto: Re: Reflexões de H. M.   Qua Fev 12 2014, 18:43

Em tempos idos deu-me o Engenheiro NESTOR NATIVIDADE a honra de responder algumas perguntas que lhe fiz sobre Acústica; entrevista que aqui reproduzo sem sua prévia autorização; é que parece que o número do telefone dele mudou e eu não disponho de outro. Vai, pois, na confiança e com base no respeito que sempre devotamos um pelo outro.

Nestor Natividade é paulistano, engenheiro civil pela FAAP, perito do Ministério Público, e Acústico autodidata. Casado e pai de um casal de filhos, adquiriu o vírus do áudio em 1958. Hoje, como audiófilo, coleciona e restaura ícones do imaginário da sua juventude.

Holbein: Você acha que a Acústica faz milagre, é capaz de transformar um som sofrível num som bom?

Nestor: Meu interesse pela Acústica Arquitetônica começou justamente quando meu pai comprou o primeiro equipamento estereofônico para a família, isso por volta de janeiro ou fevereiro de 1960, mesma época na qual chegaram às lojas os primeiros LPs estereofônicos. Era um equipamento a válvulas fabricado pela GE carioca, que consistia em um móvel para abrigar dois monoblocos push-pull de 60 WRMS, mais um pré-amplificador muito sofisticado e um toca-discos GARRARD. As caixas acústicas usavam carga acústica por baffle infinito, imensas; haviam sido desenhadas pela própria GE, usando os seguintes drivers CIBEAL (São Paulo): um par de woofers de 10", mid-range de cinco polegadas e um tweeter de cone, tudo sob corte de 6 dB/oitava. Não tinha rádio, e o objetivo do fabricante era fabricar aqui o que de melhor, em tempo real, era feito por eles mesmos nos EUA. Ocorre que o equipamento fora instalado no salão de inverno da nossa residência que, como o próprio nome sugere, era totalmente envidraçado, com exceção do teto, claro, possuindo ainda um piso de pastilhas! O equipamento era incrível para a sua época (somente hoje sou capaz de avaliar o abismo que separava aquilo da rádio-vitrola que até então tínhamos utilizado!), mas aquela sala... aquela sala servia apenas para as plantas que ali viviam. Experimentações simples, movendo o pesado equipamento de um ambiente para outro, mostraram-me que o áudio reproduzido podia melhorar ou piorar relativamente aos diferentes locais e posições escolhidos para os sonofletores e o consequente 'ponto correto' para a audição (lembra-se, era uma heresia inimaginável não colocarmos a poltrona preferida no vértice do maldito triângulo! Aqueles dias!). Eu tinha então 16 anos. Quando você questiona sobre se "...a Acústica faz milagre..." imagino que esteja se referindo ao antes/depois do tratamento da acústica de um local a partir do pressuposto de que os sonofletores já estão corretamente posicionados. Nesta situação, o que habitualmente se consegue, tão e somente, é a minimização da variável *ambiente* na equação. Não é "milagre", mas sim a aplicação sensata das leis da Física. O tratamento da acústica de um recinto deveria ser a primeira preocupação do audiófilo. A segunda, o suprimento adequado de energia limpa e um terra real e, a terceira... bem a terceira seria a blindagem eletromagnética do local de audição e o cuidado extremado com as possíveis fontes geradoras de RFI levadas por ele para dentro do mesmo recinto. Depois, muito depois, ele poderia passar a ruminar as suas conjecturas sobre este ou aquele equipamento de reprodução. Infelizmente, como bem sabe, Holbein, nossos 'colegas' têm a 'cabeça dura' e fazem tudo isso exatamente ao contrário. É de cortar o coração vê-los sendo depenados pelos abutres sempre atentos, que faturam, faturam, faturam...

Holbein: Há sala ruim ou sala não tratada acusticamente ou tratada de forma imprópria?

