Áudio Analógico de Portugal
Bem vindo / Welcome / Willkommen / Bienvenu

Áudio Analógico de Portugal

A paixão pelo Áudio


Fórum para a preservação e divulgação do áudio analógico, e não só...
 
InícioPortalCalendárioPublicaçõesFAQGruposRegistrar-seConectar-se
Fórum para a preservação e divulgação do áudio analógico, e não só...

Compartilhe | 
 

 De Bestas a Bestiais

Ir em baixo 
Ir à página : 1, 2  Seguinte
AutorMensagem
Alexandre Vieira
Membro AAP
avatar

Mensagens : 4104
Data de inscrição : 11/01/2013
Idade : 48
Localização : The Other Band

MensagemAssunto: De Bestas a Bestiais   Ter Abr 03 2018, 17:46

Existem um conjunto de discos que, porque, quando sairam estavam muito para além do seu tempo. Foram considerados aberrações, obras mal entendidas, sofrendo em muitos casos péssimas criticas.

Com o passar dos tempos essas obras muitas vezes adquirem novo significado para os críticos e para o público em geral. Algumas no entanto estão ainda esquecidas, esperando que vocês lhe façam a devida justiça.

Este é o desafio que lanço, que deixem aqui obras que estejam esquecidas porque foram injustamente mal recebidas aquando do seu lançamento, ou estavam tão evoluídas quando lançadas, que só agora denotamos a sua intrínseca genialidade:

A primeira obra que irei evidenciar, será por mérito próprio da mesma, o excelente lp:


Lou Reed - Berlim

Um disco que quando saiu foi considerado uma aberração, e o pior obra deste Senhor da música. No entanto com os tempos a percepção que temos desta obra alterou-se, passando por isso de besta a bestial.

"No melhor dos mundos possíveis, Lou Reed teria morrido em 1973, vítima de uma overdose redentora, poupando ao mundo os discos menores que aconteceram depois. Ficaria então para a posteridade apenas o ouro da sua discografia. De 1967 a 1970, enquanto principal songwriter dos Velvet Underground, Lou fez quatro discos visionários que de uma só assentada inventaram o indie e espezinharam a ingenuidade hippie, antecipando o espírito do tempo cínico e pessimista que dominou os anos 70. No início de 72, no seu disco de estreia a solo, houve um pequeno passo em falso mas ainda no mesmo ano Lou emendou a mão com o génio glam de Transformer. E, por fim, assinou Berlin, na altura incompreendido, mas hoje considerado por muitos como a sua obra-prima.

Lou Reed foi o primeiro a casar o rock’n’roll com a low-life citadina, povoando as suas canções com dealers, junkies, prostitutas e travestis, personagens à deriva no lado errado da noite. Mas se nos discos dos Velvet e em Transformer o travo amargo da decadência tem sempre como contrapeso algum charme e humor warholianos, em Berlin Lou despe o submundo de todo o seu falso glamour, mostrando-nos tal como ele verdadeiramente é: amoral, desolador, filha da pu%&a. Para reforçar o desencanto das letras, a música é também ela gélida e sombria, absolutamente nenhum hit para passar na rádio. Os accionistas da RCA Records começaram logo a atirar-se das janelas.

Se Transformer foi aclamado – pelo público e pela crítica – como um grande disco, e o single “Walk On the Wild Side” erguido alto como uma das grandes bandeiras do glam, saciando por fim o seu ego sedento de aprovação, porque é que Lou no seu álbum seguinte se demarca por completo da fórmula que lhe garantira finalmente o sucesso? A resposta é tão simples como humana: uns ciúmes danados de Bowie. As intenções do senhor Stardust eram boas: homenagear o seu mestre, co-produzindo Transformer, salvando a sua carreira. O pior é que os media inverteram por completo a ordem dos factores, vendendo Lou Reed como um mero apêndice de Bowie. Lou era um tipo orgulhoso. Fora ele o primeiro a rebelar-se contra a própria contracultura. Fora ele o primeiro a demarcar-se da ilusão naif da “paz e amor”. Fora ele o primeiro a trazer os tabus da homossexualidade e da ambiguidade do género para o rock’n’roll. Nem pensar ficar na sombra de um mero discípulo, que lhe roubara tanta coisa, por mais genial que tivesse sido a sua reciclagem.

Berlin é um álbum-conceptual que conta a ascensão e queda de Jim e Caroline, dois junkies condenados que procuram a salvação no seu amor mas só encontram a perdição. Tudo se passa em Berlim, a cidade-dividida, o que não acontece por acaso. O infame muro de betão como pano de fundo é uma metáfora de um casal também ele dividido.

A história começa na noite em que os dois se conhecem num bar na cosmopolita Berlim Ocidental. Tudo parece correr bem: as guitarras de fundo, o cigarro na mão, o copo de gin na outra, “Honey, it was Paradise”. Mas o blues melancólico ao piano de “Berlin” contradiz as palavras, prenunciando a tragédia. Está dado o tom sombrio que atravessará todo o disco.

A primeira parte (o lado A do velho vinil) é dura mas ainda assim digerível. Jim queixa-se de Caroline o desvalorizar enquanto homem. Mas Caroline tem as suas razões: é ela que tem de vender o seu corpo nas sórdidas ruas de Berlin para pagar o consumo de ambos. A música é por enquanto expansiva, com muita guitarra eléctrica, bateria e orquestrações (pequeno grande pormenor: as inventivas e irrequietas linhas de baixo são tocadas pelo gigante Jack Bruce dos Cream).

No lado B, o tom da música muda – mais acústico, mais contido, mais sombrio –, como quem nos avisa que tudo está prestes a desmoronar-se. Jim bate-lhe. Caroline levanta-se, disfarça as nódoas negras com muita maquilhagem, esconde a dor injectando mais speed. Não adianta: na canção seguinte retiram-lhe os filhos. Lou e o produtor Bob Ezrin fazem agora questão de esticar a corda ao máximo, com o objectivo deliberado de nos fazer sofrer: ouvimos o choro desesperado das crianças, que gritam pela mãe enquanto são arrancadas dos seus braços. É neste momento que nos surge o dilema: continuamos a sujeitar-nos a esta sádica tortura emocional ou devolvemos o disco, trocando-o de imediato por uma colectânea dos Bee Gees?

Os mais rijos prosseguem a audição. Erro crasso: na faixa a seguir, Jim conta-nos que Caroline se matou cortando os pulsos e confessa-nos um certo alívio por as coisas terem acabado daquela maneira. No último tema, “Sad Song”, regressam as orquestrações épicas para aliviar um pouco a tensão acumulada. Jim recorda-a, folheando um álbum de fotografias, mas o álbum acaba da forma mais cínica possível: “vou parar de desperdiçar o meu tempo, qualquer outro teria partido ambos os seus braços”.

O que seria um vulgar melodrama de chorar as pedras da calçada é salvo por dois ingredientes: a espessura psicológica das personagens e uma sensação de frio que percorre o disco e a nossa espinha. A voz de Reed é sempre gélida, contida, inexpressiva, arrefecendo a novela de cordel para níveis suportáveis. Esqueçam as barulhentas ventoinhas; quando não conseguirem dormir nas noites tórridas de verão, ponham Berlin a rodar.

O que mais perturba nesta narrativa é justamente a frieza absoluta de Jim, tão vazio que já não é capaz de sentir qualquer emoção. E não falo só da ausência de empatia pelo sofrimento dos outros; falo também da indiferença em relação à sua própria dor. Em “Men Of Good Fortune”, Jim expressa bem o seu niilismo: “o filho do rico espera que o pai morra/ o pobre apenas bebe e chora / e eu, nada disso me interessa”. De onde veio todo este desencanto?

Quando gravou Berlin, Lou tinha recaído outra vez na heroína e nos speeds, afundando o seu casamento pelo caminho. Matéria-prima autobiográfica mais fresquinha seria difícil. Mas podemos ir ainda mais longe no nosso exercício de psicanálise selvagem. A sua adolescência nos conservadores anos 50 não fora fácil. Desde cedo, Lou escandalizava os pais com os seus gestos efeminados e as suas tendências bissexuais. O austero senhor Reed não fez mais nada: internou o pobre do miúdo num hospital psiquiátrico para “tratar” a sua homossexualidade. O “tratamento” consistiu nos bárbaros electrochoques, uma experiência traumática que Lou nunca conseguiu ultrapassar. Nunca perdoou os seus pais pela selvajaria e nunca mais confiou inteiramente em ninguém. O seu mau feitio épico encontra aqui uma possível explicação.

O corolário é inevitável. Lou Reed seria Jim se não fosse salvo pelo rock’n’roll. Compreendemos melhor agora as suas célebres palavras: “Sou judeu mas o meu deus é o rock’n’roll. É um poder obscuro que pode mudar a tua vida.” Não mudou também a nossa?"

http://altamont.pt/lou-reed-berlin-1973/



Última edição por Alexandre Vieira em Qua Abr 04 2018, 00:38, editado 1 vez(es)
Voltar ao Topo Ir em baixo
Luis Filipe Goios
Membro AAP
avatar

Mensagens : 10494
Data de inscrição : 27/10/2010
Idade : 60
Localização : Lanhelas - Minho

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Qua Abr 04 2018, 00:16


Voltar ao Topo Ir em baixo
TD124
Membro AAP
avatar

Mensagens : 3778
Data de inscrição : 07/07/2010
Idade : 53
Localização : França

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Qua Abr 04 2018, 15:39

Alexandre Vieira escreveu:
Existem um conjunto de discos que, porque, quando sairam estavam muito para além do seu tempo. Foram considerados aberrações, obras mal entendidas, sofrendo em muitos casos péssimas criticas.

Com o passar dos tempos essas obras muitas vezes adquirem novo significado para os críticos e para o público em geral.
Algumas no entanto estão ainda esquecidas, esperando que vocês lhe façam a devida justiça.  ...

Aqui em frança existe um termo para esse fenomeno que é "obra culto". Assim uma obra é considerada œuvre culte quando não foi reconhecida à nascença mas com o tempo ou com um fiel painel de admiradores ... no inverso uma "obra mitica" ou "œuvre mythique" foi reconhecida desde a sua criação , os dois tipos podem ser reconhecidos numa fase contemporânea como obras primas "chef d'œuvre"...

Bela anàlise do Berlim do mestre Reed !!! BRAVO

Pareçe que quando da saida o critico  Robert Christgau da revista Rolling Stone escreveu algo assim:

" Este album sinistro e musicalmente mediocre é uma ofensa. Deveria ser possivel de se vingar de um disco assim e mesmo de punir fisicamente o autor ... "

cheers

_________________
Il semble que la perfection soit atteinte, non quand il n'y a plus rien à ajouter mais quand il n'y a plus rien à retrancher... Antoine de Saint-Exupéry
Voltar ao Topo Ir em baixo
TD124
Membro AAP
avatar

Mensagens : 3778
Data de inscrição : 07/07/2010
Idade : 53
Localização : França

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Qui Abr 05 2018, 09:43

Talk Talk: Laughing Stock

Pouco badalado e mesmo praticamente ignorado desde a saida, o Laughing Stock continua a ser o album mais confidencial da  trilogia que engloba os dois ultimos discos dos Talk Talk assim que  o album epônimo do Mark Hollis. O contemplativo Spirit of Eden saido três anos antes jà  tinha recebido um acolho misto, ora que é uma obra mais acessivel, não é de estranhar então que o complexo e cerebral Laughing Stock tenha sido menosprezado pelo publico e mesmo pela maioria dos criticos …

Apesar de o album hoje ser estampilhado de clàssico ou monumento, globalmente as pessoas continuam a mal o compreender, e o mistério da sua criação continua intacto. Efectivamente é dificil de compreender como um grupo da Cold Wave, elegante é verdade mas estereotipado, possa ter parido uma obra desta amplitude pois trata-se verdadeiramente de uma obra-prima. O segredo reside talvez na presença e influência do Tim Friese-Greene, que sém ser considerado um membro do grupo, acumula as funções de produtor, pianista e co-autor com o Mark Hollis. Da propria confissão do lider da banda, o Tim Friese-Greene ocupava um lugar fundamental nos Talk Talk: … o Tim tinha-se tornado numa peça principal … No fim do Laughing Stock, compreendi que o caminho que enveredamos juntos chegava ao fim. Não podiamos ir mais longe juntos. Não queria que o nosso espirito de inovação se transforme em rotina… entrevista do 19.07.2010 na revista Magic

Percorrido por uma elegância e delicateza permanente aonde o teclado do Tim Friese-Greene acentua ou diminui as tensões (criando um espaço infinito…) o Laughing Stock é um album dificil a definir musicalmente. Se o aspecto contemplativo do enorme Spirit of Eden é claro assim que a atmosfera magnificamente feltrada e epurada do epônimo Mark Hollis, esta obra em comparação desafia a classificação. Elegante, dinâmico, minimalista, delicado, contrastado, complexo, cerebral … são termos que correspondem, mas demasiado inconsistentes para a abranger na sua totalidade. Mesmo as comparações e influências presupostas da Ambient, do Jazz e da Musica minimalista ou contemporânea são demasiado superficiais em relação à originalidade musical e ao poder evocador deste album … e tomo como exemplo a incapacidade a isolar uma faixa das outras como mais representante ou exemplar desta obra, pois o Laughing Stock é um todo indivisivel!...

De mesmo, as comparações com o trabalho do David Sylvian, Robert Wyatt ou do David Bowie são vaporosas quando se pensa que este album abandona a linguagem do rock ao ponto de ser visto como um dos pilares fundadores do Post-Rock, o que não é !  Talvez os melhores exemplos deste inconformismo e liberdade artistica estejam mais para os lados do primeiro Durutti Column assim que do Claude Debussy ...

Visto como a continuidade do Spirit of Eden assim como a antecâmera do album do Hollis, o Laughing Stock não é ném um ném o outro. Nesta trilogia vista como um triangulo, este album ocupa o vértice da piramide. Não existe elevador ném escada para aceder directamente a esta obra e é pela força da vontade e esforço de elevação do auditor que o Laughing Stock ofereçe a sua infinita beleza, mas talvez seja esta particularidade que o torna menos desejàvel que os outros. Se é verdade que esta obra é menos sensual e sedutora do que as suas duas irmãs, também é verdade que ela ofereçe ao auditor que se embrenha  um espaço de arte absoluta e vertiginosa para os sentidos. Aceder ao Laughing Stock é açeitar a liberdade criativa, a heterodoxia e a exigência artistica. Não vos disse ainda, e nunca ninguém escreveu … mas apòs o que venho de dizer na realidade o Laughing Stock é um puro disco Punk, mas està disfarçado então Shuut!, não digam este segredo  a ninguém!!!...

cheers

_________________
Il semble que la perfection soit atteinte, non quand il n'y a plus rien à ajouter mais quand il n'y a plus rien à retrancher... Antoine de Saint-Exupéry
Voltar ao Topo Ir em baixo
Ghost4u
Membro AAP
avatar

Mensagens : 4513
Data de inscrição : 13/07/2010
Localização : Ilhéu Chão

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Qui Abr 05 2018, 20:27

TD124 escreveu:
Talk Talk: Laughing Stock
(...) Não vos disse ainda, e nunca ninguém escreveu … mas apòs o que venho de dizer na realidade o Laughing Stock é um puro disco Punk, mas està disfarçado então Shuut!, não digam este segredo  a ninguém!!!...

Prezado TD124,

Regularmente, escuto os álbuns que fazem parte da trilogia que descreve no seu texto, dando a conhecê-los a amigos ávidos por descobrir novos registos. Quando identifico a banda após depararem com sonoridade tão diferenciável dos restantes discos do grupo, é notória a expressão de surpresa no semblante dos ouvintes. Quanto à sua conclusão, nada tenho a opor.

Grato pela partilha,
What a Face
Voltar ao Topo Ir em baixo
Alexandre Vieira
Membro AAP
avatar

Mensagens : 4104
Data de inscrição : 11/01/2013
Idade : 48
Localização : The Other Band

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Sex Abr 06 2018, 00:27

Caro TD 124 acrescento eu, x 1000

Excelente análise a este disco, que não faz parte do meu espólio mas irá fazer.


Parafraseando-o:
Aceder a esta análise "...é açeitar a liberdade criativa, a heterodoxia e a exigência artistica" .

Muito bom, do melhor que já li neste nosso espaço:
Voltar ao Topo Ir em baixo
Alexandre Vieira
Membro AAP
avatar

Mensagens : 4104
Data de inscrição : 11/01/2013
Idade : 48
Localização : The Other Band

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Ter Maio 01 2018, 19:18



Por culpa do nosso TD-124, voltei a estudar o dossier "TALK TALK".

Spirit of Eden é o quarto álbum da banda inglesa Talk Talk, lançado em 1988 pela Parlophone Records.

As canções foram escritas pelo vocalista Mark Hollis e o também produtor Tim Friese-Greene e o álbum foi compilado de muito longo processo de gravação no Wessex Studios de Londres entre 1987 e 1988. Muitas vezes trabalhando na absoluta escuridão, a banda gravou muitas horas de performances improvisadas que se basearam em elementos diversos de rock, jazz, música clássica e ambiente. Estes foram fortemente editados e reorganizados em um álbum em formato digital.

Os críticos geralmente vêem o Espírito do Éden como um afastamento radical dos álbuns anteriores e mais acessíveis do Talk Talk. Comparado ao sucesso de seu esforço anterior, The Colour of Spring, de 1986, foi uma decepção comercial. De tal forma que não é fácil encontrar um em segunda mão, porque quem os tem sabe o que vale este disco. E não consegue separar-se dele.

Os Talk Talk, liderados pelo vocalista Mark Hollis, foi formado na Inglaterra no início dos anos 80. Desde o início, Hollis citou artistas jazzísticos e impressionistas como Miles Davis, John Coltrane, Béla Bartók e Claude Debussy como principais influências. Mas os dois primeiros álbuns da Talk Talk, The Party's Over (1982) e It's My Life (1984), não refletiram prontamente tais influências; Os críticos compararam a banda aos novos grupos contemporâneos de ondas, especialmente Duran Duran. Hollis atribui em parte as deficiências de sua música antiga a uma necessidade financeira de usar sintetizadores no lugar de instrumentos acústicos.

Embora os críticos não favorecessem a produção inicial da banda, os dois primeiros álbuns tiveram um forte sucesso comercial na Europa. Isso deu à Talk Talk o dinheiro necessário para contratar músicos adicionais para tocar em seu próximo álbum, The Colour of Spring (1986). A banda não precisava mais depender de sintetizadores. Em vez disso, os músicos improvisaram com seus instrumentos por muitas horas, depois Hollis e o produtor Tim Friese-Greene editaram e organizaram as apresentações para conseguir o som que queriam. Um total de dezesseis músicos apareceu no álbum. The Colour of Spring tornou-se o álbum de maior sucesso da Talk Talk, vendendo mais de dois milhões de cópias e levando a uma grande digressão mundial. Ao mesmo tempo, músicas minimalistas como "April 5th", "Chameleon Day" e o lado B "It's Getting Late in the Evening" apontavam para a próxima direção criativa da banda.

Após o enorme sucesso comercial de The Colour of Spring, a EMI deu à Talk Talk um orçamento aberto para a gravação de seu próximo álbum, Spirit of Eden. Os Talk Talk receberam total controle sobre o processo de gravação; seus gerentes e executivos da EMI foram impedidos de participar de sessões de estúdio. Gravação do Spirit of Eden começou em 1987 no Wessex Studios, em Londres e levou cerca de um ano para ser concluído.
O engenheiro Phill Brown disse que o álbum, junto com seu sucessor, foi "gravado por acaso, acidente e horas de tentativas de todas as possíveis idéias de overdubs".

No início de março de 1988, a banda terminou de gravar o Spirit of Eden e enviou uma fita cassete do álbum para a EMI. Depois de ouvir o cassete, os representantes da EMI duvidaram que ele pudesse ter sucesso comercial. Eles pediram a Hollis para regravar uma música ou substituir o material, mas ele se recusou a fazê-lo.

Apesar de suas reservas em relação ao Spirit of Eden, a EMI optou por exercer sua opção de estender o contrato de gravação e lançar o álbum.

A natureza experimental e temperamental deste disco tornou um desafio promover o seu lançamento. Um crítico disse que "é o tipo de registro que encoraja homens de marketing a cometerem suicídio".

Tony Wadsworth, diretor de marketing da Parlophone na época, disse à revista Q: "Talk Talk não é sua combinação comum e requer marketing solidário.
Embora a banda originalmente não planejasse lançar um single, a EMI lançou uma edição de rádio de "I Believe In You" em setembro de 1988 (o inédito "John Cope" foi incluído como o lado B). O single falhou em chegar ao Top 75 do Singles Chart do Reino Unido. Por volta de novembro, Tim Pope dirigiu um videoclipe de "I Believe in You", com Hollis sentado com seu violão, cantando as letras. "Isso foi um grande erro", disse Hollis. "Eu pensei apenas sentando lá e ouvindo e realmente pensando sobre o que estava acontecendo, eu poderia conseguir isso em meus olhos. Mas você não pode fazer isso. Apenas parece estúpido".

A banda não fez nenhuma digressão para promover o álbum. Hollis explicou que: "Não há nenhuma maneira de eu poder tocar novamente muitas das coisas que eu toquei neste álbum porque eu simplesmente não saberia como fazê-lo. Então, para tocá-lo ao vivo, fazer uma parte que foi feita na espontaneidade"., para escrever e depois pegar alguém para tocá-lo, perderia todo o sentido, perderia toda a pureza do que era em primeiro lugar. " .

Spirit of Eden foi lançado mundialmente em 1988. Não teve tanto sucesso comercial quanto The Colour of Spring. O álbum passou cinco semanas no UK Albums Chart, chegando ao 19º lugar.  A capa do álbum retrata uma árvore enfeitada com conchas, caracóis, pássaros e insetos. Foi ilustrado por James Marsh, que fez o trabalho artístico da Talk Talk ao longo de sua carreira de gravação. O livreto fornece reproduções das letras manuscritas de Hollis. O álbum foi digitalmente remasterizado por Phill Brown e Denis Blackham em 1997.

E é um disco fantástico ao nível do melhor que jamais se fez. Um disco que não é contido, é orgânico e como um apurada audição pode constatar, resulta de um conjunto muito bom de registos irrepetíveis, com um enorme bom gosto.

Existem registos que não precisam de ser tocados ao vivo para sabermos que os seus criadores são geniais.

Descobri tardiamente a genialidade desta obra que é pelo menos ao nível de um "Ok Computer" - dos RadioHead; de um "Secrets of The Beehieve" de Davd Sylvian. E atenção que estas obras enormes, mesmo enormes, pelo menos para mim, pelo que estou a colocar este álbum ao nível dos meus eleitos de sempre.

Como não diria São Tomé, "É ouvir para crer; e para querer comprar".

TD-124 és acusado e condenado por nos fazeres relembrar a genialidade desta banda. Pena única: apresenta mais artigos e coisas boas.  


Voltar ao Topo Ir em baixo
TD124
Membro AAP
avatar

Mensagens : 3778
Data de inscrição : 07/07/2010
Idade : 53
Localização : França

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Qua Maio 02 2018, 17:23

Bark Psychosis: Hex

Não existe fogo sém faisca e isto é também vàlido no mundo da criação artistica. Se o publico aclama muitas vezes os movimentos artisticos gabados pela critica, também é verdade que por vezes tanto uns que os outros, esqueçem ou despejam no lixo as obras seminais sém as quais eles não teriam existido. O novo é muitas vezes dificil a compreender pois em ruptura com a tranquilizadora zona de conforto do conhecido e muitas vezes o preço da audàcia é a incompreensão e a indiferência geral…

Os Bark Psychosis foram formados em Londres pelos Graham Sutton e John Ling. São amigos e colegas de escola de desasseis anos quando decidem de fazer musica juntos. Influenciados pelos Joy Division e Sonic Youth os primeiros trabalhos são dinamicos e barulhentos entre punk e noise. A chegada do baterista Mark Simnett que é mais velho de dez anos vai perturbar o estilo do grupo. O Simnet que é amador de jazz e de rock progressivo, mas sobretudo um musico talentoso, inicia os dois "putos" e colegas a novos horizontes musicais. Em 1990 o Daniel Gish integra o grupo como teclista o que permite ao Sutton de se concentrar sobre o canto e as manipulações electronicas.

Assim constituidos em quarteto, o grupo vai lançar em 1992 um primeiro single batizado Scum que encontra um "relativo" sucesso localmente. O Scum é um disco feito de uma faixa de 21 minutos que oscila entre um clima proximo da Ambient mas com rupturas extrêmas. A influência do Stravinski do qual Sutton é amador està patente na obra mas também é clara as diferentes influências que tocam diferentemente cada musico. Este pequeno sucesso leva a casa de discos a lhes oferecer a possibilidade de fazer um album completo ao qual vão se dedicar imediatamente … mas nada vai ser fàcil, bem ao contràrio como vamos ver.

Quase um ano e meio de estudio e a separação por etapas dos membros do grupo é o preço desta fascinante obra. O Sutton tornou-se obcessivo e tém uma ideia global muito exacta do que quer. Durante meses muitos musicos passam pelo estudio (que na realidade é a igreja St John…) apenas para tocar um ou dois acordos que serão meticulosamente colados nas melodias essencialmente improvisadas pelo grupo. Geralmente na penumbra e às vezes no escuro total até às tantas da noite … o trabalho é exaustivo e sobretudo ingrato. Ninguém tém uma ideia global do que estão a fazer e os pedaços de musica acumulados e armazenados pelo Sutton dão um sentimento de "histeria cacofonica" aos outros membros do grupo.

Pouco a pouco e em amizade o baterista cansado acaba por abandonar o estudio seguido pelos outros elementos deixando o Sutton sòzinho com uma mala cheia de estilhaços melodicos, notas e sons. Visionàrio, obstinado e virtuoso ele vai meticulosamente colar estes diferentes pedaços preciosos afim de construir a obra da sua vida. Convidados a ouvir o resultado os diferentes membros reconheçem a qualidade final e assinam a ideia que o album està feito e que pertençe ao grupo. O sumptuoso album Hex que vém de nascer é a materialisação de um grupo que vém de morrer … esta metàfora da criação artistica vai alimentar o mito mais tarde e até aos dias de hoje.

Desde a primeira escuta o Hex intriga, surpreende e deixa o sentimento de escutar algo de complétamente novo. Na segunda escuta a obra seduz, perturba e distila sensações hipnoticas … mas desde a terceira escuta é clara a convição de estar face a um monumento raro. A complexidade do tecido harmonico, a coerência global, a ritmica inventiva e oscilante acoplados a uma criatividade formal constante acabam por estontear. È uma obra em quatro dimensões aonde ao ritmo e à harmonia se adiciona o volume e o silêncio o que cria um espaço sideral. Em oscilação permanente entre estes quatro elementos o resultado ultrapassa o quadro estrito (estreito ?...) dos diferentes estilos que a compõem ...

Este caleidoscopio singular que em tempo normal daria a sensação de "jà visto ou de bricolage", atinge aqui um degrau de coerência que fascina e deixa um sentimento de novidade total, uma doce forma de absoluto, de perfeição juvenil. Tal um camaleão a musica està em movimento perpétuo e muda subtilmente de cor numa continuidade imprevisivel. Tudo aqui é movimento, pulsação, sugestão, declamação e metamorfose … e o auditor subjugado e enfeitiçado mergulha num banho amiotico do qual não vai sair indemne. O encerrar do album com a faixa Pendulum Man é a apoteose desta viagem iniciàtica e perturbante assim que a materialisação do que venho de dizer. O ritmo metronomico como uma pulsação vital abre o espaço para harmonias minimalistas que desanuviam a tensão criando uma atmosfera tântrica e sensual…

Evidentemente, é sobejamente conhecido "hoje" que o termo Post-Rock foi criado pelo critico Simon Reynolds (The Wire) para descrever o sentimento provocado pela escuta do Hex. Apesar das boas criticas o album foi um fiasco commercial e teve que esperar vàrios anos até à exumação e ao estatuto de obra-prima que possui hoje … apesar de continuar desconhecido. Regularmente colocado em afinidade com os ultimos trabalhos dos Talk Talk ou do David Sylvian…, o Hex partilha muito pouco com estes artistas fora o aspecto atmosférico, meticuloso e experimental. Os Talk Talk re-escreveram o alfabeto do Rock ao ponto que este deixou de ser do Rock, o David Sylvian pratica uma Pop experimental, elegante e intelectual mas sém desvio formal. Ao contràrio os Bark Psychosis criaram uma linguagem que continua a ser do Rock … mas que não soa como tal, qualquer que seja o estilo escolhido, o que é muito diferente !

Inclassàvel mas cheio de Classe … o Hex continua a desafiar as etiquetas e a sintese. È um OVNI como a musica produz de vez em quando que tém a particularidade de ser diferente de tudo e familiar ao mesmo tempo. Estranho e aconchegador, distante e elegante, original mas sém ruptura auditiva abrupta o Hex pagou e paga o preço da sua insolência. Raramente um album maior na historia do Rock foi tão ignorado … mas raramente um album tão confidencial teve um estatuto de obra prima e uma tal chuva de elogios. O Hex é tudo isto e mais uma coisa … esse "não sei o quê" que propulsa uma obra na eternidade. Se era impensàvel que os Talk Talk tivessem criado os dois ultimos albums … é então complétamente inconcebivel que os "putos" dos Bark Psychosis fizessem este monumento. Mas a historia tém a eternidade para compreender este fenomeno … entretanto porque a vida é curta, déem aos vossos sentidos algo de verdadeiramente grande a descobrir … e a sentir sobretudo. Se não conheçem este album então abram os olhos, o coração e o espirito a esta beleza feita de sensibilidade em suspensão...

_________________
Il semble que la perfection soit atteinte, non quand il n'y a plus rien à ajouter mais quand il n'y a plus rien à retrancher... Antoine de Saint-Exupéry
Voltar ao Topo Ir em baixo
TD124
Membro AAP
avatar

Mensagens : 3778
Data de inscrição : 07/07/2010
Idade : 53
Localização : França

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Qua Maio 02 2018, 17:26

Alexandre Vieira escreveu:
(...)TD-124 és acusado e condenado por nos fazeres relembrar a genialidade desta banda. Pena única: apresenta mais artigos e coisas boas. ...

Jà começei a cumprir a pena e espero que este disco seja tão surpreendente quanto o trabalho dos Talk Talk ... mas gostaria de não estar sozinho a cumprir pena! Então toca a mandar coisas ... ou a trocar ideias ao menos Wink

cheers

_________________
Il semble que la perfection soit atteinte, non quand il n'y a plus rien à ajouter mais quand il n'y a plus rien à retrancher... Antoine de Saint-Exupéry
Voltar ao Topo Ir em baixo
Alexandre Vieira
Membro AAP
avatar

Mensagens : 4104
Data de inscrição : 11/01/2013
Idade : 48
Localização : The Other Band

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Qua Maio 02 2018, 19:29



Como diria um acalmado programa de televisão "INVESTIGUE-SE" se este Bark Psychosis: Hex, merecem tão boas referências.

Pelo menos o artigo do nosso TD-124 merece!!!




Voltar ao Topo Ir em baixo
Alexandre Vieira
Membro AAP
avatar

Mensagens : 4104
Data de inscrição : 11/01/2013
Idade : 48
Localização : The Other Band

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Qua Maio 02 2018, 21:01

Forever Changes é o terceiro álbum da banda americana de rock Love. Foi lançado pela Elektra Records em novembro de 1967 e seria o álbum final da banda com a formação original

Forever Changes não conseguiu sucesso comercial quando foi lançado em 1967, mas desde então se tornou reconhecido como um dos melhores álbuns da era Summer of Love, ocupando o 40º lugar na lista dos 500 Maiores Álbuns da revista Rolling Stone de 2003. de todos os tempos, sendo introduzido no Grammy Hall of Fame em 2008, bem como sendo adicionado ao Registro Nacional de Gravação em 2012.

Ou seja começou a ser reconhecido como um excelente trabalho apenas quase 40 anos depois da sua edição original.

O título do álbum veio de uma história que Lee, o principal compositor da banda, ouviu sobre um amigo-de-um-amigo que havia terminado com sua namorada. Ela exclamou: "Você disse que me amaria para sempre!" e ele respondeu: "Bem, muda para sempre". Lee também notou que desde que o nome da banda era Love, o título completo era na verdade Love Forever Changes.



Love começou a gravar Forever Changes em junho de 1967 no Sunset Sound Recorders. No entanto, começando com as primeiras sessões de gravação, a banda, exceto Lee, foi atormentada por conflitos internos e falta de preparação para os arranjos intrincados criados por Lee.  

Lee passou três semanas com David Angel, o afinador das cordas e cornetas, tocando e cantando as partes da orquestra para ele,  adicionando as trompas e cordas, bem como alguns arranjos adicionais de Randi,um membro estranho à banda que tocou todas as partes do teclado no álbum, já que a banda não tinha tecladista.

Após seu lançamento no final de 1967, Forever Changes foi amplamente malsucedido comercialmente. No entanto a Rolling Stone classificou o álbum em sua lista dos 500 maiores álbuns de todos os tempos na edição de 11 de dezembro de 2003. Em 2013, a NME classificou o álbum número 37 em sua lista dos 500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos.