Nestor: Esta é uma questão muito interessante, embora entenda que a questão foi mal formulada. Primeiro, definitivamente, existem salas (inclusive de concerto) ruins; existem aquelas (idem) excelentes; e, finalmente, o mais habitual, todas aquelas que se situam na região cinza entre ambos os extremos. Segundo, que uma sala acusticamente tratada, não necessariamente será palatável para o conhecedor. Lembro-me muito bem de três situações bem distintas: (a.) aquela do Avery Fisher Hall, reconstruído sucessivamente três vezes antes que um minimum minimorum de satisfação subjetiva fosse atingido; (b.) dos sofríveis resultados obtidos por um conhecido Acústico japonês, relativamente às salas para audiófilos japoneses que projetou e construiu. Os audiófilos tinham se convencido de que seus próprios ouvidos estavam 'errados' e a fala do Acústico, correta; até que ocidentais 'casualmente' convidados a opinar afirmaram que o rei estava nu!; e, (c.) da infelicidade dos resultados obtidos pelo Luís Assib, da SOM MAIOR, no tratamento de duas ou três salas contíguas, no Hotel Renaissance, São Paulo, onde convidados selecionados foram recepcionados em uma mostra (outro tanto esplêndida em todos os demais aspectos) dos produtos que a SOM MAIOR vende, realizada semanas após o fato das estripulias do Divino Moço terem resultado no fechamento do seu HIFI SHOW, por técnicos da prefeitura paulistana poucas horas depois deste ter sido inaugurado. 'Tratar', portanto, nada significa, nada garante (exceto despesas), embora o 'visual' possa impressionar os deslumbrados sempre presentes. É necessário se saber o que fazer, como fazer, por que fazer e, ainda e não menos importante, corretamente produzir e implementar o tratamento projetado.

Holbein: 1) Na sua opinião, por que ainda da grande diferença de qualidade entre o som do evento original e o som do mesmo evento se reproduzido eletronicamente? 2) Ou você concorda comigo que "uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa completamente diferente"? 3) Por que a qualidade musical de um disco ouvido por meio de fones auriculares é sempre superior ao som do mesmo disco quando ouvido via a melhor e mais cara aparelhagem?

Nestor: No que se refere à questão 1, não é fato que isso seja sempre verdadeiro. Ocorre que, tradicionalmente, se utilizam sonofletores no processo de tradução da informação eletrônica para aquela acústica e, neste caso, se adiciona uma variável alienígena na equação: a acústica do local de reprodução. Todavia, quando o processo de registro/reprodução exclui a variável *ambiente*, como não poderia deixar de ser, as coisas mudam totalmente de figura. No processo Binaural, já na etapa do registro da informação, se prevê o necessário uso de fones-de-ouvido para a correta reprodução da informação original, reduzindo dra-ma-ti-ca-men-te a distância entre as realidades do evento original e aquela da reprodução. Nos laboratórios de psicoacústica se trabalha contínua e avidamente em processadores tipo codec para registro e reprodução do áudio dentro do que se convencionou chamar de Realidade Virtual (um equipamento que engloba fones e micro-visores, tudo em uma peça monobloco assemelhada a óculos-escuros-extra-avantajados). A reprodução de áudio, como hoje a conhecemos (via sonofletores), é algo tão primitivo e obsoleto quanto à comunicação interpessoal pela percussão de tambores, ou uso de anéis de fumaça, isso frente ao e-mail ou ao celular. Mas se é assim tão melhor, por que não é usado mais amiúde? Porque o hábito de ouvir música também é uma atividade que permite as pessoas se agregarem mutuamente (fones-de-ouvido, por definição, são excludentes!). Por outro lado, também existem interesses comerciais muito fortes, além de hábitos arraigados no seio da população consumidora, que seriam contrariados, e tal nunca é bom para os negócios. Mas, apesar de tudo, as mudanças virão, entre outros motivos, porque empurradas pela novidade em si; portabilidade, e tamanho diminuto; pela enorme redução nos custos para o usuário final frente à maneira já secular de como encaramos o problema; por permitir sua integração com o computador por meios sem fio; porque aumenta constantemente o número de pessoas jovens, sozinhas e de vida solitária por opção e, finalmente, por uma crescente surdez populacional, em escala planetária, já visível nas nações mais industrializadas. Finalmente, ainda sobre a existência das duas distintas realidades, aquela do local de registro e a 'outra' que temos em casa, também podemos encarar esta questão de duas maneiras distintas: (i.) tentando mimetizar no local de reprodução a realidade do local de registro; ou, (ii.) tentando agregar a realidade do local de reprodução como qualidade desejável ao trabalho original do artista. No primeiro caso, estão os audiófilos, sempre infelizes e quebrando a cara com suas infindáveis tentativas de resolver a quadratura do círculo. No segundo caso, se enquadram os 'funkeiros', os utilizadores de mini-systems, aqueles que transformaram seu automóvel em uma igreja para adoração do deus Som, e todos os demais 'cucas frescas'. Curiosamente, aqueles que se inserem no segundo caso parecem mais felizes com a escolha feita. Como vê, o humano é complexo.

Holbein: Você acha que a eletrônica da reprodução do som musical já deu o que tinha de dar? Que o que há agora são "variações em torno do mesmo tema"?

Nestor: A pergunta me lembra aquele cidadão estadunidense, funcionário do serviço de estudo e registro de patentes, afirmando (na virada deste século) que nada mais havia para ser inventado. Na verdade, a 'farra' está apenas começando e tento imaginar as delícias que o futuro nos reserva !