Um episódio bastante peculiar, de acordo com o New Musical Express, o relacionamento da The Stone Roses com seu futuro produtor John Leckie foi estabelecido quando todos concordaram que a Forever Changes foi o "melhor disco de todos os tempos".







É de facto uma obra notável! Tem cheirinhos de Pink Floyd, The Beatles Roling Stones e acima de tudo uma falta de coerência entre os temas que lhe dá uma enorme originalidade. É impossível ouvir este brilhante disco sem ficar indiferente.

Foi de facto daqueles discos que saíram antes do seu tempo e talvez para um público pouco preparado para ouvir uma obra prima, que prima por um enorme bom gosto.

É um deleite ouvir este disco do principio ao fim e perguntar onde estavam estes senhores no 25 de abril? Porque faz muito pouco tempo eu não conhecia nada deles! O que diga-se era um enorme buraco na minha "de-formação" musical:a-a:

Voltar ao Topo Ir em baixo
TD124
Membro AAP
avatar

Mensagens : 3778
Data de inscrição : 07/07/2010
Idade : 53
Localização : França

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Qui Maio 03 2018, 10:27

Alexandre Vieira escreveu:
Como diria um acalmado programa de televisão "INVESTIGUE-SE" se este Bark Psychosis: Hex, merecem tão boas referências. ...

O Hex é um magnifico exemplo dos discos que se fala aqui, que passaram de "Bestas a Bestiais" e a critica hoje é unânime no facto que é um album "fundamental". A questão é de saber se o publico vê as coisas da mesma maneira ... ou se serão necessarios ainda mais 25 anos até ao reconhecimento publico, ou talvez nunca! confused

È a minha vez de me debruçar sobre esse Love: Forever Changes pois não conheço o grupo então ainda menos o album o que é de certeza uma lacuna ... mas uma vida não chega para conheçer tudo o que existe de fantàstico. No entanto jà dei uma espreitadela à revista de rock na qual confio (LesInrockuptibles) que me gratifica desde o começo do artigo desta frase: Logiquement, Forever changes aurait dû changer le cours de l'histoire de la musique pour toujours. ... o que em si é jà uma bomba. Vou investigar então e ouvir calmamente essa obra, descobrir como é, senti-la...

cheers

_________________
Il semble que la perfection soit atteinte, non quand il n'y a plus rien à ajouter mais quand il n'y a plus rien à retrancher... Antoine de Saint-Exupéry
Voltar ao Topo Ir em baixo
mannitheear
Membro AAP
avatar

Mensagens : 886
Data de inscrição : 01/08/2013

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Qui Maio 03 2018, 14:33

Alexandre Vieira escreveu:

Os Talk Talk, liderados pelo vocalista Mark Hollis, foi formado na Inglaterra no início dos anos 80. Desde o início, Hollis citou artistas jazzísticos e impressionistas como Miles Davis, John Coltrane, Béla Bartók e Claude Debussy como principais influências. Mas os dois primeiros álbuns da Talk Talk, The Party's Over (1982) e It's My Life (1984), não refletiram prontamente tais influências; Os críticos compararam a banda aos novos grupos contemporâneos de ondas, especialmente Duran Duran. Hollis atribui em parte as deficiências de sua música antiga a uma necessidade financeira de usar sintetizadores no lugar de instrumentos acústicos.

This is so true, because in my perception Talk Talk remained over 30 years in a never opened mental drawer lettered "unnecessary 80's charts synthie pop" - until TD124 wrote here in the AAP about Talk Talk...
Voltar ao Topo Ir em baixo
Mário Franco
Membro AAP
avatar

Mensagens : 2045
Data de inscrição : 27/03/2013
Idade : 60
Localização : Paço de Arcos

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Qui Maio 03 2018, 14:40

Alexandre Vieira escreveu:
Existem um conjunto de discos que, porque, quando sairam estavam muito para além do seu tempo. Foram considerados aberrações, obras mal entendidas, sofrendo em muitos casos péssimas criticas.


Peço desculpa pelo texto em inglês, não é o pretensiosimo da usar uma língua "prestigiada" é a preguiça   de traduzir o texto

Retirado da Wikipédia

"Perhacs was born Linda Arnold[3] in 1943 in Mill Valley, California.[4] In the late 1960s, Perhacs relocated to Topanga Canyon, and was working as a dental hygienist in Beverly Hills, California under a former professor she had met while a student at the University of Southern California. In her spare time, she wrote songs.[5] One of her dental clients, Oscar-winning film composer Leonard Rosenman, was impressed by one of her demos and brought her into a studio during 1969-1970, producing her first album, Parallelograms.[6] When the album failed to make an impression, she returned to her dental career."

link para o artigo integral:

https://en.wikipedia.org/wiki/Linda_Perhacs

O primeiro album "Parallelograms" no youtube



Entrevista

Voltar ao Topo Ir em baixo
Alexandre Vieira
Membro AAP
avatar

Mensagens : 4104
Data de inscrição : 11/01/2013
Idade : 48
Localização : The Other Band

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Qui Maio 03 2018, 18:20

Mário Franco escreveu:
Alexandre Vieira escreveu:
Existem um conjunto de discos que, porque, quando sairam estavam muito para além do seu tempo. Foram considerados aberrações, obras mal entendidas, sofrendo em muitos casos péssimas criticas.


Peço desculpa pelo texto em inglês, não é o pretensiosimo da usar uma língua "prestigiada" é a preguiça   de traduzir o texto

Retirado da Wikipédia

"Perhacs was born Linda Arnold[3] in 1943 in Mill Valley, California.[4] In the late 1960s, Perhacs relocated to Topanga Canyon, and was working as a dental hygienist in Beverly Hills, California under a former professor she had met while a student at the University of Southern California. In her spare time, she wrote songs.[5] One of her dental clients, Oscar-winning film composer Leonard Rosenman, was impressed by one of her demos and brought her into a studio during 1969-1970, producing her first album, Parallelograms.[6] When the album failed to make an impression, she returned to her dental career."

link para o artigo integral:

https://en.wikipedia.org/wiki/Linda_Perhacs

O primeiro album "Parallelograms" no youtube



Entrevista






Por acaso quando saiu este último disco, ouvi o primeiro. Grande apontamento!
Voltar ao Topo Ir em baixo
TD124
Membro AAP
avatar

Mensagens : 3778
Data de inscrição : 07/07/2010
Idade : 53
Localização : França

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Sex Maio 04 2018, 09:41

Alexandre Vieira escreveu:
(...) Foi de facto daqueles discos que saíram antes do seu tempo e talvez para um público pouco preparado para ouvir uma obra prima, que prima por um enorme bom gosto. ...

Venho de ouvir os dois ultimos albums propostos pelos amigos Vieira e Màrio Shocked ... 2cclzes , o Love não compreendo a ausência de sucesso aquando da saida pois é um hybrido entre pop, rock-barroco e psicadelismo deveras bem composto e interpretado, mas musical e acessivel ... quanto à madame Linda, o que dizer fora que tém um lugar igual ao lado do Blue da Mitchell ... sém problema!!!

Dai ter sublinhado a frase do amigo Alexandre Vieira ... pois uma obra prima não é forcosamente hermética, dificil de acesso ou chata (felismente) e na realidade a maioria dos grandes albums historicos tiveram um acolho imediato. Penso, talvez erradamente, que o publico dos anos 60/70 era mais conheçedor do que o de hoje ... pois menos pervertido pela comercialisação de massa como actualmente. Isto leva-me a não compreender verdadeiramente a razão do mau acolho destas obras...

Deixo um "disco voador" num estilo proximo destes dois citados que também não teve grande reconhecimento aquando da saida em 1971 ... mas, hoje é reconhecido como uma obra-prima do rock barroco cheers

Obrigado pelas descobertas 2cclzes

_________________
Il semble que la perfection soit atteinte, non quand il n'y a plus rien à ajouter mais quand il n'y a plus rien à retrancher... Antoine de Saint-Exupéry
Voltar ao Topo Ir em baixo
Alexandre Vieira
Membro AAP
avatar

Mensagens : 4104
Data de inscrição : 11/01/2013
Idade : 48
Localização : The Other Band

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Sab Maio 05 2018, 12:13

TD124 escreveu:
Bark Psychosis: Hex

Não existe fogo sém faisca e isto é também vàlido no mundo da criação artistica. Se o publico aclama muitas vezes os movimentos artisticos gabados pela critica, também é verdade que por vezes tanto uns que os outros, esqueçem ou despejam no lixo as obras seminais sém as quais eles não teriam existido. O novo é muitas vezes dificil a compreender pois em ruptura com a tranquilizadora zona de conforto do conhecido e muitas vezes o preço da audàcia é a incompreensão e a indiferência geral…

Os Bark Psychosis foram formados em Londres pelos Graham Sutton e John Ling. São amigos e colegas de escola de desasseis anos quando decidem de fazer musica juntos. Influenciados pelos Joy Division e Sonic Youth os primeiros trabalhos são dinamicos e barulhentos entre punk e noise. A chegada do baterista Mark Simnett que é mais velho de dez anos vai perturbar o estilo do grupo. O Simnet que é amador de jazz e de rock progressivo, mas sobretudo um musico talentoso, inicia os dois "putos" e colegas a novos horizontes musicais. Em 1990 o Daniel Gish integra o grupo como teclista o que permite ao Sutton de se concentrar sobre o canto e as manipulações electronicas.

Assim constituidos em quarteto, o grupo vai lançar em 1992 um primeiro single batizado Scum que encontra um "relativo" sucesso localmente. O Scum é um disco feito de uma faixa de 21 minutos que oscila entre um clima proximo da Ambient mas com rupturas extrêmas. A influência do Stravinski do qual Sutton é amador està patente na obra mas também é clara as diferentes influências que tocam diferentemente cada musico. Este pequeno sucesso leva a casa de discos a lhes oferecer a possibilidade de fazer um album completo ao qual vão se dedicar imediatamente … mas nada vai ser fàcil, bem ao contràrio como vamos ver.

Quase um ano e meio de estudio e a separação por etapas dos membros do grupo é o preço desta fascinante obra. O Sutton tornou-se obcessivo e tém uma ideia global muito exacta do que quer. Durante meses muitos musicos passam pelo estudio (que na realidade é a igreja St John…) apenas para tocar um ou dois acordos que serão meticulosamente colados nas melodias essencialmente improvisadas pelo grupo. Geralmente na penumbra e às vezes no escuro total até às tantas da noite … o trabalho é exaustivo e sobretudo ingrato. Ninguém tém uma ideia global do que estão a fazer e os pedaços de musica acumulados e armazenados pelo Sutton dão um sentimento de "histeria cacofonica" aos outros membros do grupo.

Pouco a pouco e em amizade o baterista cansado acaba por abandonar o estudio seguido pelos outros elementos deixando o Sutton sòzinho com uma mala cheia de estilhaços melodicos, notas e sons. Visionàrio, obstinado e virtuoso ele vai meticulosamente colar estes diferentes pedaços preciosos afim de construir a obra da sua vida. Convidados a ouvir o resultado os diferentes membros reconheçem a qualidade final e assinam a ideia que o album està feito e que pertençe ao grupo. O sumptuoso album Hex que vém de nascer é a materialisação de um grupo que vém de morrer … esta metàfora da criação artistica vai alimentar o mito mais tarde e até aos dias de hoje.

Desde a primeira escuta o Hex intriga, surpreende e deixa o sentimento de escutar algo de complétamente novo. Na segunda escuta a obra seduz, perturba e distila sensações hipnoticas … mas desde a terceira escuta é clara a convição de estar face a um monumento raro. A complexidade do tecido harmonico, a coerência global, a ritmica inventiva e oscilante acoplados a uma criatividade formal constante acabam por estontear. È uma obra em quatro dimensões aonde ao ritmo e à harmonia se adiciona o volume e o silêncio o que cria um espaço sideral. Em oscilação permanente entre estes quatro elementos o resultado ultrapassa o quadro estrito (estreito ?...) dos diferentes estilos que a compõem ...

Este caleidoscopio singular que em tempo normal daria a sensação de "jà visto ou de bricolage", atinge aqui um degrau de coerência que fascina e deixa um sentimento de novidade total, uma doce forma de absoluto, de perfeição juvenil. Tal um camaleão a musica està em movimento perpétuo e muda subtilmente de cor numa continuidade imprevisivel. Tudo aqui é movimento, pulsação, sugestão, declamação e metamorfose … e o auditor subjugado e enfeitiçado mergulha num banho amiotico do qual não vai sair indemne. O encerrar do album com a faixa Pendulum Man é a apoteose desta viagem iniciàtica e perturbante assim que a materialisação do que venho de dizer. O ritmo metronomico como uma pulsação vital abre o espaço para harmonias minimalistas que desanuviam a tensão criando uma atmosfera tântrica e sensual…

Evidentemente, é sobejamente conhecido "hoje" que o termo Post-Rock foi criado pelo critico Simon Reynolds (The Wire) para descrever o sentimento provocado pela escuta do Hex. Apesar das boas criticas o album foi um fiasco commercial e teve que esperar vàrios anos até à exumação e ao estatuto de obra-prima que possui hoje … apesar de continuar desconhecido. Regularmente colocado em afinidade com os ultimos trabalhos dos Talk Talk ou do David Sylvian…, o Hex partilha muito pouco com estes artistas fora o aspecto atmosférico, meticuloso e experimental. Os Talk Talk re-escreveram o alfabeto do Rock ao ponto que este deixou de ser do Rock, o David Sylvian pratica uma Pop experimental, elegante e intelectual mas sém desvio formal. Ao contràrio os Bark Psychosis criaram uma linguagem que continua a ser do Rock … mas que não soa como tal, qualquer que seja o estilo escolhido, o que é muito diferente !

Inclassàvel mas cheio de Classe … o Hex continua a desafiar as etiquetas e a sintese. È um OVNI como a musica produz de vez em quando que tém a particularidade de ser diferente de tudo e familiar ao mesmo tempo. Estranho e aconchegador, distante e elegante, original mas sém ruptura auditiva abrupta o Hex pagou e paga o preço da sua insolência. Raramente um album maior na historia do Rock foi tão ignorado … mas raramente um album tão confidencial teve um estatuto de obra prima e uma tal chuva de elogios. O Hex é tudo isto e mais uma coisa … esse "não sei o quê" que propulsa uma obra na eternidade. Se era impensàvel que os Talk Talk tivessem criado os dois ultimos albums … é então complétamente inconcebivel que os "putos" dos Bark Psychosis fizessem este monumento. Mas a historia tém a eternidade para compreender este fenomeno … entretanto porque a vida é curta, déem aos vossos sentidos algo de verdadeiramente grande a descobrir … e a sentir sobretudo. Se não conheçem este album então abram os olhos, o coração e o espirito a esta beleza feita de sensibilidade em suspensão...

Excelente ambientai neste disco. É uma obra para degustar lentamente e não para comer à bruta. É equilibrada, com características suficientes para nos despertar a descoberta de novos sons. Sem dúvida um disco de autor!
Voltar ao Topo Ir em baixo
Alexandre Vieira
Membro AAP
avatar

Mensagens : 4104
Data de inscrição : 11/01/2013
Idade : 48
Localização : The Other Band

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Sab Maio 05 2018, 14:31

PAUS - MITRA (2016)



Os PAUS são um grupo de identidade bem vincada cada vez mais ambicioso na procura de grandes canções. Mitra é o melhor conjunto de músicas do quarteto: traz as vozes para o centro da ação mas não descura os instrumentos.

Mitra é um daqueles discos que cresce rápido, seduz no imediato, mas – como o bom vinho e as mulheres – vai ficando melhor com o tempo e melhor conhecimento. No entanto passou ao lado do público em geral. Por ventura foi o melhor álbum nacional de 2016 e um dos melhores álbuns de todo o mundo nesse ano. No entanto como outros discos portugueses aos quais também farei referência neste espaço, passou ao lado do público, especialmente até do mais qualificado, como o que temos por aqui neste fórum.



Em Mitra sentimos um movimento instrumental de luta pela igualdade de oportunidades. Surgem sintetizadores, guitarras e baixos que se põem ao mesmo nível da percussão. Mas PAUS não seriam PAUS se não estivesse o seu centro gravitacional imposto na lei do bombo. A meia hora que compõe o álbum deixa a desejar que este tivesse uma duração maior. São raros os álbuns que assim o fazem.

De “intenso” a “perfeita sintonia”, passando por “melódico” e com “predominância vocal”, este trabalho tem ainda uma particularidade para essencial é cantado integralmente em Português. O que começa a ser raro nos dias que correm.

Para mim este disco é sinónimo de inteligência na composição, pois consegue conjugar elementos da música tradicional portuguesa com as mais modernas tendências da música dos dias de hoje.

Chamo atenção para este disco que é de facto uma obra prima da música Portuguesa e para o facto de ainda ser possível ser adquirido em vinil a preços razoáveis. Vai-se tornar um disco de culto e devoção. Saiu apenas à dois anos e já está quase integralmente esquecido pela critica e pelos comuns ouvintes.



Mitra” foi gravado na residencia e estúdio da banda, o HAUS, e foi produzido por Makoto Yagyu e Fábio Jevelim.

*Este resulta da composição de textos e criticas diversas que foram por mim compiladas, e em alguns casos alteradas.
Voltar ao Topo Ir em baixo
anibalpmm
Membro AAP
avatar

Mensagens : 9005
Data de inscrição : 05/03/2012
Idade : 52
Localização : Quinta do Anjo

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Sab Maio 05 2018, 18:01

Alexandre Vieira escreveu:
PAUS - MITRA (2016)



Os PAUS são um grupo de identidade bem vincada cada vez mais ambicioso na procura de grandes canções. Mitra é o melhor conjunto de músicas do quarteto: traz as vozes para o centro da ação mas não descura os instrumentos.

Mitra é um daqueles discos que cresce rápido, seduz no imediato, mas – como o bom vinho e as mulheres – vai ficando melhor com o tempo e melhor conhecimento. No entanto passou ao lado do público em geral. Por ventura foi o melhor álbum nacional de 2016 e um dos melhores álbuns de todo o mundo nesse ano. No entanto como outros discos portugueses aos quais também farei referência neste espaço, passou ao lado do público, especialmente até do mais qualificado, como o que temos por aqui neste fórum.



Em Mitra sentimos um movimento instrumental de luta pela igualdade de oportunidades. Surgem sintetizadores, guitarras e baixos que se põem ao mesmo nível da percussão. Mas PAUS não seriam PAUS se não estivesse o seu centro gravitacional imposto na lei do bombo. A meia hora que compõe o álbum deixa a desejar que este tivesse uma duração maior. São raros os álbuns que assim o fazem.

De “intenso” a “perfeita sintonia”, passando por “melódico” e com “predominância vocal”, este trabalho tem ainda uma particularidade para essencial é cantado integralmente em Português. O que começa a ser raro nos dias que correm.

Para mim este disco é sinónimo de inteligência na composição, pois consegue conjugar elementos da música tradicional portuguesa com as mais modernas tendências da música dos dias de hoje.

Chamo atenção para este disco que é de facto uma obra prima da música Portuguesa e para o facto de ainda ser possível ser adquirido em vinil a preços razoáveis. Vai-se tornar um disco de culto e devoção. Saiu apenas à dois anos e já está quase integralmente esquecido pela critica e pelos comuns ouvintes.



Mitra” foi gravado na residencia e estúdio da banda, o HAUS, e foi produzido por Makoto Yagyu e Fábio Jevelim.

*Este resulta da composição de textos e criticas diversas que foram por mim compiladas, e em alguns casos alteradas.

Mas posso afirmar q aqui por casa não passou ao lado
Voltar ao Topo Ir em baixo
Alexandre Vieira
Membro AAP
avatar

Mensagens : 4104
Data de inscrição : 11/01/2013
Idade : 48
Localização : The Other Band

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Sex Maio 11 2018, 11:35

Gandalf - Gandalf

Resgatei e ampliei um post que fiz, já faz uns anos, por aqui.

Gandalf é banda hoje em dia pouco conhecida do final dos anos 1960 embora à data fosse grupo de rock psicodélico influente.
Eles eram uma banda americana, originalmente chamados de Rahgoos e formado por Peter Sando, Frank Hubach, Bob Muller e Davy Bauer.




Mas quando assinatam um contrato com a editora Capitol Records, em 1967, esta fez os mudar o nome da banda para Gandalf.
Eles gravaram seu primeiro e único LP do mesmo ano. O registro inclui covers de Tim Hardin, Eden Ahbez e Bonner & Gordon (os escritores de "Happy Together") e duas canções compostas pelo guitarrista da banda, Peter Sando.




Mas a Capitol Records ao que apurei desprezou este trabalho belíssimo, e embora tivesse sido gravado em 1968, só lançou o LP em 1969, e mesmo estas vinham por um erro de produção com o registo errado, ou seja as primeiras cópias que vinham dentro das capas eram de uma outra banda. As cópias foram recolhidas mas este feito danificou a carreira da banda. Capitol, posteriormente, não promoveu o trabalho o que piorou as vendas de tal modo que a banda que produziu um dos melhores trabalhos dos anos 60, ficou quase que como eternamente desconhecida. Ao longo dos anos a reputação do álbum, a que muitos já chamaram “a melhor pérola de perdida de sempre”, cresceu e foi re-lançado pela registros Sundazed em 2002.



Na minha opinião este é um disco imperdível em qualquer discografia, assim que ouvi os seus primeiros acordes, fiquei com a nítida sensação que havia “descoberto” uma obra notável do período psicadélico, interpolada com cheirinhos aqui e alí de Pink Floyd e The Doors, misturados num ambiência única e pouco desgastada pelo tempo.
Passados quarenta e sete anos sobre o seu lançamento, penso que está na altura de lhes ser reconhecido o seu enorme génio.
Audição e compra obrigatória (cuidado com o vinil que é de muito pouca qualidade…).

Voltar ao Topo Ir em baixo
TD124
Membro AAP
avatar

Mensagens : 3778
Data de inscrição : 07/07/2010
Idade : 53
Localização : França

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Dom Maio 13 2018, 13:57

The Durutti Column: The Return of the Durutti Column


Raramente um grupo foi tão ignorado, a sua musica tão incompreendida, o seu fundador tão despercebido e a sua influência artistica tão relativisada. Se o tema deste topico são as obras e os artistas malditos ou desconsiderados,  então os Durutti Column (aliàs Vini Reilly) podem-se gabar de ter um lugar de destaque. Que o Brian Eno considere o album LC dos DC como o seu disco favorito e o maior album de todos os tempos, que o John Frusciante considére o Vini Reilly como o maior guitarista de sempre ou que o Philippe Manœuvre escreva que o primeiro album dos DC é a maior e fundamental ruptura artistica da historia do rock … não hà nada a fazer, e este grupo culto continua ainda hoje a ser marginalisado nas cronicas sobre o rock, sém falar da ausência nas estantes das discotécas dos "ditos" conheçedores.

No entanto tudo começou bem para fazer deste grupo um icone fundamental. Ele é o primeiro a assinar na mitica Factory Records antes mesmo dos Joy Division com os quais eles partilham o productor Martin Hannett. Tendo sido o guitarrista breve de um grupo de Punk o Vini Reilly inscreve-se no movimento Post-Punk que o editor Tony Wilson procura. Mas rapidamente é visivel que existem diferenças conceptuais profundas entre a visão modelisada (moldada pelo Hannett) do Post-Punk dos Joy Division e a natureza epurada e complexa da musica dos Durutti Column. O primeiro album é um fiasco commercial e mesmo intelectualmente um buraco no escuro. Ninguém compreende a natureza singular desta musica tricotada com fio de elegância melancolica. Os arpejos são complexos, não repetidos e quase irrepetivéis pois virtuosamente realisados e pareçendo criados a cada instante… como um movimento perpétuo mas sém concentricidade ném objectivo prédeterminado. Estamos longe da escrita métrica e dos acordos binàrios do rock … e na realidade estamos longe de qualquer comparação estilistica fora com a musica do Manuel Göttsching ou com a Ambient Music, mas isto em 1980!...

Mas apesar da incompreensão e mesmo do estupor contrariado que este album criou quando da saida, estamos verdadeiramente a falar de um album de Post-Punk e mesmo de um dos maiores. A musica Punk nasce de um movimento que prona a alteridade, a diferença e o anti-conformismo antes de tudo, então visto por este prisma o Return of the Durutti Column é um manifesto absoluto do Punk. O nome do grupo faz alusão a uma brigada de anarquistas partidos de Barcelona combater o Franco durante a guerra civil espanhola e conduzidos pelo italiano Durruti. O titulo do album sob a forma de retorno desta coluna é uma alegoria à vontade de combater a Margaret Thatcher como se ela fosse um dictador. A anarquia como liberdade suprema e essência da alteridade assumida. A capa feita em lixa grossa obriga o disco a ser separado dos outros que serão riscados e estragados na estante … sendo isto uma metàfora da intransigência intelectual e formal do movimento Punk. Enfim a musica que é desembaraçada de modelo, forma e limites estilisticos impostos … sendo esta na sua perfeição diafana e cerebral tão potente quanto a radical energia espontanea dos Sex Pistols. Sim meus amigos, o The return of the Durutti Column é mais do que um simples album de Punk, ele é uma forma de quintessência ideologica tal como o Never Mind the Bollock’s ou o London Calling … um modelo, um exemplo um alicerçe do edificio do Punk que destroi os codigos intelectuais como os outros partiam as guitarras, mas o objectivo é o mesmo!...

Não sei responder à pergunta se a arte pode transformer a humanidade, mas a um nivel pessoal posso dizer que sim. A leitura do Livro do desassossego, o quadro do Edvard Munch (Grito) e este album do qual venho de falar … foram sém duvida elementos determinantes  no que sou hoje. Estive em Vilar de Mouros em 82, aonde no meio dos A Certain Ratio, Echo & the Bunnymen, U2, The Stranglers(…) os Durutti Column tinham actuado pela primeira vês em Portugal … e fiz o caminho de Lisboa até à fronteira da Galicia de proposito para ouvir o Vini Reilly !!! Os arpejos dos Durutti Column enfeitiçaram as montanhas galegas e ainda ressoam no meu espirito, isto explica de certeza o meu gosto pelo Post-Rock e globalmente pela musica heterodoxa ...

_________________
Il semble que la perfection soit atteinte, non quand il n'y a plus rien à ajouter mais quand il n'y a plus rien à retrancher... Antoine de Saint-Exupéry
Voltar ao Topo Ir em baixo
c_n_m
Membro AAP
avatar

Mensagens : 337
Data de inscrição : 22/05/2011
Idade : 50
Localização : Lisboa

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Dom Maio 13 2018, 22:22

Excelente critica musical. À semelhança do prezado Td124, também a mim me marcaram de forma idelével. Não os vi em Vilar formoso, mas na antiga Fil de Lisboa numa qualquer feira que por lá decorria.
Acompanharam-me durante o serviço militar, e infelizmente da altura não ficaram discos para mais tarde recordar. Procurei posteriormente nos anos 90/2000 edições em cd, porém não se encontravam com facilidade e creio que não foram todos reeditados em formato digital. Há uns anos quando encontrei uma reedição de um dos discos deles em vinil (não me recordo qual, e não me apetece ir procurar jocolor comprei!

Vini Reily tem uma matiz sonora ímpar, e basta ouvir 2 ou 3 acordes para identificar os Durutti Column.

Muito bem escolhido!
Voltar ao Topo Ir em baixo
TD124
Membro AAP
avatar

Mensagens : 3778
Data de inscrição : 07/07/2010
Idade : 53
Localização : França

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Seg Maio 14 2018, 10:12

c_n_m escreveu:
Excelente critica musical. À semelhança do prezado Td124, também a mim me marcaram de forma idelével. ...

Jà somos dois então !!! 2cclzes

_________________
Il semble que la perfection soit atteinte, non quand il n'y a plus rien à ajouter mais quand il n'y a plus rien à retrancher... Antoine de Saint-Exupéry
Voltar ao Topo Ir em baixo
Alexandre Vieira
Membro AAP
avatar

Mensagens : 4104
Data de inscrição : 11/01/2013
Idade : 48
Localização : The Other Band

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Seg Maio 14 2018, 10:32

TD124 escreveu:
The Durutti Column: The Return of the Durutti Column


Raramente um grupo foi tão ignorado, a sua musica tão incompreendida, o seu fundador tão despercebido e a sua influência artistica tão relativisada. Se o tema deste topico são as obras e os artistas malditos ou desconsiderados,  então os Durutti Column (aliàs Vini Reilly) podem-se gabar de ter um lugar de destaque. Que o Brian Eno considere o album LC dos DC como o seu disco favorito e o maior album de todos os tempos, que o John Frusciante considére o Vini Reilly como o maior guitarista de sempre ou que o Philippe Manœuvre escreva que o primeiro album dos DC é a maior e fundamental ruptura artistica da historia do rock … não hà nada a fazer, e este grupo culto continua ainda hoje a ser marginalisado nas cronicas sobre o rock, sém falar da ausência nas estantes das discotécas dos "ditos" conheçedores.

No entanto tudo começou bem para fazer deste grupo um icone fundamental. Ele é o primeiro a assinar na mitica Factory Records antes mesmo dos Joy Division com os quais eles partilham o productor Martin Hannett. Tendo sido o guitarrista breve de um grupo de Punk o Vini Reilly inscreve-se no movimento Post-Punk que o editor Tony Wilson procura. Mas rapidamente é visivel que existem diferenças conceptuais profundas entre a visão modelisada (moldada pelo Hannett) do Post-Punk dos Joy Division e a natureza epurada e complexa da musica dos Durutti Column. O primeiro album é um fiasco commercial e mesmo intelectualmente um buraco no escuro. Ninguém compreende a natureza singular desta musica tricotada com fio de elegância melancolica. Os arpejos são complexos, não repetidos e quase irrepetivéis pois virtuosamente realisados e pareçendo criados a cada instante… como um movimento perpétuo mas sém concentricidade ném objectivo prédeterminado. Estamos longe da escrita métrica e dos acordos binàrios do rock … e na realidade estamos longe de qualquer comparação estilistica fora com a musica do Manuel Göttsching ou com a Ambient Music, mas isto em 1980!...

Mas apesar da incompreensão e mesmo do estupor contrariado que este album criou quando da saida, estamos verdadeiramente a falar de um album de Post-Punk e mesmo de um dos maiores. A musica Punk nasce de um movimento que prona a alteridade, a diferença e o anti-conformismo antes de tudo, então visto por este prisma o Return of the Durutti Column é um manifesto absoluto do Punk. O nome do grupo faz alusão a uma brigada de anarquistas partidos de Barcelona combater o Franco durante a guerra civil espanhola e conduzidos pelo italiano Durruti. O titulo do album sob a forma de retorno desta coluna é uma alegoria à vontade de combater a Margaret Thatcher como se ela fosse um dictador. A anarquia como liberdade suprema e essência da alteridade assumida. A capa feita em lixa grossa obriga o disco a ser separado dos outros que serão riscados e estragados na estante … sendo isto uma metàfora da intransigência intelectual e formal do movimento Punk. Enfim a musica que é desembaraçada de modelo, forma e limites estilisticos impostos … sendo esta na sua perfeição diafana e cerebral tão potente quanto a radical energia espontanea dos Sex Pistols. Sim meus amigos, o The return of the Durutti Column é mais do que um simples album de Punk, ele é uma forma de quintessência ideologica tal como o Never Mind the Bollock’s ou o London Calling … um modelo, um exemplo um alicerçe do edificio do Punk que destroi os codigos intelectuais como os outros partiam as guitarras, mas o objectivo é o mesmo!...

Não sei responder à pergunta se a arte pode transformer a humanidade, mas a um nivel pessoal posso dizer que sim. A leitura do Livro do desassossego, o quadro do Edvard Munch (Grito) e este album do qual venho de falar … foram sém duvida elementos determinantes  no que sou hoje. Estive em Vilar de Mouros em 82, aonde no meio dos A Certain Ratio, Echo & the Bunnymen, U2, The Stranglers(…) os Durutti Column tinham actuado pela primeira vês em Portugal … e fiz o caminho de Lisboa até à fronteira da Galicia de proposito para ouvir o Vini Reilly !!! Os arpejos dos Durutti Column enfeitiçaram as montanhas galegas e ainda ressoam no meu espirito, isto explica de certeza o meu gosto pelo Post-Rock e globalmente pela musica heterodoxa ...

A excelencia do artigo é comparável à magistral obra deste Senhor, que passou muito mal na sua vida privada. Eu sou um adepto fanático pelo "LC" e a homenagem que fez a Ian Curtis e claro o magistral "Amigos de Portugal".

Infelizmente era um menino quando Vilar de Mouros ocorreu. Esse festival está para Portugal como uma das maiores montras de monstros actuar num único espaço de sempre.

Grande trabalho e grandes recordações!

Bravo!
Voltar ao Topo Ir em baixo
TD124
Membro AAP
avatar

Mensagens : 3778
Data de inscrição : 07/07/2010
Idade : 53
Localização : França

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Seg Maio 14 2018, 11:47

Alexandre Vieira escreveu:
(...) Eu sou um adepto fanático pelo "LC" e a homenagem que fez a Ian Curtis e claro o magistral "Amigos de Portugal". ...