Holbein: Você acha que a imagem (DVD) atrapalha ou complementa a reprodução do evento musical?

Nestor: A informação sonora sempre foi entendida como acessória à visual. Na verdade, essa também é a maneira como o nosso cérebro trabalha --com exceção única para os deficientes visuais. A técnica de se comunicar a informação AV numa ordem inversa daquela do entendimento cerebral ('orgânica'), ainda está na sua infância, mas já evoluiu muito se compararmos, por exemplo, o que podemos ter vendo um videoclip criativo e inteligente contra os musicais da U.F.A. alemã do pós-guerra. Lembro-me de ter visto (em Laserdisc) um trabalho japonês sobre as Quatro Estações do Padre Vivaldi que me causou um profundo impacto emocional, até hoje não esquecido. Outro trabalho (novamente nipônico, agora da estatal NHK) recentemente visto aqui via cabo, sobre Bach e a cidade de Leipzig, mais uma vez me mostrou que a qualidade da apreciação subjetiva (devemos agora dizer emocional?) não é algo simplesmente ocasional. Por outro lado, já assistiu o ensaio visual Baraka? Há uma evolução em célere marcha. No contraponto do mau gosto, teríamos a 'bahiana' Bunda Music como apropriada para cenas em close de coito anal?

Holbein: 1) Se você pegasse na megasena, que sistema de som compraria para si? 2) Que sistema de som (marcas) ofertaria a seu maior inimigo?

Nestor: O hobby do Áudio, felizmente, é mutante. Ao longo do seu desenvolvimento natural, ele vai desde o seu eterno início, com as suas obscenas tentativas de satisfação total dos sentidos, até o fim do caminho percorrido, quando copia a placidez da marola quebrando na areia fina em dia sem vento. Hoje, havendo saúde, tempo, e dinheiro ilimitados, eu simplesmente auto-construiria o que pudesse. Outro tanto seria comprado pronto e parcialmente modificado. O restante, um bem pouco, creio, seria reservado à satisfação do lojista. Eu não me conformo com o que vejo. Apesar da abundância de tecnologia e instrumental disponíveis para o vulgo, existem poucos, muito poucos, que sabem como empregar essa oferta. Parece que as pessoas emburram na razão inversa da justa medida em que o conhecimento e os meios se tornam mais acessíveis! Já há uma década, desafortunadamente, o que impera na oferta de produtos para o nosso hobby é o oportunismo comercial hardcore na sua mais legítima expressão, principalmente nos nichos reservados à elite e à elite das elites audiofilocianas. Assim, respondendo a sua pergunta, na hipótese de um inimigo aceitar um presente meu, eu lhe daria o melhor dos presentes: um conselho precioso, seguir à risca os conselhos dos gurus do áudio, principalmente aqueles do Grande Cacique Alvi-Branco.

Holbein: Na sua opinião, qual o tipo de conserva (discos) que guarda mais aproximação com o evento original?

Nestor: Nós nos encontramos no justo momento do início do período de ouro do áudio digital. 'Ontem', a resposta falaria de duas mídias analógicas. O primeiro lugar caberia aos open-reel players 2-track high speed, 15 e 30 ips. Mais lá atrás, na sequência, encontraríamos o reinado do LINN SONDEK LP-12 + Cirkus + Lingo, apoiado sobre uma mesa MANA e usando braço REGA 250 modificado pela ORIGIN + cápsula MC do sabor da preferência do freguês. Mas 'hoje', eu realmente não saberia o que dizer frente à ocorrência dos formatos DVD-A, SACD, 24/96 e 24/192 em hardisk. É preciso aguardar um pouco mais.

Holbein: Na eterna controvérsia entre válvula e transistor, de que lado você se situa?