Vejo que jà somos três adeptos neste espaço dos Durutti Column ... jà não estamos sozinhos 2cclzes

Apesar de como muitos adeptos apreciar de uma maneira especial o "LC" (Lotta Continua ou seja A Luta Continua em italiano que era um movimento revolucionario...), considero que a obra prima é o fabuloso "Short Stories from Pauline", gravado em 1983 e que sò foi editado em 2012!!!... o que mostra que os Durutti Column são realmente malditos. Este album néo-classico é talvez aquele que mostra com maior brilho o profundo conhecimento da musica contemporanea assim que a arte suprema dos arpejos do Vini Reilly. Penso também que Portugal teve uma relação muito especial com a musica dos DC e que o Vini Reilly o compreendeu muito bem. A musica do Carlos Paredes tém pontos comuns e albuns portugueses hoje cultos como os do Carlos Maria Trindade / Nuno Canavarro (que mereceriam ser abordados neste topico) são exemplos da influência estilistica dos Durutti Column ... de mesmo que os jà citados Spirit of Eden e Hex, mas a um nivel diferente.

cheers

_________________
Il semble que la perfection soit atteinte, non quand il n'y a plus rien à ajouter mais quand il n'y a plus rien à retrancher... Antoine de Saint-Exupéry
Voltar ao Topo Ir em baixo
browserd
Membro AAP
avatar

Mensagens : 44
Data de inscrição : 22/03/2017
Idade : 45
Localização : Lisboa

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Seg Maio 14 2018, 15:01

TD124 escreveu:
... o Love não compreendo a ausência de sucesso aquando da saida pois é um hybrido entre pop, rock-barroco e psicadelismo deveras bem composto e interpretado, mas musical e acessivel ...

A grande questão em torno do álbum dos Love é talvez que, ainda que aparentando ser um álbum do Flower Power, ele é na realidade uma declaração do entendimento do Arthur Lee sobre o Summer of Love e todo o movimento associado ou seja, Forever Changes (também um dos meus álbuns favoritos) é uma critica quase velada à ideia hippie de que acreditar na paz e no amor faz com que tudo o resto, tudo o que é mau, desapareça.

Ora, comercialmente, o que fazia sucesso (e faria ainda durante algum tempo) era exactamente o contrário, era o elevar da espiritualidade positiva, a flor e a sandália, o sol que se queria a nascer para todos (independentemente de se saber que a origem dessa visão estava maioritariamente baseada nos ácidos) ...

Com o passar da febre, com o choque de realidade que foi a década de 70, a percepção sobre o álbum alterou-se e a visão dos Love (ou do Arthur Lee para ser mais exacto)  passou a ser quase como que premonitória.

Just my 5 cents.
Voltar ao Topo Ir em baixo
http://www.browserd.com
Alexandre Vieira
Membro AAP
avatar

Mensagens : 4104
Data de inscrição : 11/01/2013
Idade : 48
Localização : The Other Band

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Qui Maio 31 2018, 16:33



Quando este disco saiu os todos os críticos ficaram chocados com aparente falta de emoção do registo. Este é o álbum de estreia da banda, corria o ano de 1979. O trio de Ian Craig Marsh, Martyn Ware e Philip Oakey lidaram com vocais e sintetizadores para criar um conjunto de faixas sombrias e rígidas que revelaram uma maior falta de humanidade do que os próprios Kraftwerk, sua grande influência. De facto este excelente trabalho irá ter maior influência em bandas como Cabaret Voltaire, DAF, Sigue Segui Sputnik, do que nos próprios Human League.


Foi um disco que circulou pelos Clubes mais alternativos de Londres com enorme espectacularidade, mas muito menos na rádio e foi um enorme fracasso comercial. Estranhamente o seu maior volume de vendas ocorreu após os Human League terem alcançado sucesso mundial. Mas este álbum (que para mim é de longe o melhor da banda e um dos melhores do seu tempo - eu sou fanático por este tipo de electro-pop) nunca foi reconhecido como um álbum essencial.

Mesmo a capa (muito original- talvez em demasia) não conseguiu suscitar o interesse do público por este maravilhoso trabalho, segundo um elemento da banda:

Nós dissemos que queríamos uma imagem de uma pista de dança de vidro em uma discoteca na qual as pessoas dançavam e, abaixo disso, uma sala iluminada cheia de bebês. Como uma visão distópica de o futuro - mas parece que eles estão pisando em bebês. Nós estávamos muito chateados, mas naquela época, era tarde demais para mudar isso"


Os sons dos sintetizadores deste trabalho são notáveis, tal como as letras e originalidade de cada arranjo. Tem uma estética invulgar e um enorme bom gosto na sua produção, realce-se que o co-produtor deste disco, Colin Thurston, que já havia trabalhado em gravações de novos ondas musicais, como Lust for Life e Secondhand Daylight, de Iggy Pop, e que produziu inúmeros álbuns de sucesso da década de 1980, principalmente para o Duran Duran, considerou este um dos seus melhores trabalhos de sempre. Existem espalhadas por muitos temas inúmeras cópias dos arranjos dos temas destes disco, sem qualquer tipo de referencia ou crédito aos seus verdadeiros autores.




Este é um disco que saiu muito para além do seu tempo, um disco que merece por direito próprio o seu lugar na história da música e nas nossas colecções. Espero que este pequeno apontamento seja indicador o suficiente para que pelo menos mereça da vossa parte uma "deslocação" ao Youtube para terem uma ideia da generalidade desta grande obra.

Para ser mais fácil deixo aqui o Tubo:

Voltar ao Topo Ir em baixo
anibalpmm
Membro AAP
avatar

Mensagens : 9005
Data de inscrição : 05/03/2012
Idade : 52
Localização : Quinta do Anjo

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Qui Maio 31 2018, 20:14

The “Velvet Underground & Nico” é o 1º disco de uma banda de rock de vanguarda de NY. Foram vanguardistas pq as suas canções não só tinham um som diferente como exprimiam atitudes, sensações e experiências nunca antes ouvidas no Rock’n’Roll. E por isso “The Velvet Undrground & Nico” terá sido, possivelmente o 1º disco maldito do Rock.
Em pleno hinduísmo, hipismo, flower power e psicadelismo, quais teriam sido as nossas hipóteses de descobrir “The Velvet Underground & Nico” em 1967? Ínfimas, sem dúvida. E que teríamos nós compreendido deste disco? Pouca coisa, provavelmente, de tal modo ele é deletério: um sunday morning (andrógino e sedutor), waiting for the man (ou seja o puto branco à espera do seu dealer no bairro negro) quando uma femme fatale (deliciosa voz de Nico) nos conduz à descoberta das venus in furs (o sado-masoquismo) na dissonância extrema. Encontramo-Nos sempre na rua, run, run, run em busca de drogas (guitarra estridente de LR) para ir a all tomorrow’s parties (angustiante percussão de Maureen Tucker). Contudo heroin ata-nos (heroin be the death of me/heroin it’s my wife and it’s my life) nas cordas da viola de arco de J. Cale. Uma companheira sem tostão é violentada there she goes again (ironia da melodia bubble-gum) e é nas relações entre Nico e Warhol q é preciso compreender i’ll be your mirror (a guitarra torna-se volátil), mas a dolorosa black angels death song previne-nos de q não existe qq escolha entre todas as escolhas possíveis.
Em 1967 era o melhor disco de rock jamais produzido, a musica como os textos, novos e nunca antes escutados. “The Velvet Underground & Nico” matou os swinging-sixties.
Mas a imprensa e os críticos atacaram o disco, o grupo e A. Warhol, sobretudo este ultímo. O grupo sente-se surpreendido com as reações violentas q desperta e não as compreende. Tinham a sensação de q eram detestado por todos. O ódio não tinha a ver nada com a musica, era mais provocado pela sua imagem homossexual. A atitude da banda tb não ajudava pois consistia em mandar toda a gente levar no cu, o q, na altura, era bastante punk, mesmo q, na época, ninguém soubesse o q o punk significava. Os membros dos Velvet detestavam toda a gente. A editora tb não colaborou na divulgação do disco pois recusou-se a fazer publicidade ao mesmo, pq ele falava de droga, de sexo e de perversão. Música para gente crescida, na altura em q os The Doors apontavam ainda para adolescentes.
Se os Velvet nos ensinaram alguma coisa foi q o prazer e a dor são duas faces da mesma moeda. Que tudo tem pouca importância, pq tudo é demasiado complexo para ser compreendido na totalidade.
Brian Enno refere numa celebre frase” o 1º álbum dos Velvet Undergroung talvez não tenha vendido mais q uns poucos milhares de cópias, mas cada pessoa q o comprou formou um grupo”.

Frases avulsas retiradas do livro “Andy Warhol e os Velvet Underground”

Voltar ao Topo Ir em baixo
Alexandre Vieira
Membro AAP
avatar

Mensagens : 4104
Data de inscrição : 11/01/2013
Idade : 48
Localização : The Other Band

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Sex Jun 01 2018, 09:17

anibalpmm escreveu:
The “Velvet Underground & Nico” é o 1º disco de uma banda de rock de vanguarda de NY. Foram vanguardistas pq as suas canções não só tinham um som diferente como exprimiam atitudes, sensações e experiências nunca antes ouvidas no Rock’n’Roll. E por isso “The Velvet Undrground & Nico” terá sido, possivelmente o 1º disco maldito do Rock.
Em pleno hinduísmo, hipismo, flower power e psicadelismo, quais teriam sido as nossas hipóteses de descobrir “The Velvet Underground & Nico” em 1967? Ínfimas, sem dúvida. E que teríamos nós compreendido deste disco? Pouca coisa, provavelmente, de tal modo ele é deletério: um sunday morning (andrógino e sedutor), waiting for the man (ou seja o puto branco à espera do seu dealer no bairro negro) quando uma femme fatale (deliciosa voz de Nico) nos conduz à descoberta das venus in furs (o sado-masoquismo) na dissonância extrema. Encontramo-Nos sempre na rua, run, run, run em busca de drogas (guitarra estridente de LR) para ir a all tomorrow’s parties (angustiante percussão de Maureen Tucker). Contudo heroin ata-nos (heroin be the death of me/heroin it’s my wife and it’s my life) nas cordas da viola de arco de J. Cale. Uma companheira sem tostão é violentada there she goes again (ironia da melodia bubble-gum) e é nas relações entre Nico e Warhol q é preciso compreender i’ll be your mirror (a guitarra torna-se volátil), mas a dolorosa black angels death song previne-nos de q não existe qq escolha entre todas as escolhas possíveis.
Em 1967 era o melhor disco de rock jamais produzido, a musica como os textos, novos e nunca antes escutados. “The Velvet Underground & Nico” matou os swinging-sixties.
Mas a imprensa e os críticos atacaram o disco, o grupo e A. Warhol, sobretudo este ultímo. O grupo sente-se surpreendido com as reações violentas q desperta e não as compreende. Tinham a sensação de q eram detestado por todos. O ódio não tinha a ver nada com a musica, era mais provocado pela sua imagem homossexual. A atitude da banda tb não ajudava pois consistia em mandar toda a gente levar no cu, o q, na altura, era bastante punk, mesmo q, na época, ninguém soubesse o q o punk significava. Os membros dos Velvet detestavam toda a gente. A editora tb não colaborou na divulgação do disco pois recusou-se a fazer publicidade ao mesmo, pq ele falava de droga, de sexo e de perversão. Música para gente crescida, na altura em q os The Doors apontavam ainda para adolescentes.
Se os Velvet nos ensinaram alguma coisa foi q o prazer e a dor são duas faces da mesma moeda. Que tudo tem pouca importância, pq tudo é demasiado complexo para ser compreendido na totalidade.
Brian Enno refere numa celebre frase” o 1º álbum dos Velvet Undergroung talvez não tenha vendido mais q uns poucos milhares de cópias, mas cada pessoa q o comprou formou um grupo”.

Frases avulsas retiradas do livro “Andy Warhol e os Velvet Underground”


Sem qualquer tipo de hesitação um dos melhores discos de todos os tempos! Excelente artigo que em muito engrandece este tópico!!!
Voltar ao Topo Ir em baixo
Alexandre Vieira
Membro AAP
avatar

Mensagens : 4104
Data de inscrição : 11/01/2013
Idade : 48
Localização : The Other Band

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Ter Ago 14 2018, 21:39




Heligo Land- O álbum mal amado dos Massive Attack

Muitas vezes porque os admiradores de uma determinada banda esperam a continuação de uma determinada sonoridade, e porque o álbum é um corte radical com o que até tinha sido efetuado, ou porque apareceram coisas novas que levam a colocar de lado determinadas bandas, ou porque a promoção não efetuada devidamente, um álbum brutal saí e nem damos por isso.

Temos aqui no fórum imensos admiradores desta banda, mas se perguntar por todos os álbuns dos MA, de certeza que este é esquecido, ou então obtém-se a resposta: "acho que tenho lá isso em casa com o plástico ainda" lol!

Mas este álbum é um enorme álbum, já saiu faz uns bons 8 (oito!) anos e ainda está ai por desbravar!

Heligoland - é o quinto álbum de estúdio da dupla de música eletrônica inglesa Massive Attack, lançado em 8 de fevereiro de 2010 pela Virgin Records. Batizado em homenagem ao arquipélago alemão, foi o primeiro álbum de estúdio em sete anos.

O elenco de artistas convidados para este trabalho é qualquer coisa de outro planeta:
Desde logo conta com Jamaicano Horace Andy , para além de Tunde Adebimpe da TV On The Rádio, Damon Albarn- sim esse mesmo! de Blur e Gorillaz, a maravilhosa Hope Sandoval de Hope Sandoval e Warm Inventions e Mazzy Star, Guy Garvey de Elbow e Martina Topley-Bird, assim como guitarras de Adrian Utley de Portishead (em "Saturday Come Slow"), programas de ritmos do colaborador de Portishead John Baggott (mais notavelmente em "Atlas Air"), teclas e sintetizadores de Damon Albarn ("Splitting the Atom" "e" Flat of the Blade ", respectivamente), guitarra (várias faixas) e baixo (" Girl I Love You ") por Neil Davidge e baixo por Billy Fuller de Beak em várias faixas.

O baterista deste trabalho, o grande Damon Reece, por exemplo é conhecido por trabalhar com estas bandas: Spiritualized, Echo & the Bunnymen, Lupine Howl,  The Orb, Way Out West, Feist, Goldfrapp, The Chemical Brothers

Ou seja a equipa deste trabalho é digamos que é, assim por baixo, simplesmente Brutal!!!

Ou seja gente experiente com muita criatividade, pelo que o resultado final teria que ser qualquer coisa de especial. E é! De facto este disco não se pode comparar com os anteriores trabalhos de Massive Attack, apenas e tão só porque é um álbum diferente, tal como o 100th Window que considero ser um disco magistral, de Mezzanine. Tem que se ouvir este álbum por si próprio e não comparação-lo a outros trabalhos de MA.

É um disco com temas profundos, uma melancolia saudável e uma notável e agradável sucessão de canções bem estruturadas, muito bem produzidas, misturadas, gravadas e que foram certamente analisadas à lupa para que o resultado final seja aquele que verdadeiramente os seus criadores tinham em mente. Um disco que foi praticamente esquecido à nascença e que merece uma oportunidade. Em termos estéticos até talvez seja o melhor trabalho dos MA, não tem é os Hits de outros discos, que evidenciaram este enorme projecto.

HeligoLand vale por si próprio, e deve ser imaginado como um enorme trabalho plural, que deve ser ouvido do principio ao fim sem entrar em esquemas comparativos com outros trabalhos, que só nos afasta da musicalidade deste imenso trabalho!

Quem não tem este disco, penso que o encontra na Fnac (o cd) por apenas 9 ou 10 euros.

Vale bem pena coloca-lo a correr e esquecer que este álbum é dos MA. Apenas sentar, escutar e ouvir! O que diga-se na verdade com este álbum consegue-se, por atrai-nos atenção do principio ao fim, numa viagem com belas vozes e melodias.

Voltar ao Topo Ir em baixo
Alexandre Vieira
Membro AAP
avatar

Mensagens : 4104
Data de inscrição : 11/01/2013
Idade : 48
Localização : The Other Band

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Sab Set 01 2018, 12:55






Em 1987, Alexander Balanescu deixou o Quarteto Arditti para formar seu próprio Quarteto de cordas, Balanescu Quartet  desde logo eles passaram a ganhar a reputação de um dos principais grupos divulgadores de excelência musical. Aparentemente trabalhando sem fronteiras de gênero, o grupo colaborou com Gavin Bryars, Ornette Coleman, David Byrne, os Pet Shop Boys, Spiritualized, Kate Bush, Kraftwerk e outros. Eles criaram partituras de filmes (Angels And Insects), contribuíram para as trilhas sonoras de filmes (The Garden) e lançaram uma série de álbuns originais e interessantes, interpretando as interpretações de outros trabalhos de artistas e suas próprias partituras originais.

Maria T que saiu em 2005, é uma obra absolutamente épica. O álbum re-conecta Alexander Balanescu e seu quarteto com suas raízes romenas, como uma homenagem a uma de suas primeiras influências musicais, a icônica cantora folk e atriz Maria Tanase. Para o lançamento, ele pegou os trabalhos de Tanase e depois os reinventou através de suas próprias perspectivas musicais ecléticas, e o resultado é facilmente um dos trabalhos mais impressionantes já feitos pelo grupo.

Tal como acontece com muitos dos seus lançamentos, Maria T não é simplesmente o trabalho de um quarteto de cordas, pois incorpora percussão e até mesmo amostras de vocais de Tanase. "Spotdance" abre o lançamento com uma nota bastante otimista enquanto um motivo de cordas repetidas se move para frente e para trás à medida que as melodias de violino se desdobram em cima e a percussão se alarga de uma forma subtil mas persistente. A forma como a faixa se desdobra e até o modo como é construída deve muito à música eletrônica (especialmente nas peças melódicas repetidas e em camadas) e, como o melhor trabalho do grupo, recria a música de uma forma que contém os elementos da música. o original, enquanto ele está tomando novos lugares.

"Empty Space Dance" pega alguns dos mesmos elementos da primeira faixa e os tece de uma maneira ainda mais exótica, desdobrando os elementos ainda mais devagar antes que a percussão entre na faixa, a cerca de três quartos do caminho, e realmente mude a direção antes dela novamente cai fora. "Mountain Call" é apenas uma das várias faixas que usam os vocais sampleados de Tanase e, como seria de se esperar, o grupo dá uma sensação quase reverencial, permitindo que os vocais ocupem o primeiro plano e reverberem por longos períodos de tempo e reflexões melódicas subtis.

Muito parecido com o Kronos Quartet o Balanescu Quartet  excedeu muitas das expectativas que se pode ter de um quarteto de cordas sendo esta obra na minha opinião o seu momento máximo e talvez da música tradicional-clássica-contemporânea editada neste século. É muito difícil qualificar este Quarteto em termos musicais, mas não é positivismo da sua qualificação que embeleza esta notável obra, pois tal seria impossível. Se existem discos no limiar da perfeição absoluta, esta obra terá que estar dentro desse núcleo restrito.

Voltar ao Topo Ir em baixo
TD124
Membro AAP
avatar

Mensagens : 3778
Data de inscrição : 07/07/2010
Idade : 53
Localização : França

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Sab Set 01 2018, 16:59

Alexandre Vieira escreveu:


Muito parecido com o Kronos Quartet o Balanescu Quartet  excedeu muitas das expectativas que se pode ter de um quarteto de cordas sendo esta obra na minha opinião o seu momento máximo ...

Visto que gosto muito do Kronos ... tenho que escutar isso ràpidamente!!!

Obrigado pela dica e pelo belo texto

_________________
Il semble que la perfection soit atteinte, non quand il n'y a plus rien à ajouter mais quand il n'y a plus rien à retrancher... Antoine de Saint-Exupéry
Voltar ao Topo Ir em baixo
TD124
Membro AAP
avatar

Mensagens : 3778
Data de inscrição : 07/07/2010
Idade : 53
Localização : França

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Qui Set 13 2018, 11:29


A capa diz tudo sobre este album! Um fundo preto aonde apareçe em primeiro plano uma mulher sexy (Amanda Lear) que segura pela trela uma pantera ameaçante. Toda vestida de preto como o animal que a acompanha a sua pose é alternadamente provocatoria e dissuasiva. As unicas cores claras véem da sua pele e cabelo assim que dos dentes e dos olhos da pantera ... do tecido orgânico então. Mas, ao fundo as luzes fluorescentes duma grande cidade desenham um horizonte mineral, urbano. Serà New York, Londres, Hong-Kong?... pouco interessa pois esta obra interroga mas nunca responde. O estilista Antony Price cria com esta fotografia uma das capas mais estranhas da historia do Rock, pois todos os elementos permitem a dupla leitura. Humano, mineral, animal, sombrio, saturado de luz, libidinoso, ameaçante, elegante, frio, excitante ... todos estes adjectivos são tão vàlidos uns que os outros. A ambiguidade desta obra é total desde o primeiro olhar ...

O titulo "For Your Pleasure" (Para o teu prazer) não se fica atràs em termos de ambivalência. A frase é proferida pela Amanda Lear ao ouvinte?... ou é destinada tanto ao Brian Ferry que ao Eno, sendo estes respectivamente namorado e amante? Talvez seja proferida pelos dois homéns em direção da sua Musa à qual eles dedicam esta obra ... como um Adeus em claro obscuro, pois apòs este disco cada um dos três vai seguir o seu caminho separadamente. Mas talvez a pista mais concreta esteja na musica em si, como vamos ver...

Este album, o segundo dos Roxy Music é o ultimo com binômio Ferry/Eno. A evolução artistica do grupo està dividida entre a visão orgânica, sensual e melodica do primeiro e a vontade de exploração, de mineralidade e intelectualismo do segundo. Em bons amigos eles vão criar um compromisso quase impossivel e abdicar um pouco de si para dar lugar ao outro. O resultado é vertiginoso e o Rock dà um salto de gigante com este album. Do Elton John até ao Morrissey dos Smiths em passando pelo David Bowie, todos vão iconisar esta obra ... o Bowie vai mesmo profundamente se inspirar, ao limite do plágio!...

Se o resultado é reconhecido como o cimo do Glam-Rock, seria redutor de o limitar a tal etiqueta. O For your Pleasure é alternadamente um disco com ambiências progressivas, eléctronicas, psicadélicas e mesmo proto-punk ... todas executadas com alteridade e uma justeza artistica proxima da perfeição. Se o Avalon e o Music For Airports  serão o apogeu da visão do Ferry e o do Eno, é incontestàvel que a faisca dessas duas obras jà està na forma embrionària neste album. Um album dificil, por vezes hermético mas que atravessa o tempo sém uma ruga pois a verdadeira beleza é eterna...

_________________
Il semble que la perfection soit atteinte, non quand il n'y a plus rien à ajouter mais quand il n'y a plus rien à retrancher... Antoine de Saint-Exupéry
Voltar ao Topo Ir em baixo
Alexandre Vieira
Membro AAP
avatar

Mensagens : 4104
Data de inscrição : 11/01/2013
Idade : 48
Localização : The Other Band

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Qui Set 13 2018, 12:35

TD124 escreveu:

atravessa o tempo sém uma ruga pois a verdadeira beleza é eterna...

Tal como o teu texto!

Excelente dica e excelente exercício de escrita.

De facto é um disco enorme!

São artigos como este que me fazem acreditar que este é o melhor fórum de audio do País.

Muitos parabéns uma vez mais!
Voltar ao Topo Ir em baixo
TD124
Membro AAP
avatar

Mensagens : 3778
Data de inscrição : 07/07/2010
Idade : 53
Localização : França

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Sex Set 14 2018, 12:29


A dor, a desilusão e o desespero ... tais são as sensações ressentidas à escuta desta obra obcessiva e quase doentia. A potência da atmosfera sobria deste album é tal que o auditor sucumbe lentamente numa letargia melancolica. Tudo é beleza e tudo é tristeza nesta viagem crepuscular aonde os raios de luz são raros e queimam (Changes Made). A voz lânguida e monotona do Cale açentua a sensação de demência ... de loucura subjacente. O canto proximo do murmurio possui uma energia orgânica que contrasta com os arranjos minimalistas e repetitivos. Os raros momentos de tensão vocal são refreados induzindo uma raiva contida que amplia a frustração. As melodias de uma beleza rara são o aglutinante desta massa de argila biologica em lento movimento. Às vezes experimental, muitas vezes minimalista e por doutras aparentado à "chanson d'auteur" francesa, o estilo deste album é inclassàvel e a milhas afastado do Rock. Intelectualmente sumptuoso, musicalmente inspirado e humanamente devastador o "Music For a New Society" é o exacto oposto de uma obra consensual e asseptisada...

Não é de estranhar então o acolho "morno" que o album recebeu. Ainda hoje a obra deixa tão perplexo, que escrever sobre ela é trai-la, como se ela fosse indizivel. Apòs o que venho de dizer, a frase da critica no All Music que se acaba por "... e talvez seja uma obra-prima.", mostra até que ponto este disco perturba. Comprei o meu na Rua do Ouro ou da Prata e sempre alimentei uma relação ambigua pois de atração/repulsão. Venho de escutà-lo apòs vàrios (muitos) anos de dieta ... e o seu poder catàrtico continua intacto ou superior mesmo. Talvez hoje compreenda o que é a frustração, que esta seja humana, social ou professional... e por isso compreenda o que o John Cale sentia nesse momento. Talvez hoje esteja armado para ouvir Musica e não um estilo de musica...

Não sei se o "Music For a New Society" mudou algo ou alguém. Ném sei também se é uma obra-prima ou simplesmente uma obra altamente pessoal, intima e corajosa. Ném sei mesmo se este disco seria necessario numa ilha deserta ... mas sei que na nossa sociedade actual esta obra é simplesmente fundamental, obrigatoria, necessaria...
cheers

_________________
Il semble que la perfection soit atteinte, non quand il n'y a plus rien à ajouter mais quand il n'y a plus rien à retrancher... Antoine de Saint-Exupéry
Voltar ao Topo Ir em baixo
Alexandre Vieira
Membro AAP
avatar

Mensagens : 4104
Data de inscrição : 11/01/2013
Idade : 48
Localização : The Other Band

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Sex Set 14 2018, 15:55

Existe um música desse disco que ainda hoje, por motivos pessoais, mexe comigo de tal maneira, não a consigo ouvir por inteiro. É sem dúvida alguma o disco mais dramático e sensitivo que já ouvi na minha vida.

Uma vez mais Parabéns!!!!

E muito obrigado pela partilha, artigos deste nível dão trabalho.




Voltar ao Topo Ir em baixo
anibalpmm
Membro AAP
avatar

Mensagens : 9005
Data de inscrição : 05/03/2012
Idade : 52
Localização : Quinta do Anjo

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Sex Set 14 2018, 17:42

TD124 escreveu:

A dor, a desilusão e o desespero ... tais são as sensações ressentidas à escuta desta obra obcessiva e quase doentia. A potência da atmosfera sobria deste album é tal que o auditor sucumbe lentamente numa letargia melancolica. Tudo é beleza e tudo é tristeza nesta viagem crepuscular aonde os raios de luz são raros e queimam (Changes Made). A voz lânguida e monotona do Cale açentua a sensação de demência ... de loucura subjacente. O canto proximo do murmurio possui uma energia orgânica que contrasta com os arranjos minimalistas e repetitivos. Os raros momentos de tensão vocal são refreados induzindo uma raiva contida que amplia a frustração. As melodias de uma beleza rara são o aglutinante desta massa de argila biologica em lento movimento. Às vezes experimental, muitas vezes minimalista e por doutras aparentado à "chanson d'auteur" francesa, o estilo deste album é inclassàvel e a milhas afastado do Rock. Intelectualmente sumptuoso, musicalmente inspirado e humanamente devastador o "Music For a New Society" é o exacto oposto de uma obra consensual e asseptisada...

Não é de estranhar então o acolho "morno" que o album recebeu. Ainda hoje a obra deixa tão perplexo, que escrever sobre ela é trai-la, como se ela fosse indizivel. Apòs o que venho de dizer, a frase da critica no All Music que se acaba por "... e talvez seja uma obra-prima.", mostra até que ponto este disco perturba. Comprei o meu na Rua do Ouro ou da Prata e sempre alimentei uma relação ambigua pois de atração/repulsão. Venho de escutà-lo apòs vàrios (muitos) anos de dieta ... e o seu poder catàrtico continua intacto ou superior mesmo. Talvez hoje compreenda o que é a frustração, que esta seja humana, social ou professional... e por isso compreenda o que o John Cale sentia nesse momento. Talvez hoje esteja armado para ouvir Musica e não um estilo de musica...

Não sei se o "Music For a New Society" mudou algo ou alguém. Ném sei também se é uma obra-prima ou simplesmente uma obra altamente pessoal, intima e corajosa. Ném sei mesmo se este disco seria necessario numa ilha deserta ... mas sei que na nossa sociedade actual esta obra é simplesmente fundamental, obrigatoria, necessaria...
cheers
Para mim o melhor disco de J Cale e “close watch” a melhor canção de amor q alguma vez ouvi
Uma obra-prima absoluta IMHO
De vez em quando tem q ir ao castigo
Voltar ao Topo Ir em baixo
Alexandre Vieira
Membro AAP
avatar

Mensagens : 4104
Data de inscrição : 11/01/2013
Idade : 48
Localização : The Other Band

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Seg Set 17 2018, 21:25



Lotusflow3r  é bem mais que um treino de herói de guitarra de uma época em que isso não envolvia um PlayStation, é metade rock acid de Jimi Hendrix, meio jazz lounge de Randy Newman, com o James Brown a cantar. Há um cover de Tommy James e Crimson and Clover dos Shondell, mas a maior parte deste álbum é onde o Prince colocou seu talento absoluto.

Arredado que ficou de editar como os "artistas normais" Prince, conseguiu neste disco fazer recordar porque ninguém consegue ficar indiferente à sua carreira e enorme talento.
É verdade ele tocava guitarra quase tão bem como Hendrix, cantava quase tão bem como Brown inclusivamente dançava quase tão bem como Jackson. Mas nenhum deles conseguia fazer tudo tão bem como ele.



Lotusflow3r é uma viagem experimental, às vezes psicadélica. O som é espaçoso, colorido com jazz e funk, apresentando as habilidades de guitarra sensualmente expressivas de Prince. Desde o início, a música tem como objetivo afastar-se do Prince comercial para ser um Prince que toca como tocaria Prince se nunca tivesse sido comercial. Mas o fascínio é mesmo esse, ninguém consegue copiar Prince tão bem como Prince. O que torna este disco brutal é apercebermos-nos que este senhor fez o Funk o que quis e lhe apeteceu, sem deixar de espreitar outros ambientes, quando lhe apetecia. Sem perder de vista as suas referências. Prince tira o seu chapéu a James Brown em "Feel Good, Feel Better, Feel Wonderful". É um funk sólido, as letras são ocasionalmente um pouco sombrias, mas a música mais do que compensa isso.




"Dreamer", uma música rock and roll divertida com um aceno claro para Jimi Hendrix, é outra faixa sólida com excelentes performances de guitarra. "Love Like Jazz" se destaca como o momento completamente incongruente, soa como bossa nova cruzado com música de show de filme retro dos anos 80. Ou seja ele consegue refazer a estética ultrapassada  e com isso criar música intemporal.




Este álbum não foi de modo algum bem recebido pela critica, nomeadamente pela critica que critica o Mainstream, pudera, ele como autor havia saído do circuito comercial. No entanto neste disco ele quase toca o fado em "77 Bevery Park", consegue saltar a vedação da estética em "Wall of Berlin" que é um tema aparentemente vulgar, até que nos apercebemos da sua evolução, para um estilo muito peculiar do Prince, cantar como um Rapper e ao mesmo tempo manter a estética Funk, tudo isto tocando um solo que Gilmor ficaria orgulhoso de ter sido autor.

Tudo tem a estética Prince, que só se sente a falta quando não a temos. Considero este disco o maior feito da sua enorme carreira. Um álbum de Prince dos tempos mais recentes que espectacularmente recria Prince de outros tempos, sem perder um milímetro um para o outro, pelo contrário! Pelo menos para quem escutar sem arquétipos.




Se existem discos esquecidos pelo tempo e pela critica este é um deles e acho que merece sinceramente atenção de todos os que gostam de "música com estilo independentemente do estilo de música".
Voltar ao Topo Ir em baixo
TD124
Membro AAP
avatar

Mensagens : 3778
Data de inscrição : 07/07/2010
Idade : 53
Localização : França

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Qui Set 27 2018, 10:25


Uma referência noutro topico ao Bonnie "Prince" Billy levou-me a pensar ao album "Spiderland" dos Slint. Esta obra que é "cultissima" hoje, nasceu num anonimato total em 1991, o que não é de estranhar pois grandes discos como o Laughing Stock ou o Nevermind apareçeram três meses depois nesse mesmo ano. Portanto o acolho critico até foi mais ou menos bom, mas o publico negou-se à obra ... apenas uns milhares de discos vendidos em dez anos. As razões desse fiasco são multiplas e vão dos conflitos internos até à ausência de concertos ... mas é sobretudo a arquitectura musical desta obra que vai perturbar o publico.