Nestor: Com nenhum dos dois e sim com o bom projeto e a sua boa execução. A válvula não é 'superior' ao transistor; este apenas exige uma maneira diferenciada de se pensar o projetar. Em vez de se adentrar no pântano da querela de quem é melhor, é melhor relembrarmos algumas coisas absolutamente elementares: Primeiro e antes de tudo, hoje, áudio é expressão de estética pessoal. Estética não se discute, se aceita como parte das diferenças entre humanos que dialogam. Gregos e romanos já sabiam e aplicavam esse conceito. Segundo. Embora possamos manter tudo circunscrito ao universo da apreciação subjetiva, mesmo neste plano de ideias se deve respeitar os métodos científicos de comparação (sim, eles existem!) e deixar de lado as paixões pessoais, fatos, sabemos nós dois, que ninguém respeita, menos ainda aqueles ligados ao comércio e às mídias de divulgação. Terceiro, que este material de trabalho (parafraseando o Dr. Spock de Jornadas nas Estrelas, "... um pouco de barro fofo e pedra lascada...") deve ser manipulado por profissionais que, a-n-t-e-s de serem engenheiros, devem ser músicos com formação de qualidade. Existe um universo inteiro separando trabalhos como, por exemplo, o do Zé das Couves D'Agostino (KRELL) e de um James Bongiorno, apenas nos restringindo às terras usanianas. É notável como o marketing e a aparência, poderosamente, se sobrepõem à qualidade da concepção, mesmo fora do círculo dos abobalhados e deslumbrados recém surgidos por obra e graça do fast money. Obviamente, existem os espertos, isso porque os tolos, bem antes, se fizeram presentes. Quarto. Componentes "equivalentes", produzidos por indústrias diferentes, não são e nunca foram idênticos pela simples razão de que, para produzi-los, se somam fatores muito diversos, que vão desde a necessidade de se contornar os direitos de patentes sobre concepção, tecnológica e produção industrial pertencentes a segundos e terceiros, até à qualidade da mão-de-obra e maquinário utilizados na produção dos mesmos. Assim, não existem "equivalentes", mas sim componentes quase intercambiáveis que produzirão diferentes resultados subjetivos quando utilizados no mesmo ponto do circuito. Cabe ao projetista, com sua longa experiência, seu saber técnico e mente de músico, determinar o que irá aonde; todavia sempre ponderando quanto isso vai acabar custando para o bolso do consumidor final. Portanto, estamos falando de discernimento em doses cavalares, somado a uma 'visão de conjunto' que somente a estética praticada na idade mais avançada do homem pode proporcionar. É fantástico o quanto se engana no áudio, principalmente no nicho chamado high-end. É um eterno sabath de bruxas. Quinto. Junto com o advento do transistor, para viabilizá-lo como produto para as massas, surgiu o circuito impresso, uma faca de dois gumes. Mal projetado e construído com materiais inadequados, ele simplesmente põe a pique um projeto antes excelente. Assim, o projetista de áudio também necessita ter livre trânsito como projetista de circuitos de RF. No RF, além do necessário conhecimento para a concepção intelectual, é fundamental também o conhecimento de como se deve posicionar os componentes na placa; qual deve ser o nível máximo de interação permissível entre as trilhas 'impressas' e, quais materiais para a placa, trilhas, e espessura destas últimas devem ser empregados para que o resultado pretendido seja obtido. Tudo isso --que não é pouco-- é absolutamente fundamental para que um circuito qualquer, mesmo os mais simples, subjetiva, emocional, realmente funcione, fato este que, somado à condição sine qua non de músico de qualidade, faz reduzir ainda mais o número dos habitantes do seletíssimo petit monde dos projetistas de circuitos de áudio. É exatamente isso o que atesta o enorme volume de bobagens e lixo transistorizado que se produzem já há muito tempo. Com as válvulas, alternativamente, a simplicidade da circuitação permite o hardwire, que embora também exija algum saber para a concepção do layout, oferece menor carga de problemas que aqueles que resultam do trato indevido da tecnologia do circuito impresso.

Holbein: Você é contra o emprego da técnica digital na reprodução do som musical?

Nestor: Eu sou contra o mau emprego de qualquer coisa. Apenas isso.

Holbein: Que você quer dizer além do que perguntei?

Nestor: Guru **cks. Todos. Sempre!
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Milton
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MensagemAssunto: Re: Reflexões de H. M.   Qua Fev 12 2014, 20:01

E aqui fica o link da fantastica apresentação que em tempos o Nestor Natividade fez aqui no AAP.

http://www.audioanalogicodeportugal.net/t1327-desde-pindorama-mais-propriamente-de-sao-paulo-sp

É uma pena que não tenhamos mais notícias dele apesar dos esforços que temos feito...

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ricardo onga-ku
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MensagemAssunto: Re: Reflexões de H. M.   Qua Fev 12 2014, 20:52

Holbein Menezes escreveu:
Nestor: 'Tratar', portanto, nada significa, nada garante (exceto despesas), embora o 'visual' possa impressionar os deslumbrados sempre presentes.  É necessário se saber o que fazer, como fazer, por que fazer e, ainda e não menos importante, corretamente produzir e implementar o tratamento projetado.

Tal e qual o trabalho de um médico: diagnosticar e depois tratar, mas antes que tudo saber fazer.
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ricardo onga-ku
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MensagemAssunto: Re: Reflexões de H. M.   Qui Fev 13 2014, 17:34

Mestre Holbein,

Visto que V.Exa. é um "amante" de Mozart, qual é a gravação do Concerto para Clarinete e Orquestra K. 622 que me recomenda?

Um abraço,
Ricardo
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Reflexões de H. M.
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