Os "Slint" é a historia de quatro adolescentes de Louisville (Kentucky) que decidem de fazer um grupo que "não soasse como nenhum outro...". Apòs um primeiro disco lançado num anonimato total e sém essência musical definida os rapazes vão apontar noutra direção. O "Spiderland" vai ser simultaneamente a apoteose e o fim dos Slint pois, apòs os quatro dias de gravação o grupo dissolve-se e cada membro parte em direções opostas. No entanto o legado desde disco é imenso ao ponto de ser visto com um pilar fundador do Post-Rock e do Math-Rock. Efectivamente sém o "Spiderland" a musica dos Mogwai, GY!BE ou Sigur Ros não seria a mesma, ou talvez ném existisse, mas a influência vai além do circulo restrito do Post-Rock. A PJ Harvey considera-o como o seu disco preferido e os Bono e Eno fizeram algumas alusões ditirâmbicas ao album, tanto pela sua espontaneidade que pela pertinência e espirito inventivo ...

Mas o essencial està verdadeiramente nesta musica ... estranha, fragmentada, misteriosa e supremamente potente que hipnotisa o auditor. Entrar no "Spiderland" é se assentar na carruagem da maior montanha russa, sém saber como e aonde a viajem nos leva. Numa alternância permanente o disco ofereçe momentos de graça melodica e de furacões destructores. A ritmica inconstante e inventiva pareçe desconectada da(s) melodia(s) ela mesma em metamorfose permanente, desviando o espirito do auditor e dando o sentimento de caos. Sim, esta musica perturba os espiritos habituados à mecânica binària do Rock e mesmo aqueles habituados às rupturas do "Progressivo" pois, aqui não se trata de um exercicio de estilo programado mas é toda a arquitectura musical que é diferente. Cada faixa é construida em fragmentos dissociados e em re-evolução permanente que acabam por criar uma coerência implacàvel, complexa e quase mistica. A beleza diafana é criada para ser imediatamente destruida num ciclo repetitivo sém repetição aparente ... e de repente tudo soa novo, diferente, misterioso e magnético, màgico!...

Com o tempo, pois jà là vão 27 anos, o "Spiderland" acedeu ao estatuto de obra-prima, de album fundamental o que faz dele uma obra "cultissima" como jà disse e que os iniciados apresentam como uma arma, um trunfo contra o mainstream e o Rock dos anos setenta. Por detràs da sua aparência espontanea e hermética este album é um curto-circuito intelectual e sensitivo pois questiona a evolução do Rock ... os seus limites e a sua função. Galardoado de "Ten fucking stars" (Dez filhas da pu%&a de estrelas) pelo Steve Albini, como se a nota màxima de dez não fosse suficiente o "Spiderland" continua o seu trabalho de ramificação subterraneo. Uma obra imensa, desconhecida e profética da qual o auditor não sai ileso. Um disco dificil que se torna evidente escuta apòs escuta ...

Quanto à relação entre este disco e o Bonnie "Prince" Billy ... bem não existe relação directa, ném musical. Mas a foto da capa do album foi feita por um amigo dos Slint que se chama Will Oldham aliàs Bonnie "Prince" Billy ... voilà!

_________________
Il semble que la perfection soit atteinte, non quand il n'y a plus rien à ajouter mais quand il n'y a plus rien à retrancher... Antoine de Saint-Exupéry
Voltar ao Topo Ir em baixo
Mário Franco
Membro AAP
avatar

Mensagens : 2045
Data de inscrição : 27/03/2013
Idade : 60
Localização : Paço de Arcos

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Qui Set 27 2018, 15:26

Já não vinha a este tópico há algum tempo e está fantástico, há aqui muito "miolo"
Voltar ao Topo Ir em baixo
frias
Membro AAP
avatar

Mensagens : 467
Data de inscrição : 05/06/2013
Idade : 62
Localização : Camarate

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Sex Set 28 2018, 18:46

Alexandre Vieira escreveu:
Gandalf - Gandalf

Resgatei e ampliei um post que fiz, já faz uns anos, por aqui.

Gandalf é banda hoje em dia pouco conhecida do final dos anos 1960 embora à data fosse grupo de rock psicodélico influente.
Eles eram uma banda americana, originalmente chamados de Rahgoos e formado por Peter Sando, Frank Hubach, Bob Muller e Davy Bauer.




Mas quando assinatam um contrato com a editora Capitol Records, em 1967, esta fez os mudar o nome da banda para Gandalf.
Eles gravaram seu primeiro e único LP do mesmo ano. O registro inclui covers de Tim Hardin, Eden Ahbez e Bonner & Gordon (os escritores de "Happy Together") e duas canções compostas pelo guitarrista da banda, Peter Sando.




Mas a Capitol Records ao que apurei desprezou este trabalho belíssimo, e embora tivesse sido gravado em 1968, só lançou o LP em 1969, e mesmo estas vinham por um erro de produção com o registo errado, ou seja as primeiras cópias que vinham dentro das capas eram de uma outra banda. As cópias foram recolhidas mas este feito danificou a carreira da banda. Capitol, posteriormente, não promoveu o trabalho o que piorou as vendas de tal modo que a banda que produziu um dos melhores trabalhos dos anos 60, ficou quase que como eternamente desconhecida. Ao longo dos anos a reputação do álbum, a que muitos já chamaram “a melhor pérola de perdida de sempre”, cresceu e foi re-lançado pela registros Sundazed em 2002.



Na minha opinião este é um disco imperdível em qualquer discografia, assim que ouvi os seus primeiros acordes, fiquei com a nítida sensação que havia “descoberto” uma obra notável do período psicadélico, interpolada com cheirinhos aqui e alí de Pink Floyd e The Doors, misturados num ambiência única e pouco desgastada pelo tempo.
Passados quarenta e sete anos sobre o seu lançamento, penso que está na altura de lhes ser reconhecido o seu enorme génio.
Audição e compra obrigatória (cuidado com o vinil que é de muito pouca qualidade…).


Já comprei, vamos ver e ouvir se é tão bom como dizes.
Voltar ao Topo Ir em baixo
http://www.franciscofrias.com
Alexandre Vieira
Membro AAP
avatar

Mensagens : 4104
Data de inscrição : 11/01/2013
Idade : 48
Localização : The Other Band

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Sab Set 29 2018, 00:06

TD124 escreveu:

Uma referência noutro topico ao Bonnie "Prince" Billy levou-me a pensar ao album "Spiderland" dos Slint. Esta obra que é "cultissima" hoje, nasceu num anonimato total em 1991, o que não é de estranhar pois grandes discos como o Laughing Stock ou o Nevermind apareçeram três meses depois nesse mesmo ano. Portanto o acolho critico até foi mais ou menos bom, mas o publico negou-se à obra ... apenas uns milhares de discos vendidos em dez anos. As razões desse fiasco são multiplas e vão dos conflitos internos até à ausência de concertos ... mas é sobretudo a arquitectura musical desta obra que vai perturbar o publico.

Os "Slint" é a historia de quatro adolescentes de Louisville (Kentucky) que decidem de fazer um grupo que "não soasse como nenhum outro...". Apòs um primeiro disco lançado num anonimato total e sém essência musical definida os rapazes vão apontar noutra direção. O "Spiderland" vai ser simultaneamente a apoteose e o fim dos Slint pois, apòs os quatro dias de gravação o grupo dissolve-se e cada membro parte em direções opostas. No entanto o legado desde disco é imenso ao ponto de ser visto com um pilar fundador do Post-Rock e do Math-Rock. Efectivamente sém o "Spiderland" a musica dos Mogwai, GY!BE ou Sigur Ros não seria a mesma, ou talvez ném existisse, mas a influência vai além do circulo restrito do Post-Rock. A PJ Harvey considera-o como o seu disco preferido e os Bono e Eno fizeram algumas alusões ditirâmbicas ao album, tanto pela sua espontaneidade que pela pertinência e espirito inventivo ...

Mas o essencial està verdadeiramente nesta musica ... estranha, fragmentada, misteriosa e supremamente potente que hipnotisa o auditor. Entrar no "Spiderland" é se assentar na carruagem da maior montanha russa, sém saber como e aonde a viajem nos leva. Numa alternância permanente o disco ofereçe momentos de graça melodica e de furacões destructores. A ritmica inconstante e inventiva pareçe desconectada da(s) melodia(s) ela mesma em metamorfose permanente, desviando o espirito do auditor e dando o sentimento de caos. Sim, esta musica perturba os espiritos habituados à mecânica binària do Rock e mesmo aqueles habituados às rupturas do "Progressivo" pois, aqui não se trata de um exercicio de estilo programado mas é toda a arquitectura musical que é diferente. Cada faixa é construida em fragmentos dissociados e em re-evolução permanente que acabam por criar uma coerência implacàvel, complexa e quase mistica. A beleza diafana é criada para ser imediatamente destruida num ciclo repetitivo sém repetição aparente ... e de repente tudo soa novo, diferente, misterioso e magnético, màgico!...

Com o tempo, pois jà là vão 27 anos, o "Spiderland" acedeu ao estatuto de obra-prima, de album fundamental o que faz dele uma obra "cultissima" como jà disse e que os iniciados apresentam como uma arma, um trunfo contra o mainstream e o Rock dos anos setenta. Por detràs da sua aparência espontanea e hermética este album é um curto-circuito intelectual e sensitivo pois questiona a evolução do Rock ... os seus limites e a sua função. Galardoado de "Ten fucking stars" (Dez filhas da pu%&a de estrelas) pelo Steve Albini, como se a nota màxima de dez não fosse suficiente o "Spiderland" continua o seu trabalho de ramificação subterraneo. Uma obra imensa, desconhecida e profética da qual o auditor não sai ileso. Um disco dificil que se torna evidente escuta apòs escuta ...

Quanto à relação entre este disco e o Bonnie "Prince" Billy ... bem não existe relação directa, ném musical. Mas a foto da capa do album foi feita por um amigo dos Slint que se chama Will Oldham aliàs Bonnie "Prince" Billy ... voilà!



Grande artigo e excelente escolha!
Voltar ao Topo Ir em baixo
Alexandre Vieira
Membro AAP
avatar

Mensagens : 4104
Data de inscrição : 11/01/2013
Idade : 48
Localização : The Other Band

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Sab Set 29 2018, 00:10

frias escreveu:
Alexandre Vieira escreveu:
Gandalf - Gandalf

Resgatei e ampliei um post que fiz, já faz uns anos, por aqui.

Gandalf é banda hoje em dia pouco conhecida do final dos anos 1960 embora à data fosse grupo de rock psicodélico influente.
Eles eram uma banda americana, originalmente chamados de Rahgoos e formado por Peter Sando, Frank Hubach, Bob Muller e Davy Bauer.




Mas quando assinatam um contrato com a editora Capitol Records, em 1967, esta fez os mudar o nome da banda para Gandalf.
Eles gravaram seu primeiro e único LP do mesmo ano. O registro inclui covers de Tim Hardin, Eden Ahbez e Bonner & Gordon (os escritores de "Happy Together") e duas canções compostas pelo guitarrista da banda, Peter Sando.




Mas a Capitol Records ao que apurei desprezou este trabalho belíssimo, e embora tivesse sido gravado em 1968, só lançou o LP em 1969, e mesmo estas vinham por um erro de produção com o registo errado, ou seja as primeiras cópias que vinham dentro das capas eram de uma outra banda. As cópias foram recolhidas mas este feito danificou a carreira da banda. Capitol, posteriormente, não promoveu o trabalho o que piorou as vendas de tal modo que a banda que produziu um dos melhores trabalhos dos anos 60, ficou quase que como eternamente desconhecida. Ao longo dos anos a reputação do álbum, a que muitos já chamaram “a melhor pérola de perdida de sempre”, cresceu e foi re-lançado pela registros Sundazed em 2002.



Na minha opinião este é um disco imperdível em qualquer discografia, assim que ouvi os seus primeiros acordes, fiquei com a nítida sensação que havia “descoberto” uma obra notável do período psicadélico, interpolada com cheirinhos aqui e alí de Pink Floyd e The Doors, misturados num ambiência única e pouco desgastada pelo tempo.
Passados quarenta e sete anos sobre o seu lançamento, penso que está na altura de lhes ser reconhecido o seu enorme génio.
Audição e compra obrigatória (cuidado com o vinil que é de muito pouca qualidade…).


Já comprei, vamos ver e ouvir se é tão bom como dizes.

Não é tão bom como aquele do Rei, mas anda lá perto. smedley
Voltar ao Topo Ir em baixo
TD124
Membro AAP
avatar

Mensagens : 3778
Data de inscrição : 07/07/2010
Idade : 53
Localização : França

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Seg Out 01 2018, 18:32


Um suicidio comercial ... tal foi a frase proferida pelo productor do Bruce Springsteen apòs a escuta do crepuscular Nebraska. Esta frase encerra em si todo o mito e a grandeza que envolve hoje esta obra-prima. Tudo jà foi dito sobre este album e finalmente absolutamente nada ... pois o mistério continua intacto e por vàrias razões, a primeira sendo que é um album do "Boss", e vindo dele esta obra é inesperada. Claro que a "causa social" sempre esteve no centro da sua obra, mas vestida de Rock n'Roll, maquilhada e quase disfarçada com a ambivalência que a musica binària permite.  Quando a potência ritmica desaparece, quando a energia sonora se torna muda, o impacto e a força deixam de ser fisicos e são obrigatoriamente interiores, intimos, viscerais, solitarios ...

Esta obra austera e simples encontra a sua originalidade na diferente essência que possui em relação aos grandes interpretes "sociais" da época, Dylan, Cohen, Young, Cash e outros. Em primeiro lugar porque o Springsteen não é um cantor ném folk ném country e de outro porque a sua escrita é simples, directa e quase inocente. Despida de exercicio de estilo ou de construção poética a prosa do Boss é altamente universal e toca o auditor pelo conteudo, não pela forma. A construção minimalista e improvisada deste album acentua o poder catàrtico das canções desesperadas e lugubres que o compõem. O artista fala de vidas desperdiçadas, de violência, de um quotidiano banal e àspero aonde tudo pareçe normal ... mas não o é!  A américa descrita no Nebraska é azeda e podre mas é cantada com a empatia daqueles que não sabem criticar, apenas amar, sofrer, sentir...

Gravado num banal gravador de K7's, sòzinho na sua casa e executado à guitarra/ harmonica exclusivamente, este album é o arquetipo do verdadeiro "disco de autor". Raramente um tão prestigioso artista, pois nessa época estava no auge, se abandonou tão intimamente, raramente a musica popular americana foi tão grande, raramente um tão pequeno disco se elevou tão alto. Ano apòs ano desde a sua aparição o Nebraska continua a sua ascensão como obra intensa, necessaria e padrão da realidade social americana. Na sua obcessão objectiva e quase fotografica de cristalisar a sociedade o Bruce Springsteen toca do dedo algo de impossivel ... falar sobre o indizivel. Uma obra profética e nobre que enalteçe o mundo do Rock ...

_________________
Il semble que la perfection soit atteinte, non quand il n'y a plus rien à ajouter mais quand il n'y a plus rien à retrancher... Antoine de Saint-Exupéry
Voltar ao Topo Ir em baixo
Pmoura43
Membro AAP
avatar

Mensagens : 440
Data de inscrição : 25/03/2012
Idade : 51
Localização : São Martinho do Porto

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Seg Out 01 2018, 18:35

TD124 escreveu:

Um suicidio comercial ... tal foi a frase proferida pelo productor do Bruce Springsteen apòs a escuta do crepuscular Nebraska. Esta frase encerra em si todo o mito e a grandeza que envolve hoje esta obra-prima. Tudo jà foi dito sobre este album e finalmente absolutamente nada ... pois o mistério continua intacto e por vàrias razões, a primeira sendo que é um album do "Boss", e vindo dele esta obra é inesperada. Claro que a "causa social" sempre esteve no centro da sua obra, mas vestida de Rock n'Roll, maquilhada e quase disfarçada com a ambivalência que a musica binària permite.  Quando a potência ritmica desaparece, quando a energia sonora se torna muda, o impacto e a força deixam de ser fisicos e são obrigatoriamente interiores, intimos, viscerais, solitarios ...

Esta obra austera e simples encontra a sua originalidade na diferente essência que possui em relação aos grandes interpretes "sociais" da época, Dylan, Cohen, Young, Cash e outros. Em primeiro lugar porque o Springsteen não é um cantor ném folk ném country e de outro porque a sua escrita é simples, directa e quase inocente. Despida de exercicio de estilo ou de construção poética a prosa do Boss é altamente universal e toca o auditor pelo conteudo, não pela forma. A construção minimalista e improvisada deste album acentua o poder catàrtico das canções desesperadas e lugubres que o compõem. O artista fala de vidas desperdiçadas, de violência, de um quotidiano banal e àspero aonde tudo pareçe normal ... mas não o é!  A américa descrita no Nebraska é azeda e podre mas é cantada com a empatia daqueles que não sabem criticar, apenas amar, sofrer, sentir...

Gravado num banal gravador de K7's, sòzinho na sua casa e executado à guitarra/ harmonica exclusivamente, este album é o arquetipo do verdadeiro "disco de autor". Raramente um tão prestigioso artista, pois nessa época estava no auge, se abandonou tão intimamente, raramente a musica popular americana foi tão grande, raramente um tão pequeno disco se elevou tão alto. Ano apòs ano desde a sua aparição o Nebraska continua a sua ascensão como obra intensa, necessaria e padrão da realidade social americana. Na sua obcessão objectiva e quase fotografica de cristalisar a sociedade o Bruce Springsteen toca do dedo algo de impossivel ... falar sobre o indizivel. Uma obra profética e nobre que enalteçe o mundo do Rock ...

Ainda hoje é para mim e para a minha cara metade o melhor album do Boss

Obrigado por lembrares esta obra magnifica, mas para mim sempre foi Bestial
Voltar ao Topo Ir em baixo
Alexandre Vieira
Membro AAP
avatar

Mensagens : 4104
Data de inscrição : 11/01/2013
Idade : 48
Localização : The Other Band

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Seg Out 01 2018, 19:19

TD124 escreveu:

Um suicidio comercial ... tal foi a frase proferida pelo productor do Bruce Springsteen apòs a escuta do crepuscular Nebraska. Esta frase encerra em si todo o mito e a grandeza que envolve hoje esta obra-prima. Tudo jà foi dito sobre este album e finalmente absolutamente nada ... pois o mistério continua intacto e por vàrias razões, a primeira sendo que é um album do "Boss", e vindo dele esta obra é inesperada. Claro que a "causa social" sempre esteve no centro da sua obra, mas vestida de Rock n'Roll, maquilhada e quase disfarçada com a ambivalência que a musica binària permite.  Quando a potência ritmica desaparece, quando a energia sonora se torna muda, o impacto e a força deixam de ser fisicos e são obrigatoriamente interiores, intimos, viscerais, solitarios ...

Esta obra austera e simples encontra a sua originalidade na diferente essência que possui em relação aos grandes interpretes "sociais" da época, Dylan, Cohen, Young, Cash e outros. Em primeiro lugar porque o Springsteen não é um cantor ném folk ném country e de outro porque a sua escrita é simples, directa e quase inocente. Despida de exercicio de estilo ou de construção poética a prosa do Boss é altamente universal e toca o auditor pelo conteudo, não pela forma. A construção minimalista e improvisada deste album acentua o poder catàrtico das canções desesperadas e lugubres que o compõem. O artista fala de vidas desperdiçadas, de violência, de um quotidiano banal e àspero aonde tudo pareçe normal ... mas não o é!  A américa descrita no Nebraska é azeda e podre mas é cantada com a empatia daqueles que não sabem criticar, apenas amar, sofrer, sentir...

Gravado num banal gravador de K7's, sòzinho na sua casa e executado à guitarra/ harmonica exclusivamente, este album é o arquetipo do verdadeiro "disco de autor". Raramente um tão prestigioso artista, pois nessa época estava no auge, se abandonou tão intimamente, raramente a musica popular americana foi tão grande, raramente um tão pequeno disco se elevou tão alto. Ano apòs ano desde a sua aparição o Nebraska continua a sua ascensão como obra intensa, necessaria e padrão da realidade social americana. Na sua obcessão objectiva e quase fotografica de cristalisar a sociedade o Bruce Springsteen toca do dedo algo de impossivel ... falar sobre o indizivel. Uma obra profética e nobre que enalteçe o mundo do Rock ...

Apesar de Bowie ter cantado Bruce Springsteen, eu sempre me arrepiei de toda a vez que lhe ouvi a voz. Por isso nunca tive em conta nem obra, nem a vida deste decano senhor da música.
Mas este artigo do Paulo está a ter o condão de me "forçar" a ouvir este álbum, com a mesma atenção com que li o artigo.
Está a rodar, confesso que muitas vezes não é fácil desligar-me dos arquétipos. Não está a soar mai, vamos ver no que dá.

Mas bem hajas pelo tempo despendido e pela beleza das tuas letras
Voltar ao Topo Ir em baixo
TD124
Membro AAP
avatar

Mensagens : 3778
Data de inscrição : 07/07/2010
Idade : 53
Localização : França

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Qua Out 03 2018, 09:11

Alexandre Vieira escreveu:
... Apesar de Bowie ter cantado Bruce Springsteen, eu sempre me arrepiei de toda a vez que lhe ouvi a voz.  Por isso nunca tive em conta nem obra, nem a vida deste decano senhor da música.
...
Está a rodar, confesso que muitas vezes não é fácil desligar-me dos arquétipos. ...

Acho engraçado o que dizes e na realidade deveria-mos nos evangelizar mutualmente ... pois eu é o Bowie que nunca passou, ou nunca entrei na obra. Possuo os principais discos do passado em ficheiro e um punhado mais recentes e apesar de vàrias vezes ter tentado entrar na obra, a mesma sensação subsiste. O monumental trabalho proteiforme desse artista pareçe-me sempre controlado, polido e algo frio ... tenho sempre o sentimento que a obra é mais inteligente do que inspirada. Não consigo abandonar a sensação que o "camaleão" tomou as cores dos outros ... sém que saiba se as fez suas ou simplesmente diferentes. A postura androgina dos Roxy Music, a teatralidade dos Genesis, o espaço sonoro do Eno, a intelectualidade hermetica de um Cale ou Wyatt ou a folk directa e melodica do Cat Stevens ... são influências que me pareçem evidentes nos anos setenta e a lista continua década apòs década. Fico então sempre perplexo à escuta e partilhado entre a ideia que seja um inteligente usurpador ou um génio polimorfo ... mas sinto raramente a visceralidade e a honestidade artistica, deveria talvez dizer humana!...

Excepção ao que digo, pois hà sempre uma excepção é o ultimo disco Blackstar do qual possuo o vinilo e que adoro. Aqui, o camaleão torna-se translucido ... e talvez seja essa a sua cor. Sinto nesta obra um Bowie generoso, altivo, digno, corajoso ... o homém toca-me e deixa em epilogo uma obra que convida à reflexão, ao sentir(se)!...

cheers

_________________
Il semble que la perfection soit atteinte, non quand il n'y a plus rien à ajouter mais quand il n'y a plus rien à retrancher... Antoine de Saint-Exupéry
Voltar ao Topo Ir em baixo
Pmoura43
Membro AAP
avatar

Mensagens : 440
Data de inscrição : 25/03/2012
Idade : 51
Localização : São Martinho do Porto

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Qua Out 03 2018, 18:35

TD124 escreveu:
Alexandre Vieira escreveu:
... Apesar de Bowie ter cantado Bruce Springsteen, eu sempre me arrepiei de toda a vez que lhe ouvi a voz.  Por isso nunca tive em conta nem obra, nem a vida deste decano senhor da música.
...
Está a rodar, confesso que muitas vezes não é fácil desligar-me dos arquétipos. ...

Acho engraçado o que dizes e na realidade deveria-mos nos evangelizar mutualmente ... pois eu é o Bowie que nunca passou, ou nunca entrei na obra. Possuo os principais discos do passado em ficheiro e um punhado mais recentes e apesar de vàrias vezes ter tentado entrar na obra, a mesma sensação subsiste. O monumental trabalho proteiforme desse artista pareçe-me sempre controlado, polido e algo frio ... tenho sempre o sentimento que a obra é mais inteligente do que inspirada. Não consigo abandonar a sensação que o "camaleão" tomou as cores dos outros ... sém que saiba se as fez suas ou simplesmente diferentes. A postura androgina dos Roxy Music, a teatralidade dos Genesis, o espaço sonoro do Eno, a intelectualidade hermetica de um Cale ou Wyatt ou a folk directa e melodica do Cat Stevens ... são influências que me pareçem evidentes nos anos setenta e a lista continua década apòs década. Fico então sempre perplexo à escuta e partilhado entre a ideia que seja um inteligente usurpador ou um génio polimorfo ... mas sinto raramente a visceralidade e a honestidade artistica, deveria talvez dizer humana!...

Excepção ao que digo, pois hà sempre uma excepção é o ultimo disco Blackstar do qual possuo o vinilo e que adoro. Aqui, o camaleão torna-se translucido ... e talvez seja essa a sua cor. Sinto nesta obra um Bowie generoso, altivo, digno, corajoso ... o homém toca-me e deixa em epilogo uma obra que convida à reflexão, ao sentir(se)!...

cheers

Eu sou um amante do Bowie,

Parece efeminado, pois parece

Mas quando era mais novo costumava dizer que se fosse "gaja" seria com ele que queria ficar.

Passando esta parte, falando a sério, o que me deslumbrou nele, foram os anos do Ziggy e a sua teatralidade, originalidade do seu alter-ego, fez coisas fantásticas.

Inspirado obviamente por muitos, como a maioria dos artistas, mas teve também a capacidade de inovar, e recuando à Época, ele arriscou tudo.

Os anos 90/2000 não foi para mim um período excelente musicalmente falando, para o meu gosto, mas mais uma vez, adaptou-se.

Este último álbum, faço tuas as minhas palavras, está tudo dito.

Voltar ao Topo Ir em baixo
Alexandre Vieira
Membro AAP
avatar

Mensagens : 4104
Data de inscrição : 11/01/2013
Idade : 48
Localização : The Other Band

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Qua Out 03 2018, 18:55

Pmoura43 escreveu:
TD124 escreveu:
Alexandre Vieira escreveu:
... Apesar de Bowie ter cantado Bruce Springsteen, eu sempre me arrepiei de toda a vez que lhe ouvi a voz.  Por isso nunca tive em conta nem obra, nem a vida deste decano senhor da música.
...
Está a rodar, confesso que muitas vezes não é fácil desligar-me dos arquétipos. ...

Acho engraçado o que dizes e na realidade deveria-mos nos evangelizar mutualmente ... pois eu é o Bowie que nunca passou, ou nunca entrei na obra. Possuo os principais discos do passado em ficheiro e um punhado mais recentes e apesar de vàrias vezes ter tentado entrar na obra, a mesma sensação subsiste. O monumental trabalho proteiforme desse artista pareçe-me sempre controlado, polido e algo frio ... tenho sempre o sentimento que a obra é mais inteligente do que inspirada. Não consigo abandonar a sensação que o "camaleão" tomou as cores dos outros ... sém que saiba se as fez suas ou simplesmente diferentes. A postura androgina dos Roxy Music, a teatralidade dos Genesis, o espaço sonoro do Eno, a intelectualidade hermetica de um Cale ou Wyatt ou a folk directa e melodica do Cat Stevens ... são influências que me pareçem evidentes nos anos setenta e a lista continua década apòs década. Fico então sempre perplexo à escuta e partilhado entre a ideia que seja um inteligente usurpador ou um génio polimorfo ... mas sinto raramente a visceralidade e a honestidade artistica, deveria talvez dizer humana!...

Excepção ao que digo, pois hà sempre uma excepção é o ultimo disco Blackstar do qual possuo o vinilo e que adoro. Aqui, o camaleão torna-se translucido ... e talvez seja essa a sua cor. Sinto nesta obra um Bowie generoso, altivo, digno, corajoso ... o homém toca-me e deixa em epilogo uma obra que convida à reflexão, ao sentir(se)!...

cheers

Eu sou um amante do Bowie,

Parece efeminado, pois parece

Mas quando era mais novo costumava dizer que se fosse "gaja" seria com ele que queria ficar.

Passando esta parte, falando a sério, o que me deslumbrou nele, foram os anos do Ziggy e a sua teatralidade, originalidade do seu alter-ego, fez coisas fantásticas.

Inspirado obviamente por muitos, como a maioria dos artistas, mas teve também a capacidade de inovar, e recuando à Época, ele arriscou tudo.

Os anos 90/2000 não foi para mim um período excelente musicalmente falando, para o meu gosto, mas mais uma vez, adaptou-se.

Este último álbum, faço tuas as minhas palavras, está tudo dito.

 

Comprei o último do grande Mestre assim que saiu; mas isto pode parecer patético mas no ano em que morreu, fui a mais funerais nesse preciso ano do que em todos os restantes anos da minha vida; e ainda colocar o disco a rodar faz-me mal na medida em que tudo vem ao de cima e ainda existem coisas para sedimentar. Pelo que é o disco que para já menos considero na sua mui vasta obra.

Mas, falar de Bowie é isso tudo que relataram, ele era pessoa informada que estava sempre em cima da ultima moda e tendência, pelo exposto recriava o que gostava na sua própria obra. Imitando? Não! Recriando? Sim! Mas com o seu cunho e manifesta identidade e com o vigor da sua liderança. Porque ele liderava outra grande artistas que com ele como laboravam. E não falo só em termos musicais, ele representou, foi poeta, saxofonista e acima de tudo um grande criador e propagador da moda de vanguarda.

E não conheço mais ninguém, nem os Stones, com esta capacidade de se reinventar e reinventar (peço desculpa pelo pleonasmo mas reforça o que quero dizer) sem perder a sua identidade!

Bowie é o maior artista musical do século xx! Ponto final parágrafo e não existe contraditório!

Querem democracia? Então não contestem Bowie.

Voltar ao Topo Ir em baixo
TD124
Membro AAP
avatar

Mensagens : 3778
Data de inscrição : 07/07/2010
Idade : 53
Localização : França

MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   Qua Out 24 2018, 13:02


Vinte anos apos o seu lançamento, o album Ocean Songs dos Dirty Three continua o seu lento caminho pelos subterraneos do esquecimento, da ignorância. Verà um dia a luz e serà um dia reconhecido como a obra fundamental que é ?... pareçe-me dificil a prever mas espero que tal aconteça. Em primeiro lugar porque a arte (musica) necessita de obras assim, pois tal é o seu fundamento e essência. Em segundo porque a humanidade sempre necessitou de se confrontar com o indizivel. Este epurado e ambicioso album conjuga estes dois elementos numa perfeição formal que sò é possivel quando a honestidade atinge o seu mais alto nivel de exigência, quando ela se torna orgânica e necessaria!...

Os Dirty Three liderados pelo Warren Ellis (violonista do Nick Cave), pelo guitarrista Mick Turner e pelo baterista Jim White formam um trio de Rock que magnifica o binàrio como outrora o Trio do Bill Evans tinha feito com o Jazz. A voz està ausente afim de exaltar a potência catàrtica da musica e a construção reactiva do tipo tensão/resolução conduziu a ser armazenada na gaveta do Post-Rock. Os três primeiros albuns do grupo criaram as condições ideais para que o trio seja considerado como "culto", mas esta quarta obra perturbou os auditores e mesmo a critica. Concebido apòs um "esgotamento cerebral" do Warren Ellis, este disco aparenta-se a um "ovni musical" aonde a urgência criativa é sublimada pelo resultado. Falsamente melancolico, intensamente contemplativo e altamente hipnotico o Ocean Songs convida o auditor a uma viagem introspectiva...

Muitos discos se reclamam da herança do Spirit of Eden simplesmente porque fogem ao discurso tradicional do rock, ao contràrio o Ocean Songs vai muito mais longe pois a sua beleza não é simplesmente formal, ela é sobretudo espiritual. Construido como uma ode obcessional ao Oceano, ela é fundamentalmente um hino ao elemento fundador da existência, ao berço da vida. Exaltar a beleza e a imensidão do "deserto de àgua" pela musica torna esta obra desmedida, ambiciosa e intensa ... quase mistica. Ir buscar respostas ao "existencialismo" ném em Deus, ném no homém, mas no Oceano, é virtuoso intelectualmente e avassalador artisticamente!!!...

_________________
Il semble que la perfection soit atteinte, non quand il n'y a plus rien à ajouter mais quand il n'y a plus rien à retrancher... Antoine de Saint-Exupéry
Voltar ao Topo Ir em baixo
Conteúdo patrocinado




MensagemAssunto: Re: De Bestas a Bestiais   

Voltar ao Topo Ir em baixo
 
De Bestas a Bestiais
Voltar ao Topo 
Página 1 de 2Ir à página : 1, 2  Seguinte

Permissão deste fórum:Você não pode responder aos tópicos neste fórum
Áudio Analógico de Portugal :: Música Geral-
Ir para